Clarice Lispector tinha a literatura como sua salvação, como sempre afirmou. Porém, nunca deixou de lado sua alma de jornalista, função que exerceu durante anos. Então, nos anos 70, o livro De Corpo Inteiro foi lançado e reunia diversas entrevistas que a escritora realizou com diversas personalidades.

Sua sobrinha-neta, Nicole Algranti, roteirizou, produziu e dirigiu De Corpo Inteiro – Entrevistas, filme que reproduz ficcionalmente algumas dessas conversas (informais) realizadas pela escritora e jornalista, morta em 1977.

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O trabalho de pesquisa ficou por conta da professora inglesa Claire Williams, especialista em literatura brasileira e deu origem ao filme, que mostra a curta passagem de Clarice durante cada entrevista. Mais do que um jogo de perguntas e respostas, a ucraniana naturalizada brasileira interage e enxerga cada um de seus personagens reais nos momentos em que estão frente a frente.

Mulher de mil facetas, misteriosa e quase inatingível em sua natureza, Clarice Lispector é representada no filme por diversas atrizes e, até mesmo, pelo jornalista Arnaldo Bloch. Cada olhar, detalhe e diálogo foi desenvolvido para mostrar que havia diversas Clarices dentro de uma só pessoa, uma mulher inquieta, que interagia em suas entrevistas. Expondo-se quando entrevistava – e quase nunca quando entrevistada – cria um laço comunicativo com as personagens que compõem seu livro e filme.

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Mais do que um trabalho, o bate-papo descontraído de Clarice com amigos e pessoas que admirava criaram um filme leve e curto, com um ritmo contínuo, mas sem perder a sua função se enxergar-se no outro. O resultado, porém, é regular. Não pela qualidade das entrevistas ou pelo trabalho de Clarice, muito pelo contrário, mas por algumas atuações que deixam a desejar no filme de Nicole Algranti.

Nomes de peso – e outros menos conhecidos – dão vida a personagens como Nelson Rodrigues, Fernando Sabino, Jorge Amado e Rubem Braga. Além de literatos, a escritora entrevistou cantores, jornalistas, atores e outras personalidades ligadas à arte, como os artistas plásticos Carybé e Djanira, além do técnico de futebol João Saldanha, que levou o Brasil ao tricampeonato na Copa do Mundo em 1970. Nem todos os personagens contidos no livro foram transpostos para o filme, mas conseguimos ter uma ideia de sua aura de inquietude e mergulho na alma humana, seja em seus livros de ficção, seja na sua obra recheada de depoimentos.

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Desde o início de De Corpo Inteiro – Entrevistas, a música de abertura “Que o Deus venha” (letra criada na parceria de Cazuza com Frejat e baseada na obra de Clarice), alterna imagens da escritora com cenas das atrizes que a interpretam no longa. Na voz de Adriana Calcanhoto, a música nunca tinha sido musicada e ganhou um ar jazzístico. Frejat, grande parceiro de Cazuza (um fã confesso da escritora), é o responsável pela música incidental do filme.

Beth Goulart encena Clarice durante entrevista com o escritor Nelson Rodrigues (papel de Jofre Rodrigues). Detalhes não foram deixados de lado, como gestos, roupas, jóias e, em especial, a maquiagem. O olhar marcante da atriz cria uma Clarice séria e pensativa. Os cortes secos, como se fossem entrevistas reais, dá maior verossimilhança, criando uma personagem séria, quase intransponível. Louise Cardoso, no entanto, encarna uma Clarice mais despojada e risonha em sua entrevista com Fernando Sabino (Fernando Eiras). Suas interferências tratam de temas como morte, filosofia, amor e vida. Cardoso tenta um sotaque, mas cria uma linguagem interiorana, que não tira o encanto de sua participação. Ela entrevista e, ao mesmo tempo, se entrevista, saindo do lugar comum de apenas anotar as respostas.

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Como Rubem Braga, o ator Franco Almada recebe Claudiana Cotrim, que muitas vezes nega ser Clarice, criando uma cena curiosa, mas que fica comprometida pela rápida e fraca atuação da atriz.

Entre uma entrevista e outra, Aracy Balabanian (que já havia atuado como Clarice Lispector na peça Clarice Coração Selvagem e narrado uma seleção de contos da escritora) intervém em cenas cotidianas, como em uma eterna espera. O lado quase mudo de Clarice, sua consciência, seus pensamentos. Silêncio cortado somente nas narrações e ligações telefônicas que realiza, buscando os seus entrevistados.

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Uma das grandes surpresas em De Corpo Inteiro – Entrevistas é, sem sombras de dúvidas, a atriz Letícia Spiller. Com cenas gravadas no Pelourinho (BA), sua Clarice encontra o multi-artista Carybé, interpretado por Paulo Vespúcio. Com charme e uma postura imponente e sensual, Spiller é insinuante, misturando com perfeição o timbre de voz e sotaque de Clarice. No encontro, ela e Carybé discutem sobre as pessoas, a arte, o candomblé e a Bahia, com um final emocionante.
A seguir, a emoção se perde, se esvai na entrevista que ela faz com Jorge Amado, com o ator Jorge Cunha em uma interpretação fria e sem vida, que fala do compromisso dele com seu público.

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A falha logo é desfeita quando o jornalista Arnaldo Bloch entrevista o poeta Ferreira Gullar. Misturando atores e personalidades reais, De Corpo Inteiro – Entrevistas transita com certa harmonia entre realidade e ficção, afinal os entrevistados já falecidos fazem parte de um universo real, que é o livro de Clarice, mesmo sendo interpretados por atores. Gullar responde à Clarice de Arnaldo Bloch sobre as injustiças no Brasil, o período do Regime Militar e sobre sua vida artística como poeta.

Um dos pontos mais irreverentes do filme é, com certeza, quando Clarice (Dora Pelegrino) entrevista o jornalista Carlinhos Oliveira (Paulo Tiefenthaler). Discutem sobre a situação no mundo (perdido) e a escrita como “dom” atribuído a eles, mas pensam muito diferente, o que dá um certo desconforto durante a entrevista. Clarice, insatisfeita, decide marcar uma segunda entrevista para que ele, então, “se mostre de corpo inteiro”.

Quando entrevista Helio Pellegrino (Chico Diaz) em um cinema, Clarice (Silvia Buarque) toca no ponto do jogo existencial de perder e ganhar. Esse jogo, que envolve o amor, ela esclarece ao dizer gostaria de ter outras vidas: uