julho 2009


Em 2006, durante a turnê do álbum “A Foreign Sound”(único do cantor em inglês), o diretor Fernando Grostein Andrade documentou a passagem de Caetano Veloso por países como Brasil, Estados Unidos e Japão. A ideia era fazer um grande making of, porém o material bruto resultou em 57 horas de gravação e o resultado dessa edição pode ser conferido em Coração Vagabundo (2009), que estreia no país dia 24 de julho.

Revelando a intimidade do cantor e compositor baiano, o documentário acompanha incessantemente o músico durante a visita a cidades como São Paulo, Nova York, Tóquio e Kyoto, além de contar com a participação de cineastas como Pedro Almodóvar e Michelangelo Antonioni, da modelo Gisele Bündchen, da atriz Regina Casé e do músico escocês David Byrne.
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Produzido por Paula Lavigne e Raul Doria, Coração Vagabundo se concentra em mostrar o reconhecimento de Caetano Veloso no exterior, dando margem para criar uma maior proximidade com sua vida íntima e profissional.

Percorrendo ruas e lugares dos países pelos quais passou, desvendamos certas curiosidades dessas culturas ao mesmo tempo em que suas declarações tocam em diversos temas, como cinema, MPB e a fama – tanto nacional como internacional. Inclusive, isso é visto nas pessoas que cruzam seu caminho fora do Brasil, reconhecendo-o pela sua importância histórica musical, seja nas ruas de Nova York ou, até mesmo, em um templo budista no Japão.
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Com seu jeito naturalmente humilde, calmo e elegante, o filme é um deleite para os ouvidos, em que acompanhamos Caetano cantando em inglês, espanhol e italiano, sendo entrevistado por emissoras norte-americanas e se apresentando em locais como o Carnegie Hall, na qual dividiu o palco com David Byrne, grande admirador não só de Caetano, mas da música brasileira em si.

A intimidade com a ex-mulher Paula Lavigne também é retratada, exibindo um Caetano bem-humorado, brincalhão, com uma alma quase infantil algumas vezes. Tais registros são, em certos momentos, tomados por períodos de melancolia do artista, que interage boa parte do tempo com diretor e câmera, quase como um bate-papo com os espectadores. À vontade, Caetano discorre de assuntos mais complexos, como a impressão que as pessoas têm dele, de imaginarem que vão encontrar uma estrela inatingível quando, na verdade, ele é apenas um cara comum.

Mas o ponto principal do filme, acredito, é tratar da música (seja ela brasileira ou não) em relação ao mundo e ao próprio Brasil. Em uma declaração polêmica, Caetano afirma, por exemplo, que a música norte-americana é a mais importante do século 20. A declaração lhe rendeu uma crítica formal do músico Hermeto Pascoal, que discordou completamente de sua opinião.

Recheado de canções como “Proibido proibir”, “Michelangelo Antonioni” (música em italiano que Caetano dedicou ao cineasta), “O estrangeiro” e “Terra”, o filme conta com as  internacionais “Blue skies”, “If it´s Magic”, “So in Love”, “Nothing but flowers”, além da canção que dá título ao filme, em versões interessantes e que misturam ritmos musicais como o reggae e pitadas de música eletrônica.
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No entanto, Coração vagabundo perde pontos pela sua câmera frenética, que causa incômodo ao espectador, com imagens tremidas que ultrapassam o suportável. Nos quesitos favoráveis, temos a proximidade com o músico, a escolha musical da trilha e, especialmente, as considerações de Caetano sobre essa não-aceitação dos estrangeiros em relação à música popular brasileira (que existe, mesmo não sendo explicitada no documentário).

Simples, com uma boa edição e musicalmente interessante, Coração Vagabundo merece ser conferido.

Na noite do dia 14 de julho, após a exibição para a imprensa do documentário Coração Vagabundo no Cine TAM do Shopping Morumbi, em São Paulo, o cantor e compositor Caetano Veloso participou de uma rápida coletiva de imprensa com o diretor do filme, Fernando Grostein Andrade. Produtora do filme, Paula Lavigne não participou das perguntas, mas posou para fotos momentos antes da pré-estreia, que contou com a presença de músicos, artistas e amigos de Caetano Veloso.

