agosto 2009


A nova leva de filmes considerados “cine clandestino” tem ganhado forte espaço na Europa, com produções como Coisas Belas e Sujas (2002) e Exílios (2004), além da denúncia da xenofobia imposta pelos europeus, como o mais recente Entre os Muros da Escola (2008).

Dirigido por Philippe Lioret (Senhorita), Bem-vindo conta a história de Bilal (Firat Ayverdi), um iraquiano de 17 anos nascido no Curdistão que, ilegal na França, quer ir atrás de Mina (Derya Ayverdi), mulher que ama e mora com a família na Inglaterra.

Porém, suas tentativas de viajar escondido em caminhões falham e ele decide aprender a nadar para cruzar o longo Canal da Mancha, que divide a Grã-Bretanha do norte da França. Para isso, começa a ter aulas com o professor de natação Simon (Vincent Lindon), que está em processo de divórcio com Marion (Audrey Dana), mulher pela qual ainda é apaixonado.

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Simon e Bilal criam uma forte amizade, quase paternal, contrariando a política adotada na atual França em relação á xenofobia.
Funcionando como filme denúncia sem deixar o romantismo de lado, Bem-vindo mostra essa decisão de Bilal sendo construída incessantemente ao longo do filme: aprender a nadar para conquistar seu objetivo. Ao mesmo tempo, o preconceito dos europeus em relação aos imigrantes é retratada sem meias-palavras no longa, sendo impedidos inclusive de fazerem compras nos supermercados.

Melancólico e tenso em sua carga dramática, Bem-vindo é falado em inglês, árabe e francês, mostrando essa miscelânea de etnias e a convivência de europeus e imigrantes na França conservadora de Sarkozy.

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Totalmente urbano, o filme ganha na interpretação sincera dos atores e na direção segura de Lioret, com um filme de fotografia lavada e câmera que alterna entre teatral, frenética e convencional.
O roteiro, de Olivier Adam e Emmanuel Courcol, trata do tema com seriedade política e uma delicadeza sucinta, porém tocante, favorecida pela trilha sonora intimista, basicamente composta por piano.

Firat Ayverdi, que interpreta o sonhador protagonista Bilal, tem carisma e a doçura necessária, porém perde em interpretação. Mas um dado é curioso: Derya Ayverdi, que interpreta Mina, foi quem indicou Firat, o irmão não-profissional, para o papel de Bilal quando selecionada pelo diretor do filme. É irônico pensar que sendo irmãos na vida real eles interpretem duas pessoas que estão apaixonadas uma pela outra.

Mas além do romance, Bem-vindo se apóia nessa impossibilidade dos imigrantes na Europa. Tanto que a perseguição é grande, com punições de até 5 anos de prisão aos franceses que ajudam imigrantes ilegais. E quando hospeda Bilal em sua casa, Simon se arrisca para ajudar o garoto, que sonha em ser jogador de futebol na Inglaterra, iludido pela falsa prosperidade européia (tema abordado também no filme Jean Charles).

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É paradoxal e inesquecível a cena em que um vizinho de Simon denuncia que o professor de natação está com o imigrante em seu apartamento ao ligar para a polícia. A câmera, neste momento, mostra o capacho de sua casa, que diz “Welcome” (“Bem-vindo”, em inglês).

Bem-vindo teve tanto impacto no cinema francês que um projeto de lei para acolhimento aos imigrantes foi ao senado e ganhou o nome de Welcome. O filme também teve sua importância foi reconhecida pelo próprio Cinema, com três prêmios no Festival de Berlim 2009 (Melhor Filme Europeu da mostra Panorama, Júri Ecumênico e Lable Europa Cinemas).

Talvez seja o momento de a França repensar seus conceitos universais “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, pois a situação atual é completamente oposta da frase do filósofo Jean-Jacques Rousseau.

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Final dos anos 60. A Alemanha Ocidental pós Segunda Guerra Mundial passava por um conturbado momento: movimentos estudantis, receosos com os resquícios políticos do Nazismo, lutavam contra a política do país e reprimiam as atitudes do imperialismo norte-americano – especialmente a Guerra do Vietnã, a pobreza mundial e a energia nuclear.

