dezembro 2009


No dia 28 de junho de 1969, nos EUA, teve início um conjunto de violentos episódios que envolveram homossexuais e a polícia, durando vários dias. O foco foi o bar Stonewall Inn e abriu as portas para os movimentos em defesas dos direitos civis LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros).

De lá pra cá, quarenta anos se passaram. E parte daí a premissa do documentário Stonewall – From The Riots To The Millennium, dirigido por John Scagliotti, Janet Baus e Dan Hunt, que busca entender o que aconteceu (e tem acontecido) após Stonewall e como tornou-se a vida LGBT após os ocorridos naquele ano.

Contado em ordem cronológica, o filme registra depoimentos de personagens que participaram e ainda participam de movimentos gays, como policiais, políticos, religiosos, ativistas, artistas, escritores, entre outros.

É instigante observar como a homossexualidade era considerada um crime nos EUA, na qual o “pederasta” poderia ser preso e sofria as mais diversas violências físicas e psicológicas.

Com um acervo farto de imagens e vídeos de arquivo, Stonewall – From The Riots To The Millennium mostra que, para muitos gays, a saída da repreensão naquele tempo eram as drogas, bebidas, promiscuidade e suicídio. Porém, em 1969, surge o Gay Liberation Front, primeiro movimento em que gays, lésbicas, bissexuais e transexuais levantam a bandeira do Gay Power e que, mesmo desorganizado e caótico, afetou a classe conservadora. Isso criou um preconceito ainda maior, pois o que antes era velado passou a ser revelado.

Uma grande questão tratada no filme é que, em 1974, a homossexualidade deixa de ser tratada como uma doença e a união entre homens e mulheres pelos direitos feministas, visto que o sexo feminino ainda carregava o estigma de sexo inferior. Eles e elas comemoraram, em 1970, o primeiro aniversário do Front, que reuniu 15 mil pessoas.

São Francisco se torna o lugar da liberdade sexual e social nos anos 70, mas a bandeira “mudar o mundo” é substituída pela libertinagem sexual. Afinal, nunca se fez tanto sexo gay como nos anos 70 e 80, nos EUA, com o auge das discotecas e saunas (abertas 24 horas por dia). A explicação de tamanha libertinagem vem dos próprios entrevistados do documentário, que buscavam encontrar carinho nos estranhos que transavam como forma de suprir o que a sociedade em si não lhes proporcionava.

Porém, a comunidade organiza-se novamente e cria uma imprensa independente, principalmente lésbica, com jornalismo e poesia, criando vozes nunca ouvidas antes.

A questão racial também se sobressai. Afinal, até os anos 60 (e pode-se dizer, até hoje) negros sempre foram marginalizados. E é aí que nasce a Salsa Soul Sisters, comunidade de lésbicas negras, que buscavam na música um outro modo de dar voz às mulheres, com um público cada vez maior que faziam-nas sentir, como declara uma personagem, “uma criança em uma loja de brinquedos”.

Stonewall – From The Riots To The Millennium mostra, ainda , como os gays começaram a construir suas próprias comunidades religiosas, em que falavam de como Deus vê os Homem como igual, independente de sua orientação sexual. O sargento Leonard Matlovich se assume e em 1975 torna-se o primeiro gay a sair na capa da revista Time. Os tempos pareciam mudar para melhor, especialmente quando Harvey Milk torna-se o primeiro gay declarado a assumir, em 1977, um cargo no governo dos EUA, após quatro tentativas frustradas. A fervorosa cristã Anita O´Brian torna-se a grande oponente de Milk, com objetivo de criar um movimento chamado Save Our Children (Salvem nossas crianças), retratando os professores homossexuais e bissexuais como pedófilos. Igrejas gays são incendiadas e depredadas e gays são assassinados. O senador John Briggs cria a proposição 6, que buscava impedir que professores não heterossexuais lecionassem. A proposição é vetada mas, dias depois, Harvey Milk é assassinado, provocando profunda comoção e desolação nos homossexuais, que viam no seu representante mais direto a solução de muitos dos problemas que enfrentavam.