Durante as perguntas, o diretor Fernando Grostein Andrade deixou claro que o objetivo do filme não era fazer um perfil de Caetano e sim criar pequenos cortes permeados por sua música. E, quando perguntaram sobre a não passagem de Caetano pela Bahia durante o filme, o jovem diretor declarou: “Quanto mais longe Caetano estava do Brasil, mais ele falava de Santo Amaro [da Purificação, cidade natal do músico]. Ele não precisava ir à Bahia, pois ele é a Bahia”.
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Diante de toda essa brasilidade, Caetano explicou sua declaração sobre a música norte-americana ser a mais importante do século 20, como ficou registrado no documentário – e não agradou nada ao músico Hermeto Pascoal: “A música norte-americana em matéria de influência, segmentos e quantidade é a mais importante do século 20, sim. É inegável. Inclusive, jazzistas norte-americanos foram os que  influenciaram o Hermeto”, alfinetou o músico.

Como referências e influências para a realização do filme, o diretor afirmou que utilizou Gimme Shelter(documentário sobre o Rolling Stones, de 1970) eNelson Freire, dirigido por João Moreira Salles em 2004. Explicou, ainda, que Coração Vagabundo não nasceu como um documentário e sim como um making of da turnê A Foreign Sound, único álbum em inglês de Caetano Veloso. Porém, com um material bruto de 57 horas de gravação, foi inevitável a concepção de um longa: roteirizado, passou por muitas tentativas e erros até se achar a história final. Fora das decisões relacionadas à edição, o músico ainda explicou que não exigiu a exclusão de nenhuma de suas cenas.
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Essa isenção de Caetano na concepção do filme não se aplica à Paula Lavigne. Ex-mulher do músico e produtora de Coração Vagabundo, ela é quem aparece nos primeiros segundos do filme. De comum acordo, o músico e o diretor concordam que a realização do longa deve muito a ela, que escolheu, inclusive, Fernando Grostein para dirigi-lo após assistir De morango, curta metragem com roteiro e direção de Grostein. E o destaque de Paula Lavigne não parou por aí: o diretor espanhol Pedro Almodóvar, grande amigo de Caetano e Paula e renomado por criar personagens inesquecíveis em seus filmes, confessa no documentário que Paula Lavigne é uma grande inspiração para suas criações femininas. E o que Caetano tem a dizer sobre o filme? “Gostei muito, mesmo. Do enquadramento, da escolha do que eu disse no filme. É despretensioso sem ser superficial”, finalizou.

No dia 16 de junho, em São Paulo, o Hotel Intercontinental recebeu a equipe do filme Jean Charles, além de jornalistas e fotógrafos para a coletiva de imprensa do filme. Estiveram presentes o diretor Henrique Goldman, os atores Selton Mello, Vanessa Giácomo e Luis Miranda, o produtor Carlos Nader e o roteirista Marcelo Starobinas.

Selton, que vê grande relação entre seu personagem e si mesmo, declarou na coletiva ter encontrado um “caipirismo em comum” entre ele e Jean Charles, fazendo com que Patrícia Armani (prima de Jean e que atua no filme no papel dela mesma) se surpreendesse em alguns momentos das filmagens com a semelhança. O protagonista deixou claro, ainda, queJean Charles é um filme para celebrar a vida do brasileiro e não sua morte, justificando o tom descontraído adotado na primeira metade do filme.
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Já o diretor Henrique Goldman afirmou que seu longa estreia na Inglaterra no final de 2009 e que, morando na Inglaterra, fica impressionado com a quantidade de brasileiros em Londres. Com isso, criou uma espécie de filme brasileiro rodado em outro país, indo da irreverência brasileira até a câmera inquieta, com ares documentais em certos momentos. Foi esse, inclusive, um dos pontos levantados na coletiva. Goldman revelou que usou não-atores pra se aproximar da linha entre ficção e não-ficção, que fazem com que a realidade permeie todo o filme.

A questão política foi levantada, mas o diretor ressaltou que Jean Charles não é um filme puramente político – embora tenha algumas implicações relacionadas ao tema – mas é, acima de tudo, o retrato de um brasileiro fora de seu país de origem, as dificuldades para sobreviver e ajudar a família que ele tem lá, ou seja, seus primos Vivian (Vanessa Giácomo), André (Luis Miranda) e Patrícia.
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Foi discutida, também, a atitude da polícia londrina, que é considerada uma das melhores do mundo. O roteirista Marcelo Starobinas acredita que o maior erro da polícia não foi errar, mas sim tentar acobertar esse erro de forma desumana e cruel.

