Com canções intimistas, a banda islandesa Sigur Rós surgiu no cenário musical em 1994. O som etéreo tinha em seus quatro integrantes (Jónsi, Kjartan, Orri e Georg) a força necessária para conquistar fãs no mundo todo. Quebrando as barreiras da linguagem, criaram um idioma não-traduzível chamado Vonlenska, cujo único intuito é dar melodia e ritmo às canções.

Assim, o Sigur Rós retornou, entre 2006 e 2007, para uma série de shows na Islândia com encerramento da turnê daquele período e para a gravação do disco duplo Hvarf/Heim, lançado em 2007. O registro desse retorno está presente em Heima, documentário dirigido por Dean Deblois (indicado ao Oscar pela animação Lilo e Stich). Heima, que em islandês significa “em casa, lar, país de origem” foi exibido no In-Edit Brasil 2009, festival de documentários musicais que chega pela primeira vez ao Brasil.

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Sem o intuito de criar uma biografia, Heima se diferencia de outros documentários que registram turnês musicais. A intenção não era acompanhar o dia a dia da banda mas, na verdade, registrar esse retorno do grupo à Islândia e a dedicação dos seus exigentes e dedicados fãs.

As naturais paisagens islandesas, com seus cenários montanhosos e inóspitos a céu aberto tornam-se palco de grande parte dos shows gratuitos realizados pelo grupo. Acompanhamos a chegada da legião de fãs, de todas as idades, que seguem a banda nos inusitados locais. Uma casa abandonada, uma fábrica desativada, um pequeno restaurante, grandes estádios, todos se tornam palco para o Sigur Rós. Os jogos de luzes e sombras nas grandes apresentações fechadas são um espetáculo à parte, dando a aura surreal e onírica que tanto permeia a carreira do grupo.

Passando por diversas regiões, a banda interage com depoimentos e explicam dados curiosos em relação aos fãs, à música e à importância – histórica e pessoal – dos locais que vão se apresentando.

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Com uma população pacata e tradicional, as frias terras islandesas exibem um ar aconchegante, em que as apresentações remetem à grandes reuniões familiares. Segundo a banda, fugir das grandes cidades é um alívio. Afinal, é esse o propósito do grupo: serem reconhecidos como músicos e não como celebridades musicais.

Com imagens inspiradoras e líricas, Heima prima pela delicadeza e atenção a detalhes, com uma preocupação primorosa em sua fotografia e movimentos de câmera. Isso já era visto nos clipes da banda, que sempre abusou da câmera lenta e dos detalhes visuais, com um cuidado com cores e luzes espantoso.

Heima conta, ainda, com depoimentos de quatro integrantes femininas (violinistas e violoncelistas) e com a gravação em estúdio da emocionante Starálfur, canção que entrou no disco duplo da banda. E é essa presença de palco do Sigur Rós aliada à ótima edição que permitem que o filme não se torne cansativo. Melodia e imagens se completam dando o tom onírico e poético do documentário.

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Tal espetáculo, inclusive, ganha força na natureza, que envolve a atmosfera de Heima. Rochas, montanhas, mar, animais, céu, está tudo registrado para admiração dos espectadores, atingindo um ar que vai além do mero teor contemplativo. Com uma preocupação com o meio-ambiente, o documentário registra um show de protesto realizado em Kárahnjúkar, região que sofre com a construção de uma barragem para produção de eletricidade e fundição de alumínio.

Sem efeitos especiais, letreiros ou inserções animadas, Heima se caracteriza como um deleite aos olhos e ouvidos. Com planos de câmera que vão do clássico à ousadia (para um documentário), temos, muitas vezes, a impressão de estar diante de uma fotografia ou pintura. Em alguns momentos, há o uso da filmagem teatral (em que em que a câmera fixa em algo, ou no nada, até que a ação se desenrole naquele quadro); e funciona de forma impressionante.

Meticulosamente bem produzido, Heima é uma mistura de beleza, sintonia e sincronia audiovisual. Seu clima funciona como uma experiência extra-sensorial para alguns e passeia entre o sonho e o transcendental para os fãs. Imperdível.

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