Surge um novo representante: Steve Endean, o lobbista dos direitos gays, que retoma a campanha de Milk, ainda em 1978. Em 1979 acontece a primeira Marcha Gay, mesmo ano do surgimento dos primeiros casos de Aids, conhecida até então como “o câncer gay”. Dois anos depois, em 1981, Reagan é eleito e se mostra direto contra os homossexuais, assim como Jerry Falwell, co-fundador do Moral Majority, organização que se baseava nos dogmas cristãos e pregava a homofobia.

O documentário mostra, também, que os bombardeios vinham de todos os lados. É quando a homossexualidade começa a ganhar espaço na cultura e nas artes: artistas como Culture Club, Elton John, Grace Jones, ABBA, Prince, Village People, Donna Summer e Gloria Gaynor tornam-se alguns dos mais influentes ícones gays da época.

Baseados em Martin Luther King os gays, então, revisitam o emblemático discurso do ativista e criam o slogan We still have a dream (Nós ainda temos um sonho) e, em 1982, surge o primeiro Gay Games, evento que reúne manifestações artísticas e esportivas com e para homossexuais.

Em meados dos anos 80, há o fechamento das saunas na mesma época em que descobre-se que a Aids é transmitida por relações sexuais. Os gays enfrentam um novo problema: é necessária a criação de comunidades voluntárias para obtenção de comida e atendimento médico a homossexuais infectados, que eram renegados pelo governo norte-americano.

A Aids sai pela primeira vez na capa das revistas Newsweek e Time. O motivo: a morte de Rock Hudson, clássico galã do cinema norte-americano que, homossexual, foi atingido pela doença que o mataria em 1985. Ativistas LGBT saem às ruas, exigindo medidas do governo para o tratamento da Aids, que marginalizou os infectados. Sem muito sucesso, criam o Aids Memorial Quilt, uma grande colcha de retalhos bordada em memória aos mortos e infectados pelo vírus HIV e que exibe mensagens de paz e igualdade.

Ainda em 1985 é criada a Escola Harvey Milk, dedicada a alunos LGBT, com todos os eventos das escolas norte-americanas, porém sem os problemas que essa parcela da população enfrentaria diante de alunos homofóbicos.

Quando questionados sobre a influência que muitos heterossexuais temem que seus filhos tenham ao conviver com homossexuais, um personagem do filme pergunta: “eu cresci em um mundo hétero e isso não alterou a minha orientação sexual. Por que haveria de acontecer o contrário?”. Famosos tomam a frente dos movimentos gays e a Dinamarca avança e torna-se o primeiro país a legalizar o casamento gay, em 1989.

Em 1992, outro movimento é criado e recebe o nome de Lesbian Avengers, que defende, a princípio, a conscientização da homossexualidade nas escolas, combatendo o preconceito, a violência e a exclusão social.

Stonewall – From The Riots To The Millennium relembra como as organizações heterossexuais começam a descobrir o poderio dessa minoria e sete estados norte-americanos começam a ir contra os gays criando uma coalisão hétero, que vem junto com a proposição 9, novamente derrotada.

Clinton torna-se presidente dos EUA em 1993 e diz-se pró-gay: “Não existem ´eles´ e sim ´nós´”, declara diante da multidão. Mas as Forças Armadas são contra gays (especialmente se forem militares) e cria-se a famosa questão “Don ask, don´t tell” (Não pergunte, não conte). Clinton trai os eleitores LGBT e assina contra o casamento homossexual que, em contrapartida, vem junto com o boom da cultura gay nos anos 90, com artistas como Ellen DeGeneres e Anne Heche, cantoras como KD Lang e filmes como Birdcage – A Gaiola das Loucas e Priscila, a Rainha do Deserto.