Os pais de Jean, que assistiram ao filme um dia antes da exibição para a imprensa, reforçaram o comentário de Patrícia durante as filmagens: a mãe, por exemplo, ficou impressionada com os trejeitos de Selton no papel de Jean, como a mania de passar as mãos pelo nariz em momentos de nervosismo. Algo que o ator criou no improviso e coube de forma pertinente, dando maior realismo à ficção biográfica.

Starobinas e Goldman, que dividem os créditos do roteiro, insistiram na questão do improviso, muito usado no longa. Os diálogos nunca eram decorados e sim davam uma direção para que os atores se direcionassem no momento das cenas. Luis Miranda revelou que conheceu o personagem André pessoalmente e usou muito dele em suas cenas, com um potencial de humor muito forte. Conhecido mais pela sua participação no espetáculo Terça Insana e outros trabalhos humorísticos, Miranda realiza, comJean Charles, seu primeiro trabalho de carga mais dramática, porém sem perder a veia cômica.
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Selton comentou, ainda, essa mistura de humor com drama, que contou com material muito grande, de forma crua e que ganhou um produto final de qualidade com a montagem. Goldman completou queJean Charles é uma celebração desses imigrantes parecidos com Jean, que são jovens aventureiros outsiders e não apenas um grupo sofredor, humilhado em uma cultura considerada de Primeiro Mundo.

Jean Charles de Menezes, segundo o roteirista Marcelo Starobinas, era um modelo para aqueles brasileiros que vivem em Londres. Engraçado, extrovertido e trabalhador, ajudava a todos com o que estivesse ao seu alcance. E isso transparece no filme, que se aproxima muito da realidade ao mostrar essa rotina tupiniquim naquele país, com uma linha tênue entre realidade e ficção. “O uso de atores não-profissionais deu mais força ao filme, com um clima de interpretação diferente dos atores profissionais”, complementou o diretor Henrique Goldman.
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Em relação à produção, Carlos Nader declarou com exclusividade ao Almanaque Virtual que a presença do inglês Stephen Frears (renomado diretor de filmes como Relações PerigosasA Rainha) colaborou muito para a realização do filme. A produtora de Nader Já Filmes uniu-se à Mango Filmes (de Henrique Goldman) e à britânica UK Film Council Lottery Funded, fazendo com que Jean Charles se tornasse a primeira co-produção cinematográfica entre Brasil e Inglaterra.

Na coletiva, algumas considerações finais foram em relação ao crime. Segundo Starobinas, a polícia londrina alegou que Jean Charles resistiu à voz de prisão e tentou fugir, o que contradiz com os depoimentos das 19 testemunhas presentes no vagão em que o brasileiro foi assassinado. Segundo os laudos do crime, Jean foi executado sem reagir. Além disso, Selton Mello relembra que as imagens captadas pelas câmeras no dia do crime “sumiram” dos arquivos do metrô londrino.  Um caso polêmico que, mesmo quatro anos depois, permanece sem punição e uma compreensão mais profunda.

Durante a Depressão nos anos 30, John Dillinger (1903 – 1934) ganhou fama nos EUA como um dos maiores ladrões de bancos dos EUA. Ele levou a polícia de todo o país a caçá-lo incessantemente e foi idolatrado por parte da sociedade, principalmente por realizar roubos a bancos, considerados os grandes culpados pela crise financeira que o país sofria. Com assaltos e fugas cada vez mais ousados, Dillinger e seu bando passou a fazer parte do grupo considerado “inimigos públicos norte-americanos”, em uma época que o FBI (Federal Bureau of Investigation) estava em processo de desenvolvimento que os tornaria, anos depois, a grande potência investigativa da atualidade.

