A nova leva de filmes considerados “cine clandestino” tem ganhado forte espaço na Europa, com produções como Coisas Belas e Sujas (2002) e Exílios (2004), além da denúncia da xenofobia imposta pelos europeus, como o mais recente Entre os Muros da Escola (2008).

Dirigido por Philippe Lioret (Senhorita), Bem-vindo conta a história de Bilal (Firat Ayverdi), um iraquiano de 17 anos nascido no Curdistão que, ilegal na França, quer ir atrás de Mina (Derya Ayverdi), mulher que ama e mora com a família na Inglaterra.

Porém, suas tentativas de viajar escondido em caminhões falham e ele decide aprender a nadar para cruzar o longo Canal da Mancha, que divide a Grã-Bretanha do norte da França. Para isso, começa a ter aulas com o professor de natação Simon (Vincent Lindon), que está em processo de divórcio com Marion (Audrey Dana), mulher pela qual ainda é apaixonado.

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Simon e Bilal criam uma forte amizade, quase paternal, contrariando a política adotada na atual França em relação á xenofobia.
Funcionando como filme denúncia sem deixar o romantismo de lado, Bem-vindo mostra essa decisão de Bilal sendo construída incessantemente ao longo do filme: aprender a nadar para conquistar seu objetivo. Ao mesmo tempo, o preconceito dos europeus em relação aos imigrantes é retratada sem meias-palavras no longa, sendo impedidos inclusive de fazerem compras nos supermercados.

Melancólico e tenso em sua carga dramática, Bem-vindo é falado em inglês, árabe e francês, mostrando essa miscelânea de etnias e a convivência de europeus e imigrantes na França conservadora de Sarkozy.

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Totalmente urbano, o filme ganha na interpretação sincera dos atores e na direção segura de Lioret, com um filme de fotografia lavada e câmera que alterna entre teatral, frenética e convencional.
O roteiro, de Olivier Adam e Emmanuel Courcol, trata do tema com seriedade política e uma delicadeza sucinta, porém tocante, favorecida pela trilha sonora intimista, basicamente composta por piano.

Firat Ayverdi, que interpreta o sonhador protagonista Bilal, tem carisma e a doçura necessária, porém perde em interpretação. Mas um dado é curioso: Derya Ayverdi, que interpreta Mina, foi quem indicou Firat, o irmão não-profissional, para o papel de Bilal quando selecionada pelo diretor do filme. É irônico pensar que sendo irmãos na vida real eles interpretem duas pessoas que estão apaixonadas uma pela outra.

Mas além do romance, Bem-vindo se apóia nessa impossibilidade dos imigrantes na Europa. Tanto que a perseguição é grande, com punições de até 5 anos de prisão aos franceses que ajudam imigrantes ilegais. E quando hospeda Bilal em sua casa, Simon se arrisca para ajudar o garoto, que sonha em ser jogador de futebol na Inglaterra, iludido pela falsa prosperidade européia (tema abordado também no filme Jean Charles).

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É paradoxal e inesquecível a cena em que um vizinho de Simon denuncia que o professor de natação está com o imigrante em seu apartamento ao ligar para a polícia. A câmera, neste momento, mostra o capacho de sua casa, que diz “Welcome” (“Bem-vindo”, em inglês).

Bem-vindo teve tanto impacto no cinema francês que um projeto de lei para acolhimento aos imigrantes foi ao senado e ganhou o nome de Welcome. O filme também teve sua importância foi reconhecida pelo próprio Cinema, com três prêmios no Festival de Berlim 2009 (Melhor Filme Europeu da mostra Panorama, Júri Ecumênico e Lable Europa Cinemas).

Talvez seja o momento de a França repensar seus conceitos universais “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, pois a situação atual é completamente oposta da frase do filósofo Jean-Jacques Rousseau.

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