Assistindo Stonewall – From The Riots To The Millennium, observamos que três décadas se passaram desde Stonewall e o movimento gay  se tornou uma agitação mundial, reunindo milhões em busca de direitos e respeito sociais. Emocionante por si só, o documentário não apela para maniqueísmos demagógicos; apenas registra os depoimentos de testemunhas oculares que estiveram (e ainda estão) dispostos a lutar por mudanças.

Quando foi filmado, em 1987, Baleias de Agosto tinha, basicamente, cinco atores em seu elenco: Bette Davis, Lillian Gish, Ann Sothern, Vincent Price e Harry Carey Junior. Se somarmos a idade de todos os cinco àquela época, a conta atinge surpreendentes 394 anos.

Considerado um dos mais belos filmes já feitos sobre a velhice, Baleias de Agosto é mais do que números. Na verdade é uma dedicatória final a duas rainhas do Cinema: Lillian Gish e Bette Davis, que já estavam no fim de suas carreiras. Davis, aos 79 anos, faria apenas mais um filme; e Gish, com 93, tornou-se uma das atrizes mais velhas a atuar no Cinema (o título pertence, hoje, à nossa Dercy Gonçalves, que atuou aos 101 anos em Nossa Vida Não Cabe Num Opala, de 2008).

Dirigido pelo britânico Lindsay Anderson (Homem de Sorte, Se…), Baleias de Agosto é baseado na peça de David Benny, que adaptou a própria obra para o cinema e conta a história das irmãs Sarah (Lillian Gish) e Libby (Bette Davis), que vivem em uma casa litorânea esperando a chegada das baleias, que costumam aparecer no mês do título.

Ali elas, em sua rotina, terão suas vidas modificadas com a chegada do simpático Sr. Maranov (Vincent Price), um senhor refugiado da Revolução Russa de 1917. Além de Maranov, as velhas irmãs convivem com a espirituosa Tisha (Ann Sothern, indicada ao Oscar pelo papel), amiga de infância de ambas, e com Sr. Breckett (Harry Carey Jr.), o barulhento e espalhafatoso faz-tudo da região.

É nesse ambiente que o grupo convive, em um filme recheado de delicadeza e que nunca cai no melodrama. Com bela fotografia repleta de imagens litorâneas, Baleias de Agosto preza pela nostalgia inerente ao filme, de duas atrizes que atingiram seu auge e tem uma última grande homenagem.

Ainda é possível reconhecer o olhar impactante de Bette Davis, que lhe rendeu status de deusa do cinema hollywoodiano. Gish exibe um semblante sempre delicado e carinhoso em suas cenas, em uma rotina na casa que ambas cresceram juntas e ainda moram nos últimos anos de vida.

Libby, que está praticamente cega, mal enxerga suas roupas e mantém uma forte amargura (bem ao estilo Bette Davis), enquanto Sarah ocupa-se, não parou no tempo: pinta, faz artesanato, conversa com as pessoas eternizadas nas fotos dos seus porta-retratos.

Baleias de Agosto pode parecer um filme parado, morno, mas é emocionante acompanhar a vida desses personagens, que passaram por tanta coisa e vivem, no final, de suas lembranças. Para quebrar um pouco a melancolia do longa, temos a animada Tisha, que traz o humor e a vitalidade que as irmãs perderam com o tempo, além da experiência do Sr. Maranov, que traz um pouco da realeza para a pacata vida dos moradores da região.

Para duelar no humor com Bette Davis, temos Johnson Breckett, o barulhento faz-tudo que inferniza a vida da ranzinza irmã e é vivido pelo ator Harry Carey Junior. Entre sessões de chá, discutem o passado e presente, enfrentando os problemas da velhice juntos, com suas lembranças que se dividem entre caixas e a própria memória de seus personagens.

Essencial e emocionante, Baleias de Agosto é um filme imperdível.

