Durante a Depressão nos anos 30, John Dillinger (1903 – 1934) ganhou fama nos EUA como um dos maiores ladrões de bancos dos EUA. Ele levou a polícia de todo o país a caçá-lo incessantemente e foi idolatrado por parte da sociedade, principalmente por realizar roubos a bancos, considerados os grandes culpados pela crise financeira que o país sofria. Com assaltos e fugas cada vez mais ousados, Dillinger e seu bando passou a fazer parte do grupo considerado “inimigos públicos norte-americanos”, em uma época que o FBI (Federal Bureau of Investigation) estava em processo de desenvolvimento que os tornaria, anos depois, a grande potência investigativa da atualidade.

Baseado no livro homônimo de Bryan Burrough,Inimigos Públicos (Public Enemies, 2009) foi dirigido pelo renomado Michael Mann (“Colateral”, “O Informante”), que assina o roteiro adaptado juntamente com Ronan Bennet e Ann Biderman.Johnny Depp interpreta Dillinger, o criminoso egocêntrico, charmoso e aventureiro que se tornou lenda ao ser perseguido pelo agente Melvin Purvis (Christian Bale) a mando do grande chefe do FBI, J. Edgar Hoover (Billy Crudup, quase irreconhecível pelo ganho de peso para o papel). Com um grupo que incluía Baby Face Nelson (Stephen Graham) e Homer Van Meter (Stephen Dorff, praticamente calado), Dillinger usou seu charme para fugir das prisões e, assim, nunca abandonar a fama de criminoso, mesmo ao se apaixonar pela bela Billie Frechette (a francesa Marion Cotillard, Oscar de atriz por “Piaf – um hino ao amor”).

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Tratando de um período delicado na história socioeconômica dos EUA, Inimigos Públicos explora muito bem a ascensão do FBI, que dava seus grandes passos com uso de tecnologias inovadoras, como o grampo a ligações telefônicas e uso de aviões para perseguições a criminosos. Porém, a agência perdia no quesito armamento, visto que o grupo tinha posse de metralhadoras e outras armas e grosso calibre, o que criava maior dificuldade em manter tais criminosos atrás das grades.

O longa mostra a mobilização de polícia – e até mesmo o Exército – em capturar o grupo. E nesse jogo de gato e rato, o encontro entre Depp e Bale se dá somente no meio do filme, com um toque sofisticado de ironia, autoconfiança, charme e muito sarcasmo de ambos. Inclusive, charme é o que não falta em Inimigos Públicos: seja no trio Depp-Bale-Cotillard, na direção de arte primorosa, na trilha sonora recheada de clássicos e até mesmo na bem cuidada fotografia.
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O ambiente dos anos 30, muito bem transposto, lembra em certos momentos o clássico do estilo gângster “Os Intocáveis”, de Brian de Palma. E Mann faz isso muito bem, reciclando clichês do gênero, se atendo ao roteiro bem trabalhado e abusando das ótimas cenas de ação (como as fugas das prisões e as longas cenas de tiroteios).

Muitos outros filmes já mostraram essa sedução e atração pelo crime e Inimigos Públicos não é diferente. John Dillinger não se sente culpado em sua jornada de bandido “boa-praça”, aproveitando-se da elegância nos seus crimes e da sagacidade em sobreviver à justiça, que não passa de uma piada para os personagens.
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Com o estilo de alternar takes tremidos com planos mais tradicionais, a câmera de Mann segue atenta aos movimentos, como se buscasse cada detalhe ao mesmo tempo em que participa das ações, fazendo com que o espectador se sinta dentro da história.

Sempre mostrando temas adultos com ação e suspense invejáveis, o diretor acerta no humor contido e nas frases de efeito do roteiro, sem perder o ritmo em momento algum. Algumas cenas são grandes candidatas a se tornarem clássicas, como o seu epílogo, em que John Dillinger é morto: primoroso em detalhes e suspense, faz com que tenhamos cada vez mais sede de filmes de Michael Mann.

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