De um ponto de vista pessoal, acredito que ainda ouviremos falar muito de Rebecca Miller. Filha do dramaturgo Arthur Miller (que foi casado com a deusa Marilyn Monroe), Rebecca passou por um período como atriz mas decidiu, em 2003, seguir os passos do pai e tornar-se uma escritora. Das páginas de seu mais recente romance A vida íntima de Pippa Lee, a escritora alçou um passo extremamente ousado e decidiu produzir e dirigir o longa metragem homônimo. O roteiro, mais do que óbvio, foi adaptado para o cinema pela própria Miller, afinal os roteiros de seus outros três longas levam sua assinatura: Ângela (1995), O tempo de cada um (2002) e O mundo de Jack e Rose (2005), este cujo papel principal foi personificado por seu marido, Daniel Day-Lewis, com o qual está casada há trezes anos.

Em A vida íntima… acompanhamos a trajetória de Pippa Lee (encarnada brilhantemente por Robin Wright Penn), uma mulher de classe média alta, casada com Herb (Alan Arkin), homem trinta anos mais velho que ela. Considerada um enigma por todos os seus amigos, ela esconde na aparência sensata e polida uma figura de personalidade múltipla e instigante.

Situações do tempo atual levam Pippa Lee a relembrar sua vida, desde o seu inusitado nascimento até a adolescência, quando vamos conhecendo a sua relação com a emblemática e complexa Suky (Maria Bello, ótima), sua mãe. Desse relacionamento dúbio que mistura amor e ódio, chegamos à sua adolescência, que toma corpo na bela Blake Lively (mais conhecida pelo papel de Serena na série de TV Gossip Girl).

Diante dos flashbacks, conhecemos uma mulher de muitas vidas e personalidades, que precisa rever sua trajetória de vida para conseguir fugir dos profundos traumas que afetam sua vida atual. Desde a mãe de personalidade indecifrável, passando pela adolescência imprudente regada a drogas até culminar em seu casamento com Herb, A vida íntima de Pippa Lee parece, em certos momentos, beber da fonte de obras como Beleza Americana (que trazia um personagem frustrado e prestes a explodir) com Os Excêntricos Tenembaums (com seu humor negro ao mostrar de perto as peculiaridades de seus personagens).

Herb, o marido, é um octogenário que tem medo de morrer a qualquer momento, acarretando uma crise em seu casamento; a filha Grace (Zoe Kazan), nutre um ódio inexplicável pela mãe; sua amiga Sandra (Winona Ryder, renascida das trevas) se mostrará uma (quase) inimiga em potencial. Porém, as coisas mudam quando o incompreendido Chris (Keanu Reeves, sempre apático), o filho de sua vizinha, muda-se de volta para a vizinhança. É por meio dele que Pippa observará sua vida de outro modo, fazendo-a repensar seus amores, angústias e sonhos.

Com um humor inteligente, um timing para a comédia surpreendente e uma direção segura, Miller traz uma pequena pérola cinematográfica, com personagens hilários e dramáticos ao mesmo tempo, saltando do drama para a comédia mordaz em questão de segundos e sem ofender o espectador.

A trilha sonora é um espetáculo à parte, bem como a direção de arte que recria, de forma nostálgica, os anos 50 e 70, respectivamente a infância e juventude de Pippa. Porém, o grande trunfo do filme apóia-se, de fato, em seus personagens. Desde participações curtas e marcantes de astros como uma quase irreconhecível (e lésbica) Julianne Moore até a estonteante beleza de Monica Belucci, A vida íntima de Pippa Lee desvenda personagens bizarros carregados de características peculiares e neuróticas comuns a muitos de nós.

Transportando uma espécie de fardo que lhe custou ter deixado para trás Pipa Sarkissiam e se tornado Pippa Lee, ela busca sua redenção entre momentos de contemplação e pura poesia. Delicioso, tornou-se, para mim, uma das maiores surpresas cinematográficas de 2009.

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