O Brasil vem descobrindo sua música há muitos anos, em um processo por vezes lento e complexo mas que, de fato, acontece. Considerada por muitos como uma das melhores do mundo, chegou o momento de mostrar essa musicalidade, sempre tão eclética e vasta, nos cinemas.

Uma onda de documentários musicais está invadindo o País nos últimos meses, com títulos como Palavra (en)cantada, Loki, Simonal – ninguém sabe o duro que dei, Mistério do Samba, Cantoras do Rádio, Um homem de moral e Coração Vagabundo.

Sendo assim, segue abaixo uma breve panorama dos lançamentos que ganharam as telonas dos cinemas do País que nos fazem (re)descobrir porque temos uma das musicalidades mais qualitativas e eclética do mundo. Para serem vistos com os ouvidos atentos! Aproveitem:

Palavra (en)cantada: com direção de Helena Solberg (do docu-drama Carmem Miranda – Banana is My Business, de 1994), o documentário Palavra (en)cantada cria um paralelo entre a música popular, a poesia e a literatura brasileiras. Com depoimentos e apresentações de músicos como Arnaldo Antunes, Maria Bethânia, Chico Buarque, Adriana Calcanhoto, Zélia Duncan, Lenine e Tom Zé, Palavra (en)cantada preza pelas imagens inéditas brasileiras. Estão presentes no longa, por exemplo, a encenação de Morte e Vida Severina, do escritor João Cabral de Mello Neto, no Festival de Teatro Universitário de Nancy, na França, em 1966 e o registro de Dorival Caymmi, nos anos 40, cantando e tocando O Mar ao violão, canção que ele sempre considerou como a mais representativa de sua obra.

Refletindo sobre o assunto, a relação poesia-e-música do filme desnuda o rap, carnavais de rua, passa pelo período da Bossa Nova e do Tropicalismo, sempre alternando entrevistas e declamações de canções e textos, todos feitos especialmente para o longa.

Fernando Pessoa, João Cabral de Melo Neto e Hilda Hilst são alguns dos escritores reverenciados em Palavra (en)cantada, sempre reforçando a nossa tradição de cultura oral, descosturando aspectos da formação histórico-cultural no Brasil.

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Algumas cenas emocionam pela importância histórica, como o depoimento de Caetano Veloso em 1967, após cantar Alegria, Alegria no Festival da Record. Outras se destacam pela poesia, como a abertura, na qual Adriana Calcanhoto canta, em linguagem franco-provençal, versos do trovador do século XIII Arnaut Daniel, considerado um dos maiores poetas de todos os tempos.

As declamações não param por aí, porém o filme foca, também, no improviso dos rappers e nordestinos da embolada e dos gêneros de viola. Ferréz, escritor e rapper paulista presente no filme, considera tais improvisos “uma mera continuação do cordel”, em um cruzamento de cultura erudita e popular.

Com essa miscelânea de músicos, poetas-letristas, autores de livros que se tornaram compositores (e vice-versa) e poetas do morro, do campo e do asfalto, Palavra (en)cantada documenta essa união de música e literatura, tão essencial e presente na cultura brasileira.

Loki: talvez o mais aclamado da recente leva dos documentários musicais brasileiros, essa cinebiografia do músico Arnaldo Baptista, ex-integrante dos Mutantes, é um deleite para os olhos e ouvidos. Dirigido, roteirizado e produzido por Paulo Henrique Fontenelle e com participação de diversos artistas como os músicos Sérgio Dias (irmão de Arnaldo e também integrante dos Mutantes), Tom Zé, Gilberto Gil, Sean Lennon, o filme conta, cronologicamente, a ascensão e queda de um dos mais inventivos artistas da música brasileira.

Emocionante e bem produzido, Loki foca no líder dos Mutantes, grupo que revolucionou o cenário musical (nacional e internacional) nos final da década de 60 e início dos anos 70.

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O titulo do filme é o mesmo do primeiro álbum-solo do artista, lançado em 1974, logo após o fim do grupo, que tinha Rita Lee – namorada de Arnaldo à época e que não participa do documentário – como vocalista feminina.

Retratando, de forma poética e comovente o auge do grupo, Loki toca nas feridas que surgiram na vida do artista, como as drogas, a depressão e uma tentativa de suicídio, mas sempre com um tom despretensioso, sem adotar o melodrama em sua linguagem simples e dinâmica.

Esse senso de humanidade de Arnaldo Baptista é revelado em seus depoimentos e na pintura de suas telas (uma grande paixão do músico), convidando o espectador a uma jornada que intercala imagens e vídeos de apresentações, sobrepondo passado e presente.

Fica clara essa genialidade de Arnaldo Baptista, sem maniqueísmos, apenas como constatação de sua obra como cantor e compositor e de sua delicadeza como ser humano. Indispensável.

Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei: nos anos 60, além da Jovem Guarda, não tinha para mais ninguém. Wilson Simonal era, de fato, um dos artistas de maior ascensão da música brasileira. Negro, de origem humilde e com um status de estrela, transpôs tabus pelo jeito malicioso e extremamente carismático de malandro.