Baseado no livro homônimo de Bryan Burrough,Inimigos Públicos (Public Enemies, 2009) foi dirigido pelo renomado Michael Mann (“Colateral”, “O Informante”), que assina o roteiro adaptado juntamente com Ronan Bennet e Ann Biderman.Johnny Depp interpreta Dillinger, o criminoso egocêntrico, charmoso e aventureiro que se tornou lenda ao ser perseguido pelo agente Melvin Purvis (Christian Bale) a mando do grande chefe do FBI, J. Edgar Hoover (Billy Crudup, quase irreconhecível pelo ganho de peso para o papel). Com um grupo que incluía Baby Face Nelson (Stephen Graham) e Homer Van Meter (Stephen Dorff, praticamente calado), Dillinger usou seu charme para fugir das prisões e, assim, nunca abandonar a fama de criminoso, mesmo ao se apaixonar pela bela Billie Frechette (a francesa Marion Cotillard, Oscar de atriz por “Piaf – um hino ao amor”).

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Tratando de um período delicado na história socioeconômica dos EUA, Inimigos Públicos explora muito bem a ascensão do FBI, que dava seus grandes passos com uso de tecnologias inovadoras, como o grampo a ligações telefônicas e uso de aviões para perseguições a criminosos. Porém, a agência perdia no quesito armamento, visto que o grupo tinha posse de metralhadoras e outras armas e grosso calibre, o que criava maior dificuldade em manter tais criminosos atrás das grades.

O longa mostra a mobilização de polícia – e até mesmo o Exército – em capturar o grupo. E nesse jogo de gato e rato, o encontro entre Depp e Bale se dá somente no meio do filme, com um toque sofisticado de ironia, autoconfiança, charme e muito sarcasmo de ambos. Inclusive, charme é o que não falta em Inimigos Públicos: seja no trio Depp-Bale-Cotillard, na direção de arte primorosa, na trilha sonora recheada de clássicos e até mesmo na bem cuidada fotografia.
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O ambiente dos anos 30, muito bem transposto, lembra em certos momentos o clássico do estilo gângster “Os Intocáveis”, de Brian de Palma. E Mann faz isso muito bem, reciclando clichês do gênero, se atendo ao roteiro bem trabalhado e abusando das ótimas cenas de ação (como as fugas das prisões e as longas cenas de tiroteios).

Muitos outros filmes já mostraram essa sedução e atração pelo crime e Inimigos Públicos não é diferente. John Dillinger não se sente culpado em sua jornada de bandido “boa-praça”, aproveitando-se da elegância nos seus crimes e da sagacidade em sobreviver à justiça, que não passa de uma piada para os personagens.
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Com o estilo de alternar takes tremidos com planos mais tradicionais, a câmera de Mann segue atenta aos movimentos, como se buscasse cada detalhe ao mesmo tempo em que participa das ações, fazendo com que o espectador se sinta dentro da história.

Sempre mostrando temas adultos com ação e suspense invejáveis, o diretor acerta no humor contido e nas frases de efeito do roteiro, sem perder o ritmo em momento algum. Algumas cenas são grandes candidatas a se tornarem clássicas, como o seu epílogo, em que John Dillinger é morto: primoroso em detalhes e suspense, faz com que tenhamos cada vez mais sede de filmes de Michael Mann.

A roteirista, diretora, atriz e cantora francesa Agnès Jaoui concebeu Enquanto o sol não vem (Parlez-moi de la Pluie, 2008), sua terceira experiência como diretora. Renomada, Agnès teve sua estreia atrás das câmeras com O gosto dos outros (2001), que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, além de receber o prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Cannes pelo seu segundo filme como diretora, Questão de Imagem (2004).

Parceiro costumaz de Agnès, o ator Jean-Pierre Bacri divide com ela (pela terceira vez) a autoria do roteiro com Enquanto o sol não vem, além de atuar no longa. Um dos atores mais populares da França, Bacri esteve presente nos três filmes que Agnes dirigiu e roteirizou.

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Na história, Agatha (Agnès) é uma profissional bem sucedida de ideais feministas que sempre colocou a carreira em primeiro lugar. Ela vai com o namorado Antoine (Frédéric Pierrot) passar uns dias na casa da irmã Florence (Pascale Arbillot) e do marido dela Stéphane (Guillaume De Tonquedec), que passam por uma crise.

O casal mora com a governanta Mimouna (Mimouna Hadji), cujo filho Karin (Jamel Debbouze), um aspirante a diretor de cinema, decide se unir ao jornalista Michel (Jean-Pierre Bacri). O objetivo dos dois é aproveitar a estadia de Agatha e filmar um documentário sobre mulheres bem-sucedidas. As filmagens vão desvendando segredos e desenterrando mágoas passadas que envolvem todos os personagens.
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Traições, conflitos familiares, problemas de relacionamento, tudo vêm à tona com esse reencontro, que se encaixa na metáfora do título do filme.Enquanto o sol não vem se passa em um período de chuvas na região, relacionado a essa tempestade que paira sobre as tramas do longa.

