Nos anos 40, a gravadora Chess Records deu o que falar. Localizada em Chicago, foi palco de alguns dos mais influentes artistas de blues da época e ficou conhecida como Cadillac Records por dar, como forma de pagamento a seus artistas, o tão sonhado carro que era sonho de consumo de dez entre dez norte-americanos.

Seu dono, Leonard/Len Chess, era um ambicioso empresário que via surgirem artistas cada vez mais talentosos que dominavam as rádios do país, com nomes como Muddy Waters, Little Walter, Etta James, Howlin´ Wolf, Johnny “Guitar” Watson e Chuck Berry.

Dirigido e roteirizado por Darnell Martin (que já havia feito Assim te quero meu amor e alguns episódios das séries Lei e Ordem e Grey´s Anatomy), Cadillac Records mostra, cronologicamente, a criação, auge e queda de uma das maiores gravadoras dos EUA. Com produção da Sony Music, o filme é baseado em uma história real que durou dos anos 40 até meados dos anos 60, em uma história de sucesso, conflitos, poder e drogas.

Len Chess (Adrien Brody) decide abrir um bar em Chicago, reduto de grande parte da população negra. No bar Macomba tocam diversos artistas negros, em que o blues é o principal ritmo. Lá ele conhece o excepcional Muddy Waters (Jeffrey Wright, sempre sublime) e consegue que Muddy e nomes de peso como o gaitista temperamental Little Walter (Columbus Short) e o cantor e compositor Willie Dixon (Cedric the Entertainer) dêem os primeiros passos rumo ao sucesso.

Porém, após um incêndio no clube, Len decide usar o dinheiro da indenização para abrir uma gravadora: nascia, então, a Chess Records.
O filme é narrado pelo ponto de vista de Willie Dixon, que conta os primeiros artistas a serem gravados e tocados na rádio, além do surgimento do rock´n roll. É emocionante ver a primeira vez que Muddy Waters ouve a própria música em uma vitrola: “É como se eu estivesse encontrando comigo pela primeira vez”, declara.

Com contextos da época, como racismo e o preconceito contra os músicos (sempre considerados bêbados, promíscuos e restritamente negros), Cadillac Records preza pela trilha sonora estupenda recheada de versões originais e outras cantadas pelos próprios atores, e pela bem cuidada direção de arte, que recria Chicago nos meados do século passado.

Uma grande surpresa, também, é a participação de Beyoncé Knowles – também produtora executiva do filme – no papel de Etta James, a diva mestiça que fez crescer a taxa de natalidade do mundo nos anos 60 com seu maior hit: “At last”.

Mas o foco do filme é, de fato, Muddy Waters, considerado o pai do Chicago Blues, que mistura blues com instrumentos elétricos, bateria, piano e instrumentos de sopro, como gaita e saxofone. O estilo foi seguido por B.B. King, que considera Muddy “o chefe de Chicago”.

Claro que, como toda história de sucesso, o lado obscuro vem à tona, com brigas, conflitos artísticos e problemas pessoais, como Etta James e Little Walter, que estiveram envolvidos com drogas.

Nos anos 60 surge o furacão Chuck Berry (muito bem interpretado pelo rapper e ator Mos Def), que com seu rock´n roll empolgante subiu nas paradas de sucesso e desbancou financeiramente os grandes nomes do blues. Isso ainda rendia muito à Chess Records, adiando o fim da gravadora, que já passava por maus bocados com a ascenção do rock´n roll, com nomes como Rolling Stones e o próprio Elvis Presley.

Porém, com a prisão de Berry por causa de uma adolescente de 16 anos, a gravadora começa a afundar de vez e nos relembra a pergunta que nunca quis quer calar: se Chuck Berry não estivesse preso durante a ascensão de Elvis Presley, o charmoso e talentoso topetudo se tornaria o Rei do Rock?

A Chess Records, infelizmente, fecha suas portas e os músicos conseguem evitar o anonimato graças aos novos nomes do rock, como Rolling Stones (cujo nome da banda foi tirado da letra de uma das músicas do próprio Muddy Waters). E fica a esperança de que os grandes nomes da música sejam lembrados pelos seus pupilos, que foram influenciados por uma música que deixou o status de “música de raça negra” para ganhar seu espaço na História.

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