Em 1967, a visita de estado do xá da Pérsia e sua esposa a Berlim foi o ponto crucial para que estudantes protestassem contra a situação do Irã em relação às más condições daquele povo. Durante a manifestação, um estudante é morto e, no ano seguinte, logo após um discurso contra a guerra do Vietnã, Rudi Dutschke é baleado por um extremista de direita. Estava aberta a porta para a criação da Facção Exército Vermelha (a RAF, Rote Armee Fraktion, em alemão), liderada por Andreas Baader e Gudrun Ensslim. A jornalista Ulrike Meihof integra-se ao grupo em 1970, durante a colaboração para uma das fugas de Baader da prisão.

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Dirigido por Uli Edel (Christiane F, 13 anos, drogada e prostituída), O grupo Baader Meihof tornou-se o filme referência nas indicações a prêmios pela Alemanha.

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro tem roteiro e produção de Bernd Eichinger (A queda! As últimas horas de Hitler), que adaptou o livro The Baader Meihof Complex, de Stefan Aust, publicado em 1988.

Focado nos personagens Ulrike Meinhof (Martina Gedeck), Andreas Baader (Moritz Bleibtreu) e Gudrun Ensslim (Johanna Wokalek), o filme acompanha de 1967 a 1977 os atos terroristas da RAF, que acreditava que a melhor forma de responder à violência seria com a própria violência. O grupo foi dissolvido somente em 1998, deixando um rastro de sangue e brutalidade nos trinta anos de sua existência.

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Extremamente fiel historicamente, O grupo Baader Meinhof preza pelo estilo documental, diálogos e detalhes baseados em documentos e relatos de testemunhas, além de se apoiar no livro de Aust, que tinha contato direto com diversos dos participantes da RAF à época.

O grupo idealizava uma sociedade mais humana, porém utilizou de formas errôneas para defendê-la. O turbilhão juvenil de mudar o mundo misturou-se a uma espécie de “culpa” em relação comodismo da população diante do nazismo: nascia aí um dos piores períodos da Alemanha pós Hitler.

O grupo é caçado por Horst Herold (Bruno Ganz) que utilizava-se de tecnologias computadorizadas e, de certa forma, os compreendia. Porém, o filme não busca ser didático ou dar um tom moralista ao período, e sim reconstituir os fatos exatamente como ocorreram, cabendo ao espectador julgar (ou não).

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A história do multifacetado grupo retrata esse uso da violência como instrumento político, que se tornou militante e autoritário com o tempo. Defendiam uma espécie de verdade absoluta que acreditavam, chamando a atenção do público pela monstruosidade dos eventos ao mesmo tempo em que ganharam defensores dos atos que praticavam.

O casal Baader e Ensslim, carismáticos e influentes, agregam Meinhof, que utilizava sua carreira como jornalista para influenciar as massas por meio da mídia.

Os atos, que tiveram início com incêndios a departamentos alemães ganhou proporções maiores, incluindo treinamentos militares na região da Jordânia.

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Porém, com a morte da primeira integrante do RAF (Petra Schelm, interpretada por Alexandra Maria Lara), o grupo se torna cada vez mais violento e inicia uma série de bombardeios a bases militares alemãs, com uso de carros bombas e, inclusive, um ataque ao carro do juiz federal Buddernberg, que fere gravemente sua esposa.

O grupo é preso em 1972, mesmo ano do Setembro Negro, em que palestinos disparam contra onze integrantes da equipe esportiva israelense durante os Jogos Olímpicos em Munique e utilizam greves de fome como exigência de libertação e revolta da morte do membro Holger Meins (Stipe Erceg). Os ataques permanecem mesmo com a prisão de Baader, Meinhof e Ensslim, como sequestros e mortes a figuras políticas

Parte do grupo vai a julgamento em Stammheim no ano de 1975, em um processo que perdura até 1977, com a condenação à prisão perpétua de Baader, Ensslim e Jan-Carl Raspe (Niels Bruno Schimidt). No meio do processo de julgamento, Meinhof é encontrada enforcada em sua cela.