Em 1969, um casal de mexicanos perde seu filho para o Demônio após o garoto ser amaldiçoado por causa de um colar dado por uma cigana. Shaun San Dena, a vidente que presencia o evento, promete a si mesma que ainda acertará suas contas com a Besta.

Quarenta anos depois, acompanhamos a vidinha morna de Christine Brown (Alison Lohman), uma infeliz e subestimada funcionária do setor de empréstimos de um grande banco. Ela namora Clay (Justin Long), filho de pais ricos que não aceitam o namoro dele com Christine, a menina pobre.

Certo dia, Christine recusa uma extensão de prazo a sra. Ganush (Lorna Raver), uma cigana que sente-se humilhada pela funcionária e lhe joga um feitiço, que fará com que sua vida se torne, literalmente, um inferno.

Dirigido por Sam Raimi (que assina o roteiro com o irmão Ivan Raimi), Arraste-me para o Inferno traz de volta os tempos de terror trash do início da carreira de Raimi, como Evil Dead (1987). Com uma trilha carregada de cantos gregorianos e bons sustos, o diretor mantém o suspense constante, mesmo com a fraca atuação e empatia sem sal do casal Lohman-Long.

Porém, Arrasta-me para o Inferno ganha ponto alto nas bem sucedidas cenas de ação entre Christine e o Demônio (o que também pode ser traduzido como sra. Ganush). A experiência de Raimi na franquia Homem-Aranha parece ter trazido resultados, visto que as cenas de luta tornam Christine Brown uma espécie de “Rambo de saias”, ou seja, indestrutível.

Violento e trash, Arrasta-me para o Inferno é uma grande homenagem do diretor aos maiores clichês dos filmes de terror, podendo provocar risos e sustos em um espaço de tempo de poucos segundos. Além disso, seus momentos escatológicos podem incomodar os espectadores de estômagos mais fracos.

Christine, considerada paranóica e sem ter a quem recorrer, busca o vidente Rham Jas (Dileep Rao), que descobre que a moça foi vítima de uma maldição egípcia chamada Lamia e a moça passa por situações complicadas envolvendo tanto o noivo como seu emprego, em que concorre a uma disputada promoção.

A única solução: procurar Shaun San Dena, a médium que confrontou a Besta há 40 anos.

O final chega a ser chocante e, como praticamente todos os filmes de terror, dão margem para uma sequência. Para uma safra de filmes que se auto-intitulam terror e se tornam terrir, Arraste-me para o Inferno pode agradar aos fãs do gênero.

De um ponto de vista pessoal, acredito que ainda ouviremos falar muito de Rebecca Miller. Filha do dramaturgo Arthur Miller (que foi casado com a deusa Marilyn Monroe), Rebecca passou por um período como atriz mas decidiu, em 2003, seguir os passos do pai e tornar-se uma escritora. Das páginas de seu mais recente romance A vida íntima de Pippa Lee, a escritora alçou um passo extremamente ousado e decidiu produzir e dirigir o longa metragem homônimo. O roteiro, mais do que óbvio, foi adaptado para o cinema pela própria Miller, afinal os roteiros de seus outros três longas levam sua assinatura: Ângela (1995), O tempo de cada um (2002) e O mundo de Jack e Rose (2005), este cujo papel principal foi personificado por seu marido, Daniel Day-Lewis, com o qual está casada há trezes anos.

Em A vida íntima… acompanhamos a trajetória de Pippa Lee (encarnada brilhantemente por Robin Wright Penn), uma mulher de classe média alta, casada com Herb (Alan Arkin), homem trinta anos mais velho que ela. Considerada um enigma por todos os seus amigos, ela esconde na aparência sensata e polida uma figura de personalidade múltipla e instigante.

Situações do tempo atual levam Pippa Lee a relembrar sua vida, desde o seu inusitado nascimento até a adolescência, quando vamos conhecendo a sua relação com a emblemática e complexa Suky (Maria Bello, ótima), sua mãe. Desse relacionamento dúbio que mistura amor e ódio, chegamos à sua adolescência, que toma corpo na bela Blake Lively (mais conhecida pelo papel de Serena na série de TV Gossip Girl).