Dirigido por Cláudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal, Simonal – ninguém sabe o duro que dei acompanha a trajetória deste artista, falecido em 2000, com depoimentos de seus filhos Max de Castro e Wilson Simoninha, os cartunistas Ziraldo e Jaguar e o ex-jogador Pelé, um dos grandes amigos do músico.

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Simonal, que no auge da fama dividiu o palco com a cantora norte-americana Sarah Vaughn e acompanhou a seleção brasileira ao México na conquista do tricampeonato em 1970, envolveu-se em um incidente – nunca esclarecido – com seu ex-contador e agentes do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), durante o regime militar no País. Considerado delator, seu nome estampou as páginas da revista O Pasquim, que se opunha fortemente à opressão do governo.

Dividido em duas partes, o filme vai da meteórica carreira de Simonal até cair no esquecimento após as acusações de colaborador dos militares. Com depoimentos parciais, Simonal é defendido e execrado, em um retrato eficiente das contradições acerca dos mistérios ao redor de sua história. Muitos defendem que os preconceitos racial e social fizeram parte de boatos a fim de derrubá-lo da carreira de sucesso que tinha. Ficam as perguntas e resta sua musicalidade deliciosa, que fez controlar o Maracanãzinho com uma plateia de 30 mil pessoas.

O Mistério do Samba: em 1998, quando pesquisava a obra musical da Velha Guarda da Portela para a seleção do repertório de seu álbum Tudo Azul, a cantora Marisa Monte teve a ideia de produzir um documentário sobre o cotidiano dos antigos integrantes. Com cerca de 200 horas de filmagens e uma edição de oito meses, O Mistério do Samba contou com a direção da dupla Carolina Jabor e Lula Buarque de Hollanda (filha de Arnaldo Jabor e sobrinho de Chico Buarque) e um roteiro escrito a nove mãos, incluindo os diretores e a própria Marisa Monte, que já contava nos créditos da produção.

Retratando de forma simples e poética o cotidiano da Velha Guarda da Portela, O Mistério do Samba conta com participações de Paulinho da Viola, Zeca Pagodinho, Jair do Cavaquinho, Casemiro da Cuíca, Tia Doca, Tia Eunice, Tia Surica e Áurea Maria, entre outros componentes desses veteranos artistas da popular escola de samba do Rio de Janeiro.

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Repleto de saudosismo e confissão de casos curiosos e bem-humorados, a melancolia também está presente no filme, especialmente com essa proximidade da morte, lembranças de carnavais passados e uma vida sofrida. Porém, isso não é empecilho já que, como dizem, sem tristeza não existe samba bom.

E samba é o que não falta: são 53 músicas, quase todas de artistas que foram ou ainda fazem parte na Velha Guarda. Dando um novo prisma para a importância musical dos sambistas, O Mistério do Samba é um grande registro de uma música de suma importância para o País e que estava esquecida pelo grande público.

Cantoras do Rádio: a chamada Era de Ouro do Rádio foi, entre as décadas de 1930 e 50, a grande marca para a popularização da música brasileira. Os programas de César Alencar e Paulo Gracindo contavam com divas como Carmem Miranda, Aracy de Almeida, Aurora Miranda, Dalva de Oliveira, Dolores Duran, Elizeth Cardoso, Linda e Dircinha Baptista, Isaura Garcia e Nora Ney, com um acervo musical extremamente farto.

Como homenagem a essas cantoras, o s diretores Gil Baroni e Marcos Avellar conceberam Cantoras do Rádio, que teve como fio condutor o show Estão Voltando as Flores, realizado no Rio de Janeiro em 2005. Nele, o quarteto formado por Carmélia Alves, Carminha Mascarenhas, Violeta Cavalcanti e Ellen de Lima retornou ao palco para reviver esses áureos tempos do rádio, dando o pontapé inicial para a realização do documentário.

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Buscando reviver a dimensão daquele período, Cantoras do Rádio se apóia no carisma e talento das quatro artistas, de personalidades tão diferentes e fascinantes e que, até hoje, sobrevivem da música.

Da consolidação do rádio como veículo de massas no Brasil ao ostracismo – especialmente pelo surgimento da televisão – o filme mostra que, apesar das adversidades, nenhuma delas perdeu o talento ou a elegância.

Com um ótimo vigor dessas divas e ótimas performances no palco, Cantoras do Rádio é um filme sobre, para e de Carmélia Alves, Carminha Mascarenhas, Violeta Cavalcanti e Ellen de Lima. Com declarações emocionantes e empáticas de todas, as quatro se entregam ao filme fazendo o que sabem de melhor: cantar. E talvez só isso já baste.