Novos sequestros ocorrem, incluindo o do industrial Hanns Martin Schleyer e do avião Landshut (por terroristas palestinos), ambos em 1977, com o objetivo de forçar a libertação dos três integrantes da RAF.

Tenso do início ao fim, já é claro que tudo vai acabar de forma violenta em O grupo Baader Meinhof, até mesmo pelos conflitos entre os próprios integrantes do movimento. Uli Edel dirige o filme de forma magistral, com um controle de direção dos fatos e das interpretações impressionante. Mesmo sem uma narrativa linear e lidando com um elenco numeroso, o filme não se torna cansativo em momento algum em suas duas horas e meia de projeção.

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Mesmo sem utilizar recursos técnicos de iluminação cinematográfica, o filme ganha em matéria de fotografia, além de ter uma direção de arte competente. Ao condensar dez anos de história no longa, O grupo Baader Meihof utiliza-se de uma dramaturgia picotada, como um quebra-cabeças de fatos que faz sentido.

A ideia não era se concentrar no debate político da RAF, mas sim registrar o que o grupo realizou quando deixou para trás o debate político e recorreu à violência.

Para dar ainda mais veracidade ao filme, algumas cenas foram filmadas em locações originais, como a Universidade Técnica de Belim e a prisão de Stammheim, onde o grupo foi preso e julgado. Até mesmo a quantidade de tiros disparados nos personagens são os mesmos, de acordo com os registros históricos.

Praticamente um documentário, O grupo Baader Meinhof dá ao espectador a chance de ver a história da forma mais realista possível, tanto que apenas um personagem do filme é ficcional. Podemos observar essa autoimposição de mudar o mundo, com uma juventude galgada em uma democracia frágil. E fica a pergunta: até onde ir para um mundo melhor?

Com canções intimistas, a banda islandesa Sigur Rós surgiu no cenário musical em 1994. O som etéreo tinha em seus quatro integrantes (Jónsi, Kjartan, Orri e Georg) a força necessária para conquistar fãs no mundo todo. Quebrando as barreiras da linguagem, criaram um idioma não-traduzível chamado Vonlenska, cujo único intuito é dar melodia e ritmo às canções.

Assim, o Sigur Rós retornou, entre 2006 e 2007, para uma série de shows na Islândia com encerramento da turnê daquele período e para a gravação do disco duplo Hvarf/Heim, lançado em 2007. O registro desse retorno está presente em Heima, documentário dirigido por Dean Deblois (indicado ao Oscar pela animação Lilo e Stich). Heima, que em islandês significa “em casa, lar, país de origem” foi exibido no In-Edit Brasil 2009, festival de documentários musicais que chega pela primeira vez ao Brasil.

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Sem o intuito de criar uma biografia, Heima se diferencia de outros documentários que registram turnês musicais. A intenção não era acompanhar o dia a dia da banda mas, na verdade, registrar esse retorno do grupo à Islândia e a dedicação dos seus exigentes e dedicados fãs.

As naturais paisagens islandesas, com seus cenários montanhosos e inóspitos a céu aberto tornam-se palco de grande parte dos shows gratuitos realizados pelo grupo. Acompanhamos a chegada da legião de fãs, de todas as idades, que seguem a banda nos inusitados locais. Uma casa abandonada, uma fábrica desativada, um pequeno restaurante, grandes estádios, todos se tornam palco para o Sigur Rós. Os jogos de luzes e sombras nas grandes apresentações fechadas são um espetáculo à parte, dando a aura surreal e onírica que tanto permeia a carreira do grupo.

Passando por diversas regiões, a banda interage com depoimentos e explicam dados curiosos em relação aos fãs, à música e à importância – histórica e pessoal – dos locais que vão se apresentando.

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Com uma população pacata e tradicional, as frias terras islandesas exibem um ar aconchegante, em que as apresentações remetem à grandes reuniões familiares. Segundo a banda, fugir das grandes cidades é um alívio. Afinal, é esse o propósito do grupo: serem reconhecidos como músicos e não como celebridades musicais.