Diante dos flashbacks, conhecemos uma mulher de muitas vidas e personalidades, que precisa rever sua trajetória de vida para conseguir fugir dos profundos traumas que afetam sua vida atual. Desde a mãe de personalidade indecifrável, passando pela adolescência imprudente regada a drogas até culminar em seu casamento com Herb, A vida íntima de Pippa Lee parece, em certos momentos, beber da fonte de obras como Beleza Americana (que trazia um personagem frustrado e prestes a explodir) com Os Excêntricos Tenembaums (com seu humor negro ao mostrar de perto as peculiaridades de seus personagens).

Herb, o marido, é um octogenário que tem medo de morrer a qualquer momento, acarretando uma crise em seu casamento; a filha Grace (Zoe Kazan), nutre um ódio inexplicável pela mãe; sua amiga Sandra (Winona Ryder, renascida das trevas) se mostrará uma (quase) inimiga em potencial. Porém, as coisas mudam quando o incompreendido Chris (Keanu Reeves, sempre apático), o filho de sua vizinha, muda-se de volta para a vizinhança. É por meio dele que Pippa observará sua vida de outro modo, fazendo-a repensar seus amores, angústias e sonhos.

Com um humor inteligente, um timing para a comédia surpreendente e uma direção segura, Miller traz uma pequena pérola cinematográfica, com personagens hilários e dramáticos ao mesmo tempo, saltando do drama para a comédia mordaz em questão de segundos e sem ofender o espectador.

A trilha sonora é um espetáculo à parte, bem como a direção de arte que recria, de forma nostálgica, os anos 50 e 70, respectivamente a infância e juventude de Pippa. Porém, o grande trunfo do filme apóia-se, de fato, em seus personagens. Desde participações curtas e marcantes de astros como uma quase irreconhecível (e lésbica) Julianne Moore até a estonteante beleza de Monica Belucci, A vida íntima de Pippa Lee desvenda personagens bizarros carregados de características peculiares e neuróticas comuns a muitos de nós.

Transportando uma espécie de fardo que lhe custou ter deixado para trás Pipa Sarkissiam e se tornado Pippa Lee, ela busca sua redenção entre momentos de contemplação e pura poesia. Delicioso, tornou-se, para mim, uma das maiores surpresas cinematográficas de 2009.

A primeira cena de Partir, mais novo longa de Catherine Corsini (Casadas mas nem tanto, Os Apaixonados) é emblemática: a mulher, deitada na cama ao lado de um homem, está nervosa, tremendo descontroladamente. Em silêncio ela se levanta e vemos o exterior da casa. Ouve-se um tiro. Fade out.

A partir dessa misteriosa cena, acompanhamos os seis meses que precedem a cena de assassinato/suicídio cometido pela personagem Suzanne (Kristin Scott Thomas). Ela é uma inglesa, casada com o bem sucedido francês Samuel (Yvan Attal), que leva uma vida pacata burguesa na França. Fisioterapeuta, ela está prestes a abrir seu consultório na própria casa e contrata o pedreiro espanhol Ivan (Sergi López, o capitão Vidal de O Labirinto do Fauno). Após um acidente com o novo funcionário, ela e Ivan tornam-se muito próximos, o que os levará a tornarem-se amantes.

Não tarda que o caso de infidelidade de Suzanne venha à tona, o que acarretará mudanças drásticas na vida dela, que tem de decidir entre viver no conforto frustrado do casamento ou escolher a vida apaixonada – porém instável – com o ex-presidiário Ivan.

Assim, acompanhamos a preocupação de Suzanne (muitíssimo bem interpretada por Scott Thomas), a sua insegurança e medo, mas que se perde no prazer do proibido quando está com Ivan.