Com diálogos dinâmicos e um ritmo correto, o filme tem a direção segura de Agnès, que conduz seus personagens com sinceridade sem cair na pieguice ou perder o ritmo. Até porque a ação se desenrola, em grande parte, em um mesmo espaço geográfico: a casa de Florence e Stéphane. Distante da cidade, o ar rústico do campo dá ainda mais margem para a beleza do filme.

Com um certo tom de suspense dos segredos antes de sua revelação, o filme preza, também, pelo humor discreto e agradável, especialmente pelos imprevistos e confusões no desenrolar das filmagens do documentário de Karin e Michel.
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O ator Jamel Debbouze, como Karin, é um grande destaque do filme. Lembrado pelo poético e divertido personagem Lucien, de O fabuloso destino de Amelie Poulain, Debbouze criou um personagem rústico, ignorante e explosivo, mas que, no fundo, é uma boa pessoa. Orgulhoso, se nega a ser inferiorizado por ser filho da governanta e pretende ser um cineasta de sucesso.

Sendo um bom retrato das relações familiares, o filme ganha créditos na bela fotografia e na ótima trilha sonora, com operetas e outras inserções musicais clássicas, além de prezar nos planos de câmera originais.

Esperançoso, Enquanto o sol não vem tem força em seus personagens, diálogos e na direção competente, sempre com os créditos a Agnès Jaoui. Merece ser descoberto.

Em 1998, o comediante britânico Sacha Baron Cohen desenvolveu o personagem Brüno Gehard para o programa Da Ali G Show, um fashionista gay que se auto-intitula “a voz jovem da TV austríaca”. Depois do sucesso de Borat – O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à América (2006), Cohen estrela Brüno seguindo a mesma linha de seu filme anterior, que recebeu uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Assim como BoratBrüno é dirigido por Larry Charles e adota a mesma linha de crítica ácida e sem limites aos seus alvos ao redor do mundo, especialmente nos EUA. Aspectos socioculturais e religiosos, celebridades, políticos, nada fica imune às críticas do comediante, que dividiu a comunidade homossexual em relação aos maneirismos de seu personagem em relação a comportamento e atitudes que poderiam (ou não) estereotipar membros da comunidade gay.

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Magro, com maquiagem, depilado, cabelos pintados de loiro e um sotaque austríaco carregado, Brüno torna-se uma ameaça quando decide ficar famoso a qualquer custo após abandonar o mundo da moda, que ele considera fútil e vazio. Está dada a largada para uma série de gags, situações embaraçosas e chocantes, que desfilam em todo o filme.

Com uma linha narrativa tradicional, o filme mistura documentário com dramatização quando, com a ajuda de seu dedicado assistente Lutz (Gustaf Hammarsten), Brüno inicia sua saga na busca pelo sucesso, em uma crítica fervorosa à sociedade que chega ao extremo para alcançar os quinze minutos de fama.

Os artifícios usados vão desde tentar ser apresentador de TV, passando pela opção de seguir carreira na indústria pornográfica até “descobrir” que ser homossexual é o empecilho para que seja famoso e decide “abandonar a homossexualidade”.

Tom Cruise, Arnold Schwarzenegger, Demi Moore, Angelina Jolie, Madonna, Salma Hayek, Mel Gibson; nenhum deles escapa das pesadas piadas de Brüno, que ainda destila piadas constantes e sarcásticas em relação ao nazismo de Hitler.

Com presença de cena e expressões faciais impressionantes, Sacha Baron Cohen mantém o ritmo do filme, que transita entre o humor inteligente e o escatológico, alfinetando fortemente setores religiosos e moralistas da sociedade, como os evangélicos e conflitos entre palestinos e israelenses, além de incomodar as comunidades homofóbica e negra norte-americana.

Certas cenas beiram a comédia pastelão, além de utilizar todos os clichês de dramatização para contar a trajetória de Brüno de forma irônica e melodramática. Suas referências para uma crítica mordaz à cultura (pop) norte-americana são provocativas e ousadas assim como fez com Borat, totalmente oposto ao homossexual austríaco Brüno, mas sem perder a veia polêmica.