Com imagens inspiradoras e líricas, Heima prima pela delicadeza e atenção a detalhes, com uma preocupação primorosa em sua fotografia e movimentos de câmera. Isso já era visto nos clipes da banda, que sempre abusou da câmera lenta e dos detalhes visuais, com um cuidado com cores e luzes espantoso.

Heima conta, ainda, com depoimentos de quatro integrantes femininas (violinistas e violoncelistas) e com a gravação em estúdio da emocionante Starálfur, canção que entrou no disco duplo da banda. E é essa presença de palco do Sigur Rós aliada à ótima edição que permitem que o filme não se torne cansativo. Melodia e imagens se completam dando o tom onírico e poético do documentário.

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Tal espetáculo, inclusive, ganha força na natureza, que envolve a atmosfera de Heima. Rochas, montanhas, mar, animais, céu, está tudo registrado para admiração dos espectadores, atingindo um ar que vai além do mero teor contemplativo. Com uma preocupação com o meio-ambiente, o documentário registra um show de protesto realizado em Kárahnjúkar, região que sofre com a construção de uma barragem para produção de eletricidade e fundição de alumínio.

Sem efeitos especiais, letreiros ou inserções animadas, Heima se caracteriza como um deleite aos olhos e ouvidos. Com planos de câmera que vão do clássico à ousadia (para um documentário), temos, muitas vezes, a impressão de estar diante de uma fotografia ou pintura. Em alguns momentos, há o uso da filmagem teatral (em que em que a câmera fixa em algo, ou no nada, até que a ação se desenrole naquele quadro); e funciona de forma impressionante.

Meticulosamente bem produzido, Heima é uma mistura de beleza, sintonia e sincronia audiovisual. Seu clima funciona como uma experiência extra-sensorial para alguns e passeia entre o sonho e o transcendental para os fãs. Imperdível.

O Brasil vem descobrindo sua música há muitos anos, em um processo por vezes lento e complexo mas que, de fato, acontece. Considerada por muitos como uma das melhores do mundo, chegou o momento de mostrar essa musicalidade, sempre tão eclética e vasta, nos cinemas.

Uma onda de documentários musicais está invadindo o País nos últimos meses, com títulos como Palavra (en)cantada, Loki, Simonal – ninguém sabe o duro que dei, Mistério do Samba, Cantoras do Rádio, Um homem de moral e Coração Vagabundo.

Sendo assim, segue abaixo uma breve panorama dos lançamentos que ganharam as telonas dos cinemas do País que nos fazem (re)descobrir porque temos uma das musicalidades mais qualitativas e eclética do mundo. Para serem vistos com os ouvidos atentos! Aproveitem:

Palavra (en)cantada: com direção de Helena Solberg (do docu-drama Carmem Miranda – Banana is My Business, de 1994), o documentário Palavra (en)cantada cria um paralelo entre a música popular, a poesia e a literatura brasileiras. Com depoimentos e apresentações de músicos como Arnaldo Antunes, Maria Bethânia, Chico Buarque, Adriana Calcanhoto, Zélia Duncan, Lenine e Tom Zé, Palavra (en)cantada preza pelas imagens inéditas brasileiras. Estão presentes no longa, por exemplo, a encenação de Morte e Vida Severina, do escritor João Cabral de Mello Neto, no Festival de Teatro Universitário de Nancy, na França, em 1966 e o registro de Dorival Caymmi, nos anos 40, cantando e tocando O Mar ao violão, canção que ele sempre considerou como a mais representativa de sua obra.

Refletindo sobre o assunto, a relação poesia-e-música do filme desnuda o rap, carnavais de rua, passa pelo período da Bossa Nova e do Tropicalismo, sempre alternando entrevistas e declamações de canções e textos, todos feitos especialmente para o longa.

Fernando Pessoa, João Cabral de Melo Neto e Hilda Hilst são alguns dos escritores reverenciados em Palavra (en)cantada, sempre reforçando a nossa tradição de cultura oral, descosturando aspectos da formação histórico-cultural no Brasil.