Quase narrado como pequenas esquetes, o filme tem cortes que impedem uma maior dramatização de certas cenas, fazendo com que o espectador não se envolva muito na trama. Mas mesmo assim é possível se emocionar com o esforço de Suzanne em lutar pelo amor que sente por Ivan, especialmente quando, devido aos contatos do influente marido, os dois não conseguem trabalhar e precisam lutar por dinheiro.

Samuel quer o casamento de volta a todo custo e chantageia a esposa, culminando em um turbilhão de ciúmes, ódio e culpa que irá afetar profundamente a vida do trio de personagens, que perdem a cabeça numa situação como essa. O passado de presidiário de Ivan contribui para que Suzanne embarque em uma situação desesperadora, que a levará a cometer uma loucura.

Repleto de clichês, o filme se apóia na bela atuação de Kristin Scott Thomas, que tem se dedicado cada vez mais a papéis europeus, como nos franceses Há tanto tempo que te amo e Seuls Two (ambos de 2008). Além disso, a trilha densa e melancólica, as belas locações francesas e espanholas e as tórridas cenas de sexo entre Kristin e López garantem que o filme não se perca totalmente. Mas nada honra os padrões do cinema francês, que geralmente nos trazem belas pérolas em sua filmografia.

Um professor alcoólatra, politicamente incorreto e frustrado por sua tentativa em vão de se tornar um poeta. Uma jovem e temperamental cabeleireira sedenta por conhecimento e disposta a tudo para entregar-se à Literatura. Está criada a dupla que torna O despertar de Rita um filme emocionante, que foge da pieguice e mostra uma amizade incomum entre Frank Bryant (Michael Caine) e Rita White (Julie Walters).

 

Produzido em 1983, o filme tem direção de Lewis Gilbert (007 – o espião que me amava), foi indicado a 3 Oscar (melhor ator, atriz e roteiro) e deu o Globo de Ouro e o Bafta aos atores, que estão ótimos em seus papéis.

Muitos filmes já foram feitos – antes e depois de O despertar de Rita – sobre a relação entre professores e alunos, como Ao Mestre com Carinho (1966), Sociedade dos Poetas Mortos (1989), O sorriso de Monalisa (2003), entre tantos outros.

 

Quando Rita, uma cabeleireira espevitada decide ter aulas sobre literatura com o professor Bryant, ambos nem imaginam que suas vidas estão prestes a mudar, tanto em relação aos estudos como no campo pessoal.

De personalidades opostas, os conflitos logo se tornam uma lição de aprendizado, que fazem com que Rita descubra nos livros uma grande paixão e encontre seu lugar no mundo, sentindo-se “alguém”.

 

Casada com Denny (Malcolm Douglas), um homem machista e ignorante que luta pela relutância da esposa em dar-lhe um filho, ele é contra os estudos. Ela, porém, quer se descobrir e, com sua inteligência e esforço, fará de tudo para passar nos exames, que são avaliados por um núcleo exigente da universidade.

O filme demonstra a dificuldade de muitas mulheres de estudar, quando antes eram relegadas a serem mães e donas de casa para seus maridos. Então, separada de Denny, Rita fará o possível para dedicar-se à sua grande paixão quando faz uma viagem para a França. Retorna às aulas mais instruída, mas o conflito muda de lado e ela se vê pressionada pelo professor que, ao mesmo tempo que a ajuda, sente-se frustrado por ajudar a desabrochar tão talentosa criatura. É como se ela fosse seu Frankenstein.

 

Pontuado de cenas dramáticas e bem humoradas, O despertar de Rita traz a áurea de filmes britânicos que lembram os do grupo Monty Python, com seu humor rasgado, irônico e inteligente. Os diálogos, afiados e dinâmicos, ganham logo de cara a simpatia do espectador, com uma Julie Walters irretocável como a sonhadora Rita, enquanto a rabugice de Caine cai como uma luva nessa parceria que fará aflorar em ambos a amizade e despertar aquilo que eles nem sabiam como recuperar: a confiança em si mesmos e o prazer de aprender e ensinar.

