Após o sucesso de Hedwig – Ódio, Amor e Traição (2001), destaque no cinema alternativo, o diretor, produtor, ator e roteirista John Cameron Mitchell lançou seu segundo longa metragem, Shortbus (2006).
Nesse mais recente trabalho (seu próximo filme, Rabbit Hole, tem estreia prevista para 2010), Mitchell foca, mais uma vez, na solidão dos personagens.

Acompanhamos a história do casal gay: o ex-ator Jamie (PJ DeBoy) e o ex-michê James   (Paul Dawson); a terapeuta de casais Sofia ( Sook-Yin Lee); e a fotógrafa Severin (Lindsay Beamish), que trabalha entretendo clientes com sessões de sadomasoquismo.

Quando James, um salva-vidas em depressão, decide com seu companheiro procurar ajuda com a terapeuta Sofia durante uma crise conjugal, a vida deles – e de tantos outros personagens – passarão por mudanças que darão cabo para um (auto) conhecimento do prazer (sexual ou não), da solidão e do amor.

Sofia é uma frígida, que vive uma mentira com seu marido Rob (Raphael Barker) e, após uma indicação dos Jamies, conhece Shortbus, um local destinado à busca pelo prazer, onde orgias acontecem o tempo todo. Lá ela conhecerá a problemática Severin, que tem uma dificuldade descomunal de interagir com outras pessoas.

Dentro de Shortbus, ainda é possível encontrar o romântico Ceth (o cantor-ator Jay Branann), que se envolve com o casal Jamie, que é vigiado 24 hs por dia por Caleb, o perseguidor voyeur do casal, que utiliza seu tempo livre para esmiuçar a vida dos dois.

E é nesse caldeirão de sentimentos, medos e inseguranças que Shortbus ganha seu mérito de retrato de uma sociedade pós-moderna, em que o sexo se tornou o conservadorismo e o amor ganhou status de transgressão.

Fincando suas raízes no Cinema Extremo que teve seu auge na década de 70, com liberação sexual e individual, o filme tem uma direção de arte que preza pela marginalidade, arte, urbanismo e cultura, expondo ao máximo os males de uma sociedade perdida de si mesma.

As cenas de sexo explícito com direito a auto-felação, voyeurismo e sadomasoquismo podem chocar os mais puritanos, mas os diálogos afiados (de autoria do próprio diretor) podem incomodar ainda mais, graças à ótima estória e ao elenco jovem e talentoso.

Com personagens que buscam o prazer, a satisfação, Shortbus tem um tom melancólico e ao mesmo tempo passeia pelo humor negro, com um paradoxo que não prejudica o seu resultado. Pelo contrário, ajuda a criar ainda mais essa relação de uso do sexo como tentativa de preenchimento de um vazio que recai sobre diversos fatores: o amor, a amizade, o diálogo, o medo, o encontrar-se no outro desconhecido como alguém que serve de consolo para dividir as angústias de uma sociedade cada vez mais individualista e egoísta.

Com uma trilha que cai como uma luva em todos os momentos, a solidão é tema recorrente no filme, alternando momentos de intenso teor erótico, mas abrindo espaço para a poesia e a contemplação filosófica de compreender a si mesmo em uma megalópole.

Um intrigante simbolismo ronda o filme todo: em momentos de catarse de seus personagens – especialmente a pré-orgásmica Sofia – a energia elétrica no espaço em que se passa o filme. E sustentado nesse simbolismo, Shortbus nos entrega um final esperançoso, dando-nos a sensação de que é possível enfrentar os medos e encontrar o prazer, seja ele em qual forma for.

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