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Algumas cenas emocionam pela importância histórica, como o depoimento de Caetano Veloso em 1967, após cantar Alegria, Alegria no Festival da Record. Outras se destacam pela poesia, como a abertura, na qual Adriana Calcanhoto canta, em linguagem franco-provençal, versos do trovador do século XIII Arnaut Daniel, considerado um dos maiores poetas de todos os tempos.

As declamações não param por aí, porém o filme foca, também, no improviso dos rappers e nordestinos da embolada e dos gêneros de viola. Ferréz, escritor e rapper paulista presente no filme, considera tais improvisos “uma mera continuação do cordel”, em um cruzamento de cultura erudita e popular.

Com essa miscelânea de músicos, poetas-letristas, autores de livros que se tornaram compositores (e vice-versa) e poetas do morro, do campo e do asfalto, Palavra (en)cantada documenta essa união de música e literatura, tão essencial e presente na cultura brasileira.

Loki: talvez o mais aclamado da recente leva dos documentários musicais brasileiros, essa cinebiografia do músico Arnaldo Baptista, ex-integrante dos Mutantes, é um deleite para os olhos e ouvidos. Dirigido, roteirizado e produzido por Paulo Henrique Fontenelle e com participação de diversos artistas como os músicos Sérgio Dias (irmão de Arnaldo e também integrante dos Mutantes), Tom Zé, Gilberto Gil, Sean Lennon, o filme conta, cronologicamente, a ascensão e queda de um dos mais inventivos artistas da música brasileira.

Emocionante e bem produzido, Loki foca no líder dos Mutantes, grupo que revolucionou o cenário musical (nacional e internacional) nos final da década de 60 e início dos anos 70.

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O titulo do filme é o mesmo do primeiro álbum-solo do artista, lançado em 1974, logo após o fim do grupo, que tinha Rita Lee – namorada de Arnaldo à época e que não participa do documentário – como vocalista feminina.

Retratando, de forma poética e comovente o auge do grupo, Loki toca nas feridas que surgiram na vida do artista, como as drogas, a depressão e uma tentativa de suicídio, mas sempre com um tom despretensioso, sem adotar o melodrama em sua linguagem simples e dinâmica.

Esse senso de humanidade de Arnaldo Baptista é revelado em seus depoimentos e na pintura de suas telas (uma grande paixão do músico), convidando o espectador a uma jornada que intercala imagens e vídeos de apresentações, sobrepondo passado e presente.

Fica clara essa genialidade de Arnaldo Baptista, sem maniqueísmos, apenas como constatação de sua obra como cantor e compositor e de sua delicadeza como ser humano. Indispensável.

Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei: nos anos 60, além da Jovem Guarda, não tinha para mais ninguém. Wilson Simonal era, de fato, um dos artistas de maior ascensão da música brasileira. Negro, de origem humilde e com um status de estrela, transpôs tabus pelo jeito malicioso e extremamente carismático de malandro.

Dirigido por Cláudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal, Simonal – ninguém sabe o duro que dei acompanha a trajetória deste artista, falecido em 2000, com depoimentos de seus filhos Max de Castro e Wilson Simoninha, os cartunistas Ziraldo e Jaguar e o ex-jogador Pelé, um dos grandes amigos do músico.

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Simonal, que no auge da fama dividiu o palco com a cantora norte-americana Sarah Vaughn e acompanhou a seleção brasileira ao México na conquista do tricampeonato em 1970, envolveu-se em um incidente – nunca esclarecido – com seu ex-contador e agentes do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), durante o regime militar no País. Considerado delator, seu nome estampou as páginas da revista O Pasquim, que se opunha fortemente à opressão do governo.

Dividido em duas partes, o filme vai da meteórica carreira de Simonal até cair no esquecimento após as acusações de colaborador dos militares. Com depoimentos parciais, Simonal é defendido e execrado, em um retrato eficiente das contradições acerca dos mistérios ao redor de sua história. Muitos defendem que os preconceitos racial e social fizeram parte de boatos a fim de derrubá-lo da carreira de sucesso que tinha. Ficam as perguntas e resta sua musicalidade deliciosa, que fez controlar o Maracanãzinho com uma plateia de 30 mil pessoas.