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Com diversas piadas sexuais e cenas de nu frontal masculino e feminino, Brünotraz, ainda, diversas referências à homossexualidade, como gírias e trejeitos em um personagem privado de comportamentos considerados morais pela sociedade. E essa alienação norte-americana diante do comportamento gay é posta em xeque, especialmente pela surpreendente cena final, além de contar com um número musical com famosos nomes da música internacional.

Ou seja, Brüno pode não agradar a todos, mas o non-sense e a ousadia são inegáveis como função humorística, apoiados, principalmente, no talento de Sacha Baron Cohen. Deixe preconceitos e moralismos em casa e confira.

O Brasil já descobriu sua música, considerada por muitos como uma das melhores do mundo. Agora, chegou a vez de mostrar nossa musicalidade, sempre tão eclética e vasta, nos cinemas.

Uma onda de documentários musicais invadiu o País, com títulos como Palavra (en)cantada, Loki, Simonal – ninguém sabe o duro que dei, Mistério do Samba, Cantoras do Rádio e Um homem de moral.

Walter Nunes, mais conhecido como Walter Alfaiate, sambista e compositor carioca, é tema do filme dirigido em conjunto por Emiliano Leal, Vitor Fraga, Paulo Roscio e Rommel Prata.

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No dia 24, o Cinesesc, em São Paulo, abriu suas portas para uma sessão especial de Walter Alfaiate – A elegância do samba, que conta a trajetória do músico desde o convívio direto com o samba na infância (sua mãe era do bloco carnavalesco Bloco das Cabrochas), passando pela profissão de alfaiate e a dedicação ao samba somente aos 60 anos de idade.

Antes da exibição do filme, Alfaiate apresentou-se em um pocket show, onde cantou alguns sucessos de sua carreira, como Bateram em minha porta, Chapéu do compadre e Sacode Carola e dedicou a noite ao sambista Ataulfo Alves, cujo centenário de nascimento se completa neste ano. Simpático, esbanjando disposição e bom humor aos 79 anos, Alfaiate deu uma prévia do que o público estava prestes a assistir.

O documentário, pontuado por canções de Alfaite em um show inédito, conta com depoimentos de Sérgio Cabral, Regina Casé, Paulinho da Viola, Beth Carvalho, Cristina Buarque de Hollanda, Zeca Pagodinho, Nei Lopes, Marcus Vinícius de Andrade e Aldir Blanc.

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Ele, que sempre quis ser alfaiate, mantém até hoje sua oficina na Galeria Ritz, em Copacabana e divide seu tempo com o samba, outra grande paixão. Permeado por músicas e dividido em capítulos que traçam breves perfis de fases de sua vida, Walter Alfaiate – A elegância do samba mostra, por meio de depoimentos, os fatos que marcaram a dedicação do músico em relação ao samba, sempre com um jeito notável do malandro da zona sul carioca.

A voz marcante e, ao mesmo tempo, suave de Alfaiate também está no documentário, tanto em suas apresentações musicais como nas declarações que ele dá. Sempre com muito bom humor e prendendo a atenção do espectador, o documentário preza pelos depoimentos, mesmo carente de recursos técnicos.

As histórias de antigos carnavais são contadas por amigos e admiradores do sambista, com dados curiosos sobre samba de roda, como o Cantinho da Fofoca, bar aonde se reuniam os compositores do Botafogo.

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Com um capítulo dedicado ao amigo Mauro Duarte o filme fala, ainda, da forte amizade com Alfaiate, que o homenageou no CD Tributo a Mauro Duarte, lançado há quatro anos.

Considerado pelos amigos e conhecidos entrevistados como um ótimo compositor, sambista, alfaiate e amigo, Walter Alfaiate é citado como um “conhecedor do sotaque do samba”. Com uma carreira iniciada apenas aos 60 anos, se equipara a outros ícones tardios do samba, como Clementina de Jesus, Dona Ivone Lara, Cartola e Nelson Sargento. Inclusive, Walter Alfaiate – A elegância do samba é dedicado a todos esses artistas que foram reconhecidos após os 60 anos.

Um filme para ser visto com ouvidos atentos e muito samba no pé, independente da idade.