(Não há trailer sobre este filme disponível)

entos de contemplação e poesia.

 

 

Nos primeiros momentos de 500 dias com ela, o espectador já é avisado: “Essa é a história de um rapaz que conhece uma garota. Mas, devo lhes dizer, isso não é uma história de amor”. O narrador com voz eloquente traça, então, um pequeno perfil dos personagens Tom Hansen (Joseph Gordon-Levitt) e Summer Finn (Zooey Deschanel). Ele, um garoto apaixonado e viciado em músicas românticas britânicas e suas letras melancólicas. Ela, uma garota que, depois da separação dos pais, deixou de acreditar no amor. Está aí a deliciosa – e melancólica – premissa de 500 dias com ela (ou 500 days of Summer, que ganha duplo sentido na versão original).

Dirigido pelo estreante em longas-metragens Marc Webb (que já comandou dezenas de videoclipes musicais, com um currículo em que constam artistas como Maroon Five, Weezer, Lenny Kravitz, Green Day e Regina Spektor), o filme é como se fosse composto de curtas histórias. Nada mais natural que Webb introduza tal experiência em sua estreia nas telonas, com um resultado extremamente satisfatório, contando, em um vai e vem temporal, a história dessa relação entre o romântico escritor de cartões comemorativos Tom e a colega de trabalho Summer, assistente de seu chefe.

Com inserções animadas e uma visualização dos sentimentos do personagem masculino, 500 dias com ela conta, com delicadeza e sinceridade, o relacionamento do casal. Tragicômico em certos momentos é interessante acompanhar Tom e Summer, que podem ter sido feitos um para o outro: a diferença é que ele acredita ser ela a mulher da sua vida mas, para ela, Tom pode não ser o homem de sua vida.

Empáticos e carismáticos, Joseph Gordon-Levitt (da série 3rd rock from the Sun e 10 coisas que eu odeio em você) e a apaixonante Zooey Deschanel (Quase famosos e vocalista da banda She and Him), convencem; e os espectadores torcem para que o final seja como, geralmente, se espera de uma comédia romântica: um viveram-felizes-para-sempre. A dupla, que já havia trabalhado junta no pouco conhecido Maníaco (2001), retorna às telas para contar uma história que conflita o amor romântico com o amor real.

Acompanhamos, em uma narrativa não linear, as idas e vindas de Tom e Summer, em situações que se sustentam no talento dos jovens atores, no ótimo roteiro e na primorosa trilha sonora pop, que vai de Smiths, passa pela primeira-dama francesa Carla Bruni, estende-se até Regina Spektor e vai até She and Him, a já citada banda de Zooey.

Em certos momentos, a perspectiva de Tom é colocada na tela, com originalidade e sutileza, como no momento em que a tela se divide em duas ao mostrar, simultaneamente, a mesma situação sob dois prismas: a realidade e a expectativa. E é nessa sacada de conhecer-o-que-deu-errado versus o-que-poderia-ter-dado-certo que o diretor tem seu ponto alto, sustentando-se em uma perfeição chamada Zooey Deschanel, que esbanja beleza, delicadeza e sensualidade, com uma personagem de gosto musical e artístico deliciosos. Enfim, o tipo de garota que qualquer garoto se apaixonaria.

Impossível não se identificar, especialmente, com Tom, que não entende alguém que não consegue se apaixonar nem render-se a um relacionamento. Seus amigos, personificados em secundários curiosos, lhe ajudarão a entender e agir com esse enigma chamado Summer Finn.

O final abrupto, porém esperançoso, pode quebrar um pouco o ritmo e magia do filme, mas dará um sorriso amarelo de consolo aos espectadores mais românticos. Mesmo assim, 500 dias com ela é uma surpresa ao falar de amor na juventude com seriedade, bem longe dos moldes superficiais nas quais muitos têm retratado.

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