O foco dos filmes de Pedro Almodóvar sempre foi as mulheres, com uma rara exceção em Fale com Ela, quando contou o amor de dois homens por uma toureira e uma bailarina, ambas em coma. Seu mais recente trabalho, Abraços partidos, traz pela quarta vez sua musa dos últimos anos, Penélope Cruz, em um excelente retrato do universo masculino em uma trama que envolve traição, ciúmes, vingança, cinema e, claro, muito humor negro.

2008: Harry Caine (Lluís Homar) é um roteirista cego que relembra que teve, no passado, um amor proibido com a atriz Madalena (Penélope Cruz), casada com o poderoso Ernesto Martel (José Luis Gómez). No passado, Harry foi Mateo Blanco, que precisa enfrentar o passado e, assim, poder seguir adiante.

Com uma premissa simples, Almodóvar – como sempre – nos surpreende com uma história repleta de reviravoltas, humor e sequências de encher os olhos. Com um vai e vem cronológico, Abraços partidos vai da época atual até 1992 (quando Ernesto conhece Lena) e 1994 (quando Lena e Mateo/Harry se apaixonam), com espaço para planos curtos e sequenciais, sempre com o estilo característico de Almodóvar, mas que nunca deixa de ser inovador e surpreendente.

Seria redundância frisar que o clima novelesco de folhetim está presente, bem como a fotografia de cores intensas e quentes. Estamos o tempo todo esperando pelo desfecho dessa história, que mistura elementos noir com muito suspense, humor e sensualidade.

Penélope Cruz está linda como nunca e Almodóvar sabe disso, fazendo com que a câmera use e abuse de sua beleza e talento para contar uma história de amor, traição e suspense que jamais perde o ritmo. Assim como fez François Truffaut em A Noite Americana, o diretor espanhol declara seu amor ao cinema, mostrando a história de amor entre um roteirista e uma atriz, remetendo Cruz, em algumas cenas, à eterna Audrey Hepburn.

E as referências não param por aí: é citado o filme Ascensor para o cadafalso, com Jeanne Moureau, em que a personagem, com a ajuda do amante, pretende se livrar do marido.

Com humor sutil, Almodóvar jamais deixa o escrachado de lado, especialmente quando aparece Chon (a hilária atriz Carmen Machi), como uma conselheira antropófaga do filme em que Lena participa.

Atentem para a cena em que Ernesto descobre a traição de Lena graças à ajuda de uma leitora de lábios e do filho, que a filma em diversos lugares. Então, ao declarar seu amor por Mateo/Harry, Lena diz as exatas palavras que pronuncia na tela, como se dublasse a Ernesto o que diz no vídeo. Inesquecível, como toda a obra de Pedro Almodóvar.

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