O Mistério do Samba: em 1998, quando pesquisava a obra musical da Velha Guarda da Portela para a seleção do repertório de seu álbum Tudo Azul, a cantora Marisa Monte teve a ideia de produzir um documentário sobre o cotidiano dos antigos integrantes. Com cerca de 200 horas de filmagens e uma edição de oito meses, O Mistério do Samba contou com a direção da dupla Carolina Jabor e Lula Buarque de Hollanda (filha de Arnaldo Jabor e sobrinho de Chico Buarque) e um roteiro escrito a nove mãos, incluindo os diretores e a própria Marisa Monte, que já contava nos créditos da produção.

Retratando de forma simples e poética o cotidiano da Velha Guarda da Portela, O Mistério do Samba conta com participações de Paulinho da Viola, Zeca Pagodinho, Jair do Cavaquinho, Casemiro da Cuíca, Tia Doca, Tia Eunice, Tia Surica e Áurea Maria, entre outros componentes desses veteranos artistas da popular escola de samba do Rio de Janeiro.

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Repleto de saudosismo e confissão de casos curiosos e bem-humorados, a melancolia também está presente no filme, especialmente com essa proximidade da morte, lembranças de carnavais passados e uma vida sofrida. Porém, isso não é empecilho já que, como dizem, sem tristeza não existe samba bom.

E samba é o que não falta: são 53 músicas, quase todas de artistas que foram ou ainda fazem parte na Velha Guarda. Dando um novo prisma para a importância musical dos sambistas, O Mistério do Samba é um grande registro de uma música de suma importância para o País e que estava esquecida pelo grande público.

Cantoras do Rádio: a chamada Era de Ouro do Rádio foi, entre as décadas de 1930 e 50, a grande marca para a popularização da música brasileira. Os programas de César Alencar e Paulo Gracindo contavam com divas como Carmem Miranda, Aracy de Almeida, Aurora Miranda, Dalva de Oliveira, Dolores Duran, Elizeth Cardoso, Linda e Dircinha Baptista, Isaura Garcia e Nora Ney, com um acervo musical extremamente farto.

Como homenagem a essas cantoras, o s diretores Gil Baroni e Marcos Avellar conceberam Cantoras do Rádio, que teve como fio condutor o show Estão Voltando as Flores, realizado no Rio de Janeiro em 2005. Nele, o quarteto formado por Carmélia Alves, Carminha Mascarenhas, Violeta Cavalcanti e Ellen de Lima retornou ao palco para reviver esses áureos tempos do rádio, dando o pontapé inicial para a realização do documentário.

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Buscando reviver a dimensão daquele período, Cantoras do Rádio se apóia no carisma e talento das quatro artistas, de personalidades tão diferentes e fascinantes e que, até hoje, sobrevivem da música.

Da consolidação do rádio como veículo de massas no Brasil ao ostracismo – especialmente pelo surgimento da televisão – o filme mostra que, apesar das adversidades, nenhuma delas perdeu o talento ou a elegância.

Com um ótimo vigor dessas divas e ótimas performances no palco, Cantoras do Rádio é um filme sobre, para e de Carmélia Alves, Carminha Mascarenhas, Violeta Cavalcanti e Ellen de Lima. Com declarações emocionantes e empáticas de todas, as quatro se entregam ao filme fazendo o que sabem de melhor: cantar. E talvez só isso já baste.

Um Homem de Moral: com um acervo extenso na composição de belas canções que entraram para a história da música brasileira, o zoólogo paulista Paulo Vanzolini ganhou um  documentário que celebra sua importância na trajetória da música brasileira. Dirigido por Ricardo Dias – que já havia realizado com o Vanzolini zoólogo o curta Os Calangos do Boiaçú (1992) e No Rio das Amazonas (1995) – Um Homem de Moral é mais do que uma homenagem ao (bem-humorado e ranzinza) compositor de 85 anos: é a relação do povo com sua música.

