novembro 2009


O foco dos filmes de Pedro Almodóvar sempre foi as mulheres, com uma rara exceção em Fale com Ela, quando contou o amor de dois homens por uma toureira e uma bailarina, ambas em coma. Seu mais recente trabalho, Abraços partidos, traz pela quarta vez sua musa dos últimos anos, Penélope Cruz, em um excelente retrato do universo masculino em uma trama que envolve traição, ciúmes, vingança, cinema e, claro, muito humor negro.

2008: Harry Caine (Lluís Homar) é um roteirista cego que relembra que teve, no passado, um amor proibido com a atriz Madalena (Penélope Cruz), casada com o poderoso Ernesto Martel (José Luis Gómez). No passado, Harry foi Mateo Blanco, que precisa enfrentar o passado e, assim, poder seguir adiante.

Com uma premissa simples, Almodóvar – como sempre – nos surpreende com uma história repleta de reviravoltas, humor e sequências de encher os olhos. Com um vai e vem cronológico, Abraços partidos vai da época atual até 1992 (quando Ernesto conhece Lena) e 1994 (quando Lena e Mateo/Harry se apaixonam), com espaço para planos curtos e sequenciais, sempre com o estilo característico de Almodóvar, mas que nunca deixa de ser inovador e surpreendente.

Seria redundância frisar que o clima novelesco de folhetim está presente, bem como a fotografia de cores intensas e quentes. Estamos o tempo todo esperando pelo desfecho dessa história, que mistura elementos noir com muito suspense, humor e sensualidade.

Penélope Cruz está linda como nunca e Almodóvar sabe disso, fazendo com que a câmera use e abuse de sua beleza e talento para contar uma história de amor, traição e suspense que jamais perde o ritmo. Assim como fez François Truffaut em A Noite Americana, o diretor espanhol declara seu amor ao cinema, mostrando a história de amor entre um roteirista e uma atriz, remetendo Cruz, em algumas cenas, à eterna Audrey Hepburn.

E as referências não param por aí: é citado o filme Ascensor para o cadafalso, com Jeanne Moureau, em que a personagem, com a ajuda do amante, pretende se livrar do marido.

Com humor sutil, Almodóvar jamais deixa o escrachado de lado, especialmente quando aparece Chon (a hilária atriz Carmen Machi), como uma conselheira antropófaga do filme em que Lena participa.

Atentem para a cena em que Ernesto descobre a traição de Lena graças à ajuda de uma leitora de lábios e do filho, que a filma em diversos lugares. Então, ao declarar seu amor por Mateo/Harry, Lena diz as exatas palavras que pronuncia na tela, como se dublasse a Ernesto o que diz no vídeo. Inesquecível, como toda a obra de Pedro Almodóvar.

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Há mais de dez anos sem realizar uma turnê, Michael Jackson havia programado para 2009 uma série de 50 shows em Londres, na O2 Arena. A turnê prometia ser um espetáculo audiovisual impressionantemente bem cuidado e grandiloquente. Porém, em 25 de junho, um mês antes do início da turnê, o mundo entrou em choque com o anúncio da morte do Rei do Pop, que já tinha vendido 750 mil ingressos em cinco horas.

As mais de 100 horas de gravações dos ensaios da turnê This Is It, que virariam um registro dos ensaios, tornaram-se o documentário homônimo dirigido por Kenny Ortega (da série High School Musical).

O objetivo era deixar o filme em cartaz por apenas duas semanas, com início em 28 de outubro, porém o sucesso foi mais do que o esperado e o filme permanece em cartaz no Brasil até hoje, um mês depois de sua estreia.

Com registro dos ensaios entre os meses de março e julho deste ano, This Is It mostra os ensaios incessantes baseados no perfeccionismo do cantor, que cuidava atento das coreografias, cenários e demais detalhes do grande espetáculo que pretendia apresentar aos fãs.

O filme é, nada mais, que o registro do que se veria nos shows de sua turnê. Parece pouco, mas não é. Com uma tecnologia impressionante que estava sendo utilizada nos shows e depoimentos emocionados e emocionantes de seus dançarinos, This Is It jamais apela para o sentimentalismo: é um Michael Jackson dedicado e empolgado com o que viria a ser uma reviravolta em sua carreira depois de diversas polêmicas e fracassos em torno de sua imagem.

Com muitas de suas cenas com câmeras localizadas fora do palco, This Is It dá aos espectadores a sensação de estar dentro dos ensaios, sentindo-se quase como na plateia do próprio show.

Além de um filme sobre o Rei do Pop, o registro é uma prova de amor dos próprios dançarinos, que eram uma extensão de Michael Jackson, com dedicação e preparação descomunais.

