Após o polêmico A Concepção, José Eduardo Belmonte volta ao cinema para contar outra história de denúncia e crítica mordaz à sociedade e ao sistema capitalista. Se Nada Mais Der Certo, tem a mesma tomada documental de seu filme anterior ao contar a história de Léo (Cauã Reymond), um jornalista que sobrevive de pequenos trabalhos enquanto vive com Ângela (Luíza Mariani), sua irmã, uma depressiva que não consegue nem mesmo cuidar do próprio filho, o menino Lucas (Henrique Rabelo).

Nesse vai e vem por uma cidade de São Paulo caótica, estritamente urbana e cruel, Léo vai conhecer a prostituta lésbica Marcin (Caroline Abras, uma surpresa) e o taxista Wilson (João Miguel, sempre ótimo). Juntos, os três vão fazer o que (não) podem para se sobressair e não serem engolidos pela guerra socioeconômica de uma megalópole como São Paulo.

É interessante observar o galã global Cauã Reymond despindo-se de toda a vaidade e encarnando um personagem que chega ao fundo do poço em todos os setores de sua vida. Com uma frase inicial do filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau (“Uma sociedade só será democrática quando for rico a ponto de comprar ninguém e ninguém for tão pobre a ponto de se vender a alguém”), o filme faz dessa premissa o ponto de partida para desenvolver a história do trio principal.

Léo é um jornalista frilancer que não recebe por seus trabalhos; Marcin é uma prostituta que precisa desaparecer por um período devido à “limpeza” das ruas durante o período das eleições; e Wilson sofre com os subornos que recebe para continuar trabalhando como motorista de táxi.

Com uma câmera que vai do frenesi à contemplação, Se Nada Mais Der Certo ganha pela direção segura, entrega dedicada de seus atores e uma fotografia lavada que agrada, mesmo dando o aspecto marginal (necessário) à película.

A bela trilha de Zepedro Gollo é perfeita para alternar os momentos de beleza, poesia e alegria com a densa carga dramática e estressante que move os personagens.

Uma das melhores surpresas do filme é, certamente, a travesti Sybelle (papel do ator Milhem Cortaz, que também havia trabalhado com Belmonte em A Concepção), com uma personagem visceral, engraçada e de forte personalidade.

Com participação de atores como Leandra Leal e Antonio Petrin, Se Nada Mais Der Certo é um filme denúncia da corrupção e exploração do ser humano pelo próprio ser humano e que ganha empatia com um roteiro inteligente e repleto de frases pontuais e diretas, passado em uma cidade como São Paulo, tão protagonista como seus personagens.

Assim, o trio Léo-Marcin-Wilson, como meio de sobrevivência, envolve-se em assaltos e um ciclo de violência que tem tudo para terminar de forma trágica. Fica claro, a partir daí, o dinheiro fácil do tráfico de drogas, a felicidade momentânea que parte da inconseqüência de estar fazendo algo contra o que é considerado certo, até vir o momento de pensar no que acontece depois que a euforia passa.

Com a religião englobando diversas partes do filme, o filme tem o lado onírico e poético no personagem Lucas, a criança inocente que, em certo momento, desenha sobre as contas não pagas e solta bolinhas de sabão em uma vida que, em sua ignorância infantil, não sabe que está prestes a explodir. Mas algo, que não sabemos se pode ser chamado de milagre, pode nos trazer de volta à vida.

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