O dinamarquês Lars von Trier é um diretor incomum. É, talvez um dos maiores cineastas vivos e, com certeza, está presente no hall dos mais polêmicos. Um dos criadores do manifesto Dogma 95, que estipulava câmera na mão, iluminação natural e nada de trilha sonora, o diretor de Dogville e Dançando no Escuro pode ter atingido seu ápice da contestação com Anticristo, seu mais recente trabalho.

Realizado em um período de depressão profunda, o filme é, literalmente, um incômodo aos olhos e mente ao contar a história de um casal que entra em crise no casamento após a morte do filho.

Como defendeu von Trier, Anticristo é um filme sem regras e sem uma lógica facilmente explicável. O título, acredita-se, foi tirado do livro O Anticristo, escrito pelo alemão Friedrich Nietzsche em 1888, porém ambas as obras não se baseiam na Bíblia, mas sim nos males do mundo que são intrínsecos a todos os seres humanos.

Ateu, o diretor não usa o filme para levantar dúvidas diretas sobre o Cristianismo, mas sim cria uma discussão sobre vida e morte, a superação da dor e a filosofia do lado selvagem da natureza humana.

Interpretados pelos atores Willen Defoe e pela extraordinária Charlotte Gainsbourg, que levou o prêmio de Melhor Atriz em Cannes, Anticristo mistura sonho e realidade, pesadelo e sofrimento real para dissecar o sofrimento do casal que vai para uma casa de campo chamada Éden no meio de uma floresta.

Dividido em três capítulos (Luto, Dor e Desespero), o filme abusa da câmera lenta e, mesmo com os poucos diálogos, possui um roteiro instigante. Seu prólogo, que já entra para a história do Cinema como um dos mais fascinantes dos últimos tempos, é carregado de simbolismos ao mostrar o filho pequeno do casal se atirando pela janela enquanto os pais têm uma tórrida noite de sexo.

A discussão Adão-e-Eva-no-Paraíso é trazida à tona, mas quase tudo no filme é um enigma. Ele quer conceber, ela quer morrer. Ela fala da maldade contra as mulheres, ele busca a cura do mal pela superação sem medicação, enquanto ambos usam o sexo como prazer e como dor. E é nesse ambiente único (a casa de campo) com apenas dois personagens que o filme transcorre. E incomoda. Muito.

As já famosas e chocantes cenas que exibem mutilação feminina, masturbação e sexo (quase) explícito deram ainda mais pano para a manga e fizeram com que o filme fosse vaiado em sua exibição em Cannes, mas que não surtiram efeito no diretor. Para ele, era um filme que precisava ser feito e assim o foi.

Fica a cargo dos espectadores as conclusões a serem tiradas. “Se alguém era o anticristo, quem era?”, “A criança se mata para enlouquecer os próprios pais?”, “Ela vê a criança se jogar durante o sexo e não a impede. Por quê?”. Com certeza Anticristo é um filme que ultrapassa fronteiras talvez nunca antes traçadas no cinema e, quem sabe, não pode/deve/consiga ser explicado. Só sabemos de uma coisa: deve ser experimentado. Mesmo que isso custe sensações incômodas e incomuns e perguntas não respondidas que martelem em nossas mentes.

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