Fica claro que MJ não tinha a mesma disposição de antes mas, aos 50 anos, mantinha a essência de seu estilo único e inconfundível de se apresentar, tanto cantando como dançando.

É impossível não se arrepiar observando as famosas canções que todos conhecemos, como “Man in the mirror” e “Billy Jean”, ou não nos impressionarmos com a versão de “They don´t really care about us” (que tornou-se símbolo brasileiro ao ter seu clipe gravado pelo astro no Rio de Janeiro e em Salvador, com o Olodum). Nesta última canção, diante de um fundo verde, os 11 dançarinos se apresentam e, graças aos recursos técnicos, transformam-se em um exército de 11 mil soldados, em uma coreografia impressionante que faria parte dos shows. Outros sucessos como “Smooth Criminal”, “Bad” e a emocionante “I´ll be there” (da época do Jackson Five com exibição de imagens de arquivo), são apresentadas ao público, muitas com uma nova roupagem e até mesmo uma versão repaginada de “Thriller” em 3D, com dançarinos devidamente fantasiados e maquiados.

Com This Is It observamos Michael Jackson de perto. Um artista completo, que conhecia todas as suas músicas da primeira à última nota e que, mesmo calmo e educado, era extremamente exigente, pois queria provar aos fãs o que já sabíamos desde sempre: ele era e permanecerá por muito tempo como o Rei do Pop.

O dinamarquês Lars von Trier é um diretor incomum. É, talvez um dos maiores cineastas vivos e, com certeza, está presente no hall dos mais polêmicos. Um dos criadores do manifesto Dogma 95, que estipulava câmera na mão, iluminação natural e nada de trilha sonora, o diretor de Dogville e Dançando no Escuro pode ter atingido seu ápice da contestação com Anticristo, seu mais recente trabalho.

Realizado em um período de depressão profunda, o filme é, literalmente, um incômodo aos olhos e mente ao contar a história de um casal que entra em crise no casamento após a morte do filho.

Como defendeu von Trier, Anticristo é um filme sem regras e sem uma lógica facilmente explicável. O título, acredita-se, foi tirado do livro O Anticristo, escrito pelo alemão Friedrich Nietzsche em 1888, porém ambas as obras não se baseiam na Bíblia, mas sim nos males do mundo que são intrínsecos a todos os seres humanos.

Ateu, o diretor não usa o filme para levantar dúvidas diretas sobre o Cristianismo, mas sim cria uma discussão sobre vida e morte, a superação da dor e a filosofia do lado selvagem da natureza humana.

Interpretados pelos atores Willen Defoe e pela extraordinária Charlotte Gainsbourg, que levou o prêmio de Melhor Atriz em Cannes, Anticristo mistura sonho e realidade, pesadelo e sofrimento real para dissecar o sofrimento do casal que vai para uma casa de campo chamada Éden no meio de uma floresta.

Dividido em três capítulos (Luto, Dor e Desespero), o filme abusa da câmera lenta e, mesmo com os poucos diálogos, possui um roteiro instigante. Seu prólogo, que já entra para a história do Cinema como um dos mais fascinantes dos últimos tempos, é carregado de simbolismos ao mostrar o filho pequeno do casal se atirando pela janela enquanto os pais têm uma tórrida noite de sexo.

A discussão Adão-e-Eva-no-Paraíso é trazida à tona, mas quase tudo no filme é um enigma. Ele quer conceber, ela quer morrer. Ela fala da maldade contra as mulheres, ele busca a cura do mal pela superação sem medicação, enquanto ambos usam o sexo como prazer e como dor. E é nesse ambiente único (a casa de campo) com apenas dois personagens que o filme transcorre. E incomoda. Muito.

As já famosas e chocantes cenas que exibem mutilação feminina, masturbação e sexo (quase) explícito deram ainda mais pano para a manga e fizeram com que o filme fosse vaiado em sua exibição em Cannes, mas que não surtiram efeito no diretor. Para ele, era um filme que precisava ser feito e assim o foi.

Fica a cargo dos espectadores as conclusões a serem tiradas. “Se alguém era o anticristo, quem era?”, “A criança se mata para enlouquecer os próprios pais?”, “Ela vê a criança se jogar durante o sexo e não a impede. Por quê?”. Com certeza Anticristo é um filme que ultrapassa fronteiras talvez nunca antes traçadas no cinema e, quem sabe, não pode/deve/consiga ser explicado. Só sabemos de uma coisa: deve ser experimentado. Mesmo que isso custe sensações incômodas e incomuns e perguntas não respondidas que martelem em nossas mentes.

