No dia 16 de junho, em São Paulo, o Hotel Intercontinental recebeu a equipe do filme Jean Charles, além de jornalistas e fotógrafos para a coletiva de imprensa do filme. Estiveram presentes o diretor Henrique Goldman, os atores Selton Mello, Vanessa Giácomo e Luis Miranda, o produtor Carlos Nader e o roteirista Marcelo Starobinas.

Selton, que vê grande relação entre seu personagem e si mesmo, declarou na coletiva ter encontrado um “caipirismo em comum” entre ele e Jean Charles, fazendo com que Patrícia Armani (prima de Jean e que atua no filme no papel dela mesma) se surpreendesse em alguns momentos das filmagens com a semelhança. O protagonista deixou claro, ainda, queJean Charles é um filme para celebrar a vida do brasileiro e não sua morte, justificando o tom descontraído adotado na primeira metade do filme.
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Já o diretor Henrique Goldman afirmou que seu longa estreia na Inglaterra no final de 2009 e que, morando na Inglaterra, fica impressionado com a quantidade de brasileiros em Londres. Com isso, criou uma espécie de filme brasileiro rodado em outro país, indo da irreverência brasileira até a câmera inquieta, com ares documentais em certos momentos. Foi esse, inclusive, um dos pontos levantados na coletiva. Goldman revelou que usou não-atores pra se aproximar da linha entre ficção e não-ficção, que fazem com que a realidade permeie todo o filme.

A questão política foi levantada, mas o diretor ressaltou que Jean Charles não é um filme puramente político – embora tenha algumas implicações relacionadas ao tema – mas é, acima de tudo, o retrato de um brasileiro fora de seu país de origem, as dificuldades para sobreviver e ajudar a família que ele tem lá, ou seja, seus primos Vivian (Vanessa Giácomo), André (Luis Miranda) e Patrícia.
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Foi discutida, também, a atitude da polícia londrina, que é considerada uma das melhores do mundo. O roteirista Marcelo Starobinas acredita que o maior erro da polícia não foi errar, mas sim tentar acobertar esse erro de forma desumana e cruel.

Os pais de Jean, que assistiram ao filme um dia antes da exibição para a imprensa, reforçaram o comentário de Patrícia durante as filmagens: a mãe, por exemplo, ficou impressionada com os trejeitos de Selton no papel de Jean, como a mania de passar as mãos pelo nariz em momentos de nervosismo. Algo que o ator criou no improviso e coube de forma pertinente, dando maior realismo à ficção biográfica.

Starobinas e Goldman, que dividem os créditos do roteiro, insistiram na questão do improviso, muito usado no longa. Os diálogos nunca eram decorados e sim davam uma direção para que os atores se direcionassem no momento das cenas. Luis Miranda revelou que conheceu o personagem André pessoalmente e usou muito dele em suas cenas, com um potencial de humor muito forte. Conhecido mais pela sua participação no espetáculo Terça Insana e outros trabalhos humorísticos, Miranda realiza, comJean Charles, seu primeiro trabalho de carga mais dramática, porém sem perder a veia cômica.
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Selton comentou, ainda, essa mistura de humor com drama, que contou com material muito grande, de forma crua e que ganhou um produto final de qualidade com a montagem. Goldman completou queJean Charles é uma celebração desses imigrantes parecidos com Jean, que são jovens aventureiros outsiders e não apenas um grupo sofredor, humilhado em uma cultura considerada de Primeiro Mundo.

Jean Charles de Menezes, segundo o roteirista Marcelo Starobinas, era um modelo para aqueles brasileiros que vivem em Londres. Engraçado, extrovertido e trabalhador, ajudava a todos com o que estivesse ao seu alcance. E isso transparece no filme, que se aproxima muito da realidade ao mostrar essa rotina tupiniquim naquele país, com uma linha tênue entre realidade e ficção. “O uso de atores não-profissionais deu mais força ao filme, com um clima de interpretação diferente dos atores profissionais”, complementou o diretor Henrique Goldman.
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Em relação à produção, Carlos Nader declarou com exclusividade ao Almanaque Virtual que a presença do inglês Stephen Frears (renomado diretor de filmes como Relações PerigosasA Rainha) colaborou muito para a realização do filme. A produtora de Nader Já Filmes uniu-se à Mango Filmes (de Henrique Goldman) e à britânica UK Film Council Lottery Funded, fazendo com que Jean Charles se tornasse a primeira co-produção cinematográfica entre Brasil e Inglaterra.

Na coletiva, algumas considerações finais foram em relação ao crime. Segundo Starobinas, a polícia londrina alegou que Jean Charles resistiu à voz de prisão e tentou fugir, o que contradiz com os depoimentos das 19 testemunhas presentes no vagão em que o brasileiro foi assassinado. Segundo os laudos do crime, Jean foi executado sem reagir. Além disso, Selton Mello relembra que as imagens captadas pelas câmeras no dia do crime “sumiram” dos arquivos do metrô londrino.  Um caso polêmico que, mesmo quatro anos depois, permanece sem punição e uma compreensão mais profunda.

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