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Com composições que envolvem samba, capoeira, caipira e choro, Um Homem de Moral (título de uma de suas canções mais conhecidas) é uma homenagem não somente ao músico mas, também, à cidade de São Paulo, mostrando esse “povo de Vanzolini”, com suas frustrações e alegrias, explicitadas em imagens, apresentações e declarações tocantes. Permeado por cenas das gravações da antologia Acerto de Contas (caixa de CDs lançada em 2003) e de personagens convidados para interpretar suas canções, vemos números musicais de Márcia, Paulinho Nogueira, Paulinho da Viola, Chico Buarque, Miúcha, Inezita Barroso, Virgínia Rosa, Elton Medeiros, Martinho da Vila e Maria Marta.

Longe de ser uma biografia de Vanzolini, Um Homem de Moral preza pelas belas imagens de arquivo da capital paulista e da diversidade de etnias da cidade, nessa relação do artista com o imaginário coletivo em sua influência. E a cena final concretiza ainda mais essa relação do povo, em um desfecho emocionante.

Walter Alfaiate – A Elegância do Samba: outro grande compositor e sambista ganhou seu espaço nas telas de cinema. O carioca Walter Nunes, mais conhecido como Walter Alfaiate, é tema do filme dirigido em conjunto por Emiliano Leal, Vitor Fraga, Paulo Roscio e Rommel Prata.

Com um panorama rápido de sua trajetória desde o convívio direto com o samba na infância e a passagem da profissão de alfaiate até a dedicação ao samba (somente aos 60 anos de idade), Walter Alfaiate – A Elegância do Samba revela um artista que mantém, aos 79 anos, disposição, elegância e bom humor invejáveis.

Pontuado por canções em um show inédito, o documentário conta com depoimentos de Sérgio Cabral, Regina Casé, Paulinho da Viola, Beth Carvalho, Cristina Buarque de Hollanda, Zeca Pagodinho, Nei Lopes, Marcus Vinícius de Andrade e Aldir Blanc.

Dividido em capítulos que traçam breves perfis de fases de sua vida, A Elegância do Samba mostra os fatos que marcaram a dedicação do músico em relação ao samba, sempre com um jeito notável do malandro da zona sul carioca.

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Mesmo carente de recursos técnicos, o filme revela histórias de antigos carnavais e traz dados curiosos sobre samba de roda, como o Cantinho da Fofoca, bar aonde se reuniam os compositores do Botafogo.

Considerado pelos amigos como um “conhecedor do sotaque do samba”, Alfaiate teve sua carreira iniciada apenas aos 60 anos, se equiparando a outros ícones tardios do samba, como Clementina de Jesus, Dona Ivone Lara, Cartola e Nelson Sargento. A elegância do samba é, inclusive, dedicado a todos esses artistas que foram reconhecidos após os 60 anos.

Coração Vagabundo: concebido, inicialmente, para ser um making of da turnê internacional de Caetano Veloso em 2006, o diretor Fernando Grostein Andrade registrou a passagem do cantor e compositor por países como Brasil, Estados Unidos e Japão. Com um material bruto de 57 horas de gravação, o projetou ganhou força e se transformou em Coração Vagabundo, documentário que estreia no país dia 24 de julho.

Revelando a intimidade do cantor e compositor baiano, Coração Vagabundo acompanha incessantemente o músico durante a visita a cidades como São Paulo, Nova York, Tóquio e Kyoto, além de contar com a participação de cineastas como Pedro Almodóvar e Michelangelo Antonioni, da modelo Gisele Bündchen, da atriz Regina Casé e do músico escocês David Byrne.

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Criando uma maior proximidade com sua vida íntima e profissional, o filme não busca ser uma biografia do músico e sim mostrar passagens recheadas de declarações, apresentações e a relação do músico por esses lugares que viajou.

Com seu jeito naturalmente humilde, calmo e elegante, o filme mostra um Caetano bem-humorado, brincalhão, com uma alma quase infantil algumas vezes e que interage boa parte do tempo com diretor e câmera, quase como um bate-papo com os espectadores.