Oito anos após o acidente que matou a  sua esposa e deixou Herbert Vianna, líder dos Paralamas do Sucesso, entre a vida e a morte, é lançado o documentário Herbert de Perto, dos diretores Roberto Berliner e Pedro Bronz.

Sem apelar para o sentimentalismo barato, o filme, mesmo dirigido de forma didática em certos momentos, conta a história de um grande músico nacional de forma emocionante e empolgante.

Carregado de imagens e vídeos de diversas épocas da vida do artista, somos levados a conhecer, cronologicamente, dados desde a infância de Herbert nos anos 60 na Paraíba até os dias de hoje, em que superou todos os obstáculos e permaneceu como o líder dos Paralamas do Sucesso, banda na ativa desde 1976.

Com depoimentos dos pais Hermano e Tereza, do irmão Hermano e dos outros dois integrantes do grupo Bi Ribeiro (baixista) e João Barone (baterista), Herbert de Perto exibe, em uma miscelânea de cenas de ensaios, shows e gravações, a ascensão rápida dos três meninos que se tornaram membros de uma das bandas de pop rock mais famosas do País.

Acompanhamos a paixão do artista pelo violão desde criança, quando tinha uma vida nômade em razão da profissão do pai, um piloto da Força Aérea Brasileira. Da paixão pelo violão e pela guitarra, veio sua terceira: pilotar aviões.

Do grupo de rapazes que se conheceram ainda nos anos 70, estiveram membros que formariam, anos depois, grupos como Paralamas, Plebe Rude e Legião Urbana, que renderam ótimas parcerias, como Dado Villa Lobos e até o próprio Renato Russo, ambos da Legião.

E é nessa viagem musical leve e divertida que o filme se desenrola, contando com depoimentos de Gilberto Gil, o próprio Dado, Carlinhos Brown, o músico argentino Fito Páez, além de radialistas, produtores e diretores musicais, com uma alternância entre passado e futuro, sempre recheado de depoimentos do próprio Herbert quando assiste a vídeos antes do acidente e comenta sua própria trajetória.

O auge no Rock in Rio e as turnês pelo Brasil, África e Europa, tudo é devidamente relembrado, especialmente quando das viagens pela África, na  qual a banda ganhou ares mais politizados, com letras que falam de racismo, pobreza e corrupção.

E como todo prazer tem seu preço, o amor por aviões levou a vida da esposa Lucy Needhan-Vianna – casada com ele desde 1991 e mãe de seus três filhos – e deixando Herbert internado por dois longos meses quando o aeroplano em que os dois estavam se chocou contra o chão, no dia 4 de fevereiro de 2001. Emocionante, Herbert de Perto mostra vídeos da família e o apoio dos fãs, parentes e amigos após o acidente,  que por pouco não matou o artista.

Acompanha-se, então, a recuperação, a força de vontade e o talento de um músico que fez da sua música sua grande arma de sobrevivência. Emocionante, merece ser conferido, principalmente, pelos fãs da banda.

Após o polêmico A Concepção, José Eduardo Belmonte volta ao cinema para contar outra história de denúncia e crítica mordaz à sociedade e ao sistema capitalista. Se Nada Mais Der Certo, tem a mesma tomada documental de seu filme anterior ao contar a história de Léo (Cauã Reymond), um jornalista que sobrevive de pequenos trabalhos enquanto vive com Ângela (Luíza Mariani), sua irmã, uma depressiva que não consegue nem mesmo cuidar do próprio filho, o menino Lucas (Henrique Rabelo).

Nesse vai e vem por uma cidade de São Paulo caótica, estritamente urbana e cruel, Léo vai conhecer a prostituta lésbica Marcin (Caroline Abras, uma surpresa) e o taxista Wilson (João Miguel, sempre ótimo). Juntos, os três vão fazer o que (não) podem para se sobressair e não serem engolidos pela guerra socioeconômica de uma megalópole como São Paulo.

É interessante observar o galã global Cauã Reymond despindo-se de toda a vaidade e encarnando um personagem que chega ao fundo do poço em todos os setores de sua vida. Com uma frase inicial do filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau (“Uma sociedade só será democrática quando for rico a ponto de comprar ninguém e ninguém for tão pobre a ponto de se vender a alguém”), o filme faz dessa premissa o ponto de partida para desenvolver a história do trio principal.

Léo é um jornalista frilancer que não recebe por seus trabalhos; Marcin é uma prostituta que precisa desaparecer por um período devido à “limpeza” das ruas durante o período das eleições; e Wilson sofre com os subornos que recebe para continuar trabalhando como motorista de táxi.

