Final dos anos 60. A Alemanha Ocidental pós Segunda Guerra Mundial passava por um conturbado momento: movimentos estudantis, receosos com os resquícios políticos do Nazismo, lutavam contra a política do país e reprimiam as atitudes do imperialismo norte-americano – especialmente a Guerra do Vietnã, a pobreza mundial e a energia nuclear.

Em 1967, a visita de estado do xá da Pérsia e sua esposa a Berlim foi o ponto crucial para que estudantes protestassem contra a situação do Irã em relação às más condições daquele povo. Durante a manifestação, um estudante é morto e, no ano seguinte, logo após um discurso contra a guerra do Vietnã, Rudi Dutschke é baleado por um extremista de direita. Estava aberta a porta para a criação da Facção Exército Vermelha (a RAF, Rote Armee Fraktion, em alemão), liderada por Andreas Baader e Gudrun Ensslim. A jornalista Ulrike Meihof integra-se ao grupo em 1970, durante a colaboração para uma das fugas de Baader da prisão.

baader-meinhof

Dirigido por Uli Edel (Christiane F, 13 anos, drogada e prostituída), O grupo Baader Meihof tornou-se o filme referência nas indicações a prêmios pela Alemanha.

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro tem roteiro e produção de Bernd Eichinger (A queda! As últimas horas de Hitler), que adaptou o livro The Baader Meihof Complex, de Stefan Aust, publicado em 1988.

Focado nos personagens Ulrike Meinhof (Martina Gedeck), Andreas Baader (Moritz Bleibtreu) e Gudrun Ensslim (Johanna Wokalek), o filme acompanha de 1967 a 1977 os atos terroristas da RAF, que acreditava que a melhor forma de responder à violência seria com a própria violência. O grupo foi dissolvido somente em 1998, deixando um rastro de sangue e brutalidade nos trinta anos de sua existência.

baader-meinhof (1)

Extremamente fiel historicamente, O grupo Baader Meinhof preza pelo estilo documental, diálogos e detalhes baseados em documentos e relatos de testemunhas, além de se apoiar no livro de Aust, que tinha contato direto com diversos dos participantes da RAF à época.

O grupo idealizava uma sociedade mais humana, porém utilizou de formas errôneas para defendê-la. O turbilhão juvenil de mudar o mundo misturou-se a uma espécie de “culpa” em relação comodismo da população diante do nazismo: nascia aí um dos piores períodos da Alemanha pós Hitler.

O grupo é caçado por Horst Herold (Bruno Ganz) que utilizava-se de tecnologias computadorizadas e, de certa forma, os compreendia. Porém, o filme não busca ser didático ou dar um tom moralista ao período, e sim reconstituir os fatos exatamente como ocorreram, cabendo ao espectador julgar (ou não).

baader460

A história do multifacetado grupo retrata esse uso da violência como instrumento político, que se tornou militante e autoritário com o tempo. Defendiam uma espécie de verdade absoluta que acreditavam, chamando a atenção do público pela monstruosidade dos eventos ao mesmo tempo em que ganharam defensores dos atos que praticavam.

O casal Baader e Ensslim, carismáticos e influentes, agregam Meinhof, que utilizava sua carreira como jornalista para influenciar as massas por meio da mídia.

Os atos, que tiveram início com incêndios a departamentos alemães ganhou proporções maiores, incluindo treinamentos militares na região da Jordânia.

baader 02

Porém, com a morte da primeira integrante do RAF (Petra Schelm, interpretada por Alexandra Maria Lara), o grupo se torna cada vez mais violento e inicia uma série de bombardeios a bases militares alemãs, com uso de carros bombas e, inclusive, um ataque ao carro do juiz federal Buddernberg, que fere gravemente sua esposa.

O grupo é preso em 1972, mesmo ano do Setembro Negro, em que palestinos disparam contra onze integrantes da equipe esportiva israelense durante os Jogos Olímpicos em Munique e utilizam greves de fome como exigência de libertação e revolta da morte do membro Holger Meins (Stipe Erceg). Os ataques permanecem mesmo com a prisão de Baader, Meinhof e Ensslim, como sequestros e mortes a figuras políticas

Parte do grupo vai a julgamento em Stammheim no ano de 1975, em um processo que perdura até 1977, com a condenação à prisão perpétua de Baader, Ensslim e Jan-Carl Raspe (Niels Bruno Schimidt). No meio do processo de julgamento, Meinhof é encontrada enforcada em sua cela.

Novos sequestros ocorrem, incluindo o do industrial Hanns Martin Schleyer e do avião Landshut (por terroristas palestinos), ambos em 1977, com o objetivo de forçar a libertação dos três integrantes da RAF.

Tenso do início ao fim, já é claro que tudo vai acabar de forma violenta em O grupo Baader Meinhof, até mesmo pelos conflitos entre os próprios integrantes do movimento. Uli Edel dirige o filme de forma magistral, com um controle de direção dos fatos e das interpretações impressionante. Mesmo sem uma narrativa linear e lidando com um elenco numeroso, o filme não se torna cansativo em momento algum em suas duas horas e meia de projeção.

805464d

Mesmo sem utilizar recursos técnicos de iluminação cinematográfica, o filme ganha em matéria de fotografia, além de ter uma direção de arte competente. Ao condensar dez anos de história no longa, O grupo Baader Meihof utiliza-se de uma dramaturgia picotada, como um quebra-cabeças de fatos que faz sentido.

A ideia não era se concentrar no debate político da RAF, mas sim registrar o que o grupo realizou quando deixou para trás o debate político e recorreu à violência.

Para dar ainda mais veracidade ao filme, algumas cenas foram filmadas em locações originais, como a Universidade Técnica de Belim e a prisão de Stammheim, onde o grupo foi preso e julgado. Até mesmo a quantidade de tiros disparados nos personagens são os mesmos, de acordo com os registros históricos.

Praticamente um documentário, O grupo Baader Meinhof dá ao espectador a chance de ver a história da forma mais realista possível, tanto que apenas um personagem do filme é ficcional. Podemos observar essa autoimposição de mudar o mundo, com uma juventude galgada em uma democracia frágil. E fica a pergunta: até onde ir para um mundo melhor?

Anúncios