Um Homem de Moral: com um acervo extenso na composição de belas canções que entraram para a história da música brasileira, o zoólogo paulista Paulo Vanzolini ganhou um  documentário que celebra sua importância na trajetória da música brasileira. Dirigido por Ricardo Dias – que já havia realizado com o Vanzolini zoólogo o curta Os Calangos do Boiaçú (1992) e No Rio das Amazonas (1995) – Um Homem de Moral é mais do que uma homenagem ao (bem-humorado e ranzinza) compositor de 85 anos: é a relação do povo com sua música.

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Com composições que envolvem samba, capoeira, caipira e choro, Um Homem de Moral (título de uma de suas canções mais conhecidas) é uma homenagem não somente ao músico mas, também, à cidade de São Paulo, mostrando esse “povo de Vanzolini”, com suas frustrações e alegrias, explicitadas em imagens, apresentações e declarações tocantes. Permeado por cenas das gravações da antologia Acerto de Contas (caixa de CDs lançada em 2003) e de personagens convidados para interpretar suas canções, vemos números musicais de Márcia, Paulinho Nogueira, Paulinho da Viola, Chico Buarque, Miúcha, Inezita Barroso, Virgínia Rosa, Elton Medeiros, Martinho da Vila e Maria Marta.

Longe de ser uma biografia de Vanzolini, Um Homem de Moral preza pelas belas imagens de arquivo da capital paulista e da diversidade de etnias da cidade, nessa relação do artista com o imaginário coletivo em sua influência. E a cena final concretiza ainda mais essa relação do povo, em um desfecho emocionante.

Walter Alfaiate – A Elegância do Samba: outro grande compositor e sambista ganhou seu espaço nas telas de cinema. O carioca Walter Nunes, mais conhecido como Walter Alfaiate, é tema do filme dirigido em conjunto por Emiliano Leal, Vitor Fraga, Paulo Roscio e Rommel Prata.

Com um panorama rápido de sua trajetória desde o convívio direto com o samba na infância e a passagem da profissão de alfaiate até a dedicação ao samba (somente aos 60 anos de idade), Walter Alfaiate – A Elegância do Samba revela um artista que mantém, aos 79 anos, disposição, elegância e bom humor invejáveis.

Pontuado por canções em um show inédito, o documentário conta com depoimentos de Sérgio Cabral, Regina Casé, Paulinho da Viola, Beth Carvalho, Cristina Buarque de Hollanda, Zeca Pagodinho, Nei Lopes, Marcus Vinícius de Andrade e Aldir Blanc.

Dividido em capítulos que traçam breves perfis de fases de sua vida, A Elegância do Samba mostra os fatos que marcaram a dedicação do músico em relação ao samba, sempre com um jeito notável do malandro da zona sul carioca.

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Mesmo carente de recursos técnicos, o filme revela histórias de antigos carnavais e traz dados curiosos sobre samba de roda, como o Cantinho da Fofoca, bar aonde se reuniam os compositores do Botafogo.

Considerado pelos amigos como um “conhecedor do sotaque do samba”, Alfaiate teve sua carreira iniciada apenas aos 60 anos, se equiparando a outros ícones tardios do samba, como Clementina de Jesus, Dona Ivone Lara, Cartola e Nelson Sargento. A elegância do samba é, inclusive, dedicado a todos esses artistas que foram reconhecidos após os 60 anos.

Coração Vagabundo: concebido, inicialmente, para ser um making of da turnê internacional de Caetano Veloso em 2006, o diretor Fernando Grostein Andrade registrou a passagem do cantor e compositor por países como Brasil, Estados Unidos e Japão. Com um material bruto de 57 horas de gravação, o projetou ganhou força e se transformou em Coração Vagabundo, documentário que estreia no país dia 24 de julho.

Revelando a intimidade do cantor e compositor baiano, Coração Vagabundo acompanha incessantemente o músico durante a visita a cidades como São Paulo, Nova York, Tóquio e Kyoto, além de contar com a participação de cineastas como Pedro Almodóvar e Michelangelo Antonioni, da modelo Gisele Bündchen, da atriz Regina Casé e do músico escocês David Byrne.

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Criando uma maior proximidade com sua vida íntima e profissional, o filme não busca ser uma biografia do músico e sim mostrar passagens recheadas de declarações, apresentações e a relação do músico por esses lugares que viajou.

Com seu jeito naturalmente humilde, calmo e elegante, o filme mostra um Caetano bem-humorado, brincalhão, com uma alma quase infantil algumas vezes e que interage boa parte do tempo com diretor e câmera, quase como um bate-papo com os espectadores.

O ponto principal de Coração Vagabundo é, porém, tratar da música (seja ela brasileira ou não) em relação ao mundo e ao próprio Brasil. Recheado de canções em português, inglês e até mesmo cantadas em italiano e espanhol, o filme perde pontos pela sua câmera frenética, que causa incômodo ao espectador, com imagens tremidas que ultrapassam o suportável. Nos quesitos favoráveis, temos a proximidade com o músico e as considerações de Caetano sobre essa (não) aceitação dos estrangeiros em relação à música popular brasileira.

Simples, com uma boa edição e musicalmente interessante, Coração Vagabundo merece ser conferido.

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