O ponto principal de Coração Vagabundo é, porém, tratar da música (seja ela brasileira ou não) em relação ao mundo e ao próprio Brasil. Recheado de canções em português, inglês e até mesmo cantadas em italiano e espanhol, o filme perde pontos pela sua câmera frenética, que causa incômodo ao espectador, com imagens tremidas que ultrapassam o suportável. Nos quesitos favoráveis, temos a proximidade com o músico e as considerações de Caetano sobre essa (não) aceitação dos estrangeiros em relação à música popular brasileira.

Simples, com uma boa edição e musicalmente interessante, Coração Vagabundo merece ser conferido.

Discutir e analisar as relações amorosas sempre foi algo que o cinema adorou fazer em diversos gêneros, com longas como Ele não está tão a fim de você, Closer – Perto Demais e Sex and the city – O Filme, oriundo da bem-sucedida série televisiva da HBO.

Com estreia prometida para 8 de agosto, chega aos cinemas brasileiros a comédia romântica Marido por Acaso (The Accidental Husband, 2008), dirigida por Griffin Dunne (Da magia à sedução), que discute o amor com um humor requintado e um trio de atores que esbanja carisma.

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A Dra. Emma Llloyd (Uma Thurman, sempre ótima) é uma escritora e radialista especializada em relacionamentos amorosos. No seu famoso programa de rádio, ela aconselha homens e mulheres em conflitos com seus parceiros, com o intuito de alcançarem o famoso “e viveram felizes para sempre”.

Em uma dessas ligações, a ouvinte é Sofia (Justina Machado), que está prestes a se casar com o bombeiro Patrick (Jeffrey Dean Morgan, de PS: Te Amo). Seguindo os conselhos da doutora, Sofia abandona o noivo, que decide se vingar: com a ajuda de um hacker adolescente ele faz com que a documentação de Emma declare que ela é casada com ele. Isso, óbvio, traz muitas confusões quando Emma tenta oficializar seu casamento com o noivo, o editor inglês Richard (Colin Firth, de Mamma Mia!).

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O tumulto está lançado quando Emma vai atrás de Patrick, com objetivo de resolver a situação, mas nem tudo será tão fácil como parece e o filme se desencadeia em uma série de quiproquós ao redor do forjado casamento.
Produzido pela própria Uma Thurman, Marido por Acaso funciona. E muito bem.

Com um ritmo impressionante em seu timing cômico e o inteligente roteiro (do trio Mimi Hare, Clare Naylor e Bonnie Sikowitz), o filme se sustenta, principalmente, no charme, versatilidade e química de Uma Thurman e Jeffrey Dean Morgan. Colin Firth, como o noivo inglês, personifica o “homem perfeito” que a própria Emma indica para suas ouvintes e leitoras.

Porém, enquanto precisa manter a farsa do falso-marido versus noivo-real, ela se aproxima daquele que, segundo suas teorias, é totalmente errado para si. Mas o que seria o par certo para cada pessoa? Afinal, dizem que “os opostos se atraem” e é partindo desse pressuposto que o filme se desenrola.

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Com participações especiais de veteranos como Isabella Rossellini e Sam Shepard, Marido por Acaso preza por desenvolver cada personagem sem superficialidade, dando espaço para as sub-tramas de seus personagens mais experientes, como Greta Bollenbecker (Rossellini) e o pai de Emma, Wilder (Shepard). E eles cabem como uma luva na trama quando Emma sente-se perdida no departamento na qual se considera uma especialista: o coração.

Com o surgimento de Patrick em sua vida, Emma precisa escolher entre ele e Richard, fazendo com que a pessoa, teoricamente, mais experiente no assunto entre em conflito ao resolver os próprios dilemas.

Sendo assim, o longa toca em questões que, muitas vezes, não conseguimos responder: com a infinidade de pessoas solteiras no mundo que procuram o amor, buscamos o que não existe? Conseguimos diferenciar o amor romântico do amor real? Talvez depois de assistirmos Marido por Acaso as respostas possam surgir sem a ajuda de nenhum especialista no assunto. Vale conferir.