Com uma câmera que vai do frenesi à contemplação, Se Nada Mais Der Certo ganha pela direção segura, entrega dedicada de seus atores e uma fotografia lavada que agrada, mesmo dando o aspecto marginal (necessário) à película.

A bela trilha de Zepedro Gollo é perfeita para alternar os momentos de beleza, poesia e alegria com a densa carga dramática e estressante que move os personagens.

Uma das melhores surpresas do filme é, certamente, a travesti Sybelle (papel do ator Milhem Cortaz, que também havia trabalhado com Belmonte em A Concepção), com uma personagem visceral, engraçada e de forte personalidade.

Com participação de atores como Leandra Leal e Antonio Petrin, Se Nada Mais Der Certo é um filme denúncia da corrupção e exploração do ser humano pelo próprio ser humano e que ganha empatia com um roteiro inteligente e repleto de frases pontuais e diretas, passado em uma cidade como São Paulo, tão protagonista como seus personagens.

Assim, o trio Léo-Marcin-Wilson, como meio de sobrevivência, envolve-se em assaltos e um ciclo de violência que tem tudo para terminar de forma trágica. Fica claro, a partir daí, o dinheiro fácil do tráfico de drogas, a felicidade momentânea que parte da inconseqüência de estar fazendo algo contra o que é considerado certo, até vir o momento de pensar no que acontece depois que a euforia passa.

Com a religião englobando diversas partes do filme, o filme tem o lado onírico e poético no personagem Lucas, a criança inocente que, em certo momento, desenha sobre as contas não pagas e solta bolinhas de sabão em uma vida que, em sua ignorância infantil, não sabe que está prestes a explodir. Mas algo, que não sabemos se pode ser chamado de milagre, pode nos trazer de volta à vida.

Exibido na abertura do Festival de Cinema Indie de São Paulo, o filme que deu ao diretor filipino Brillante Mendoza o prêmio de direção em Cannes neste ano, não empolgou a plateia. Por demais chocante, deixou espectadores com um ponto de interrogação na cabeça: por que tanta violência? A resposta seria, talvez, porque ela existe sem justificativa?

Kinatay se passa em Manila (capital das Filipinas), mostrando a vida de um casal e seu filho. Peping (Coco Martin), um rapaz prestes a entrar para a polícia, aceita um trabalho para poder se casar com a namorada, mas é levado a presenciar os horrores causados a uma mulher que tem contas de drogas pendentes com um chefão do crime organizado.

Essencialmente urbano em sua podridão de uma cidade deixada às traças, Kinatay destaca-se pela alternância de estilo documental de câmeras tremidas, uma fotografia escura – e ao mesmo tempo colorida – e sua maravilhosa trilha, carregada de tensão e medo. Kinatay poderia se resumir a isso: medo e tensão.

Com cenas de violência explícita e angustiante, o filme faz da cidade mais que uma personagem com uma trama que acontece, praticamente, em tempo real, do transporte de uma mulher até um cativeiro no interior do país, onde sofrerá as maiores atrocidades, de violência física, estupro até ser, friamente, esquartejada.

Peping, que pretende servir à Polícia com a ideologia de combater a violência, descobre que a violência está dentro da própria Polícia, do próprio crime organizado e do próprio ser humano. Ele torna-se a testemunha ocular, quase como uma lavagem cerebral a la Laranja Mecânica, sendo obrigado a assistir tudo do começo ao fim.

Com maior parte de suas cenas passadas em um mesmo ambiente (o cativeiro), Kinatay ganha pontos em sua fotografia que faz perfeito uso da luz e dos seus silêncios, com poucos diálogos e muitos sons oriundos das ruas.

Dilemas transcorrem por toda a trama, em que o personagem sente-se dividido entre interferir ou permitir, presenciar ou fugir, silenciar ou calar. Talvez seja esse o ponto que não agradou aos espectadores, que consideraram o filme de “uma violência gratuita”, “uma brutalidade que não leva a lugar nenhum”. Talvez esteja aí a síntese de Kinatay: a violência real é gratuita, não leva a ponto algum. Ou seja, Mendoza simplesmente retratou uma realidade que não é restrita somente a países de Terceiro Mundo, mas sim provinda da natureza humana.

E assim Peping vai embora, sendo obrigado a acostumar-se com a violência e o crime, banalizando a vida do ser humano. E, como um personagem declara em certo momento do filme: “A dignidade, uma vez perdida, jamais é recuperada”. Cruel e verdadeiro, ou seja, um soco na boca do estômago.