Nos primeiros momentos de 500 dias com ela, o espectador já é avisado: “Essa é a história de um rapaz que conhece uma garota. Mas, devo lhes dizer, isso não é uma história de amor”. O narrador com voz eloquente traça, então, um pequeno perfil dos personagens Tom Hansen (Joseph Gordon-Levitt) e Summer Finn (Zooey Deschanel). Ele, um garoto apaixonado e viciado em músicas românticas britânicas e suas letras melancólicas. Ela, uma garota que, depois da separação dos pais, deixou de acreditar no amor. Está aí a deliciosa – e melancólica – premissa de 500 dias com ela (ou 500 days of Summer, que ganha duplo sentido na versão original).

Dirigido pelo estreante em longas-metragens Marc Webb (que já comandou dezenas de videoclipes musicais, com um currículo em que constam artistas como Maroon Five, Weezer, Lenny Kravitz, Green Day e Regina Spektor), o filme é como se fosse composto de curtas histórias. Nada mais natural que Webb introduza tal experiência em sua estreia nas telonas, com um resultado extremamente satisfatório, contando, em um vai e vem temporal, a história dessa relação entre o romântico escritor de cartões comemorativos Tom e a colega de trabalho Summer, assistente de seu chefe.

Com inserções animadas e uma visualização dos sentimentos do personagem masculino, 500 dias com ela conta, com delicadeza e sinceridade, o relacionamento do casal. Tragicômico em certos momentos é interessante acompanhar Tom e Summer, que podem ter sido feitos um para o outro: a diferença é que ele acredita ser ela a mulher da sua vida mas, para ela, Tom pode não ser o homem de sua vida.

Empáticos e carismáticos, Joseph Gordon-Levitt (da série 3rd rock from the Sun e 10 coisas que eu odeio em você) e a apaixonante Zooey Deschanel (Quase famosos e vocalista da banda She and Him), convencem; e os espectadores torcem para que o final seja como, geralmente, se espera de uma comédia romântica: um viveram-felizes-para-sempre. A dupla, que já havia trabalhado junta no pouco conhecido Maníaco (2001), retorna às telas para contar uma história que conflita o amor romântico com o amor real.

Acompanhamos, em uma narrativa não linear, as idas e vindas de Tom e Summer, em situações que se sustentam no talento dos jovens atores, no ótimo roteiro e na primorosa trilha sonora pop, que vai de Smiths, passa pela primeira-dama francesa Carla Bruni, estende-se até Regina Spektor e vai até She and Him, a já citada banda de Zooey.

Em certos momentos, a perspectiva de Tom é colocada na tela, com originalidade e sutileza, como no momento em que a tela se divide em duas ao mostrar, simultaneamente, a mesma situação sob dois prismas: a realidade e a expectativa. E é nessa sacada de conhecer-o-que-deu-errado versus o-que-poderia-ter-dado-certo que o diretor tem seu ponto alto, sustentando-se em uma perfeição chamada Zooey Deschanel, que esbanja beleza, delicadeza e sensualidade, com uma personagem de gosto musical e artístico deliciosos. Enfim, o tipo de garota que qualquer garoto se apaixonaria.

Impossível não se identificar, especialmente, com Tom, que não entende alguém que não consegue se apaixonar nem render-se a um relacionamento. Seus amigos, personificados em secundários curiosos, lhe ajudarão a entender e agir com esse enigma chamado Summer Finn.

O final abrupto, porém esperançoso, pode quebrar um pouco o ritmo e magia do filme, mas dará um sorriso amarelo de consolo aos espectadores mais românticos. Mesmo assim, 500 dias com ela é uma surpresa ao falar de amor na juventude com seriedade, bem longe dos moldes superficiais nas quais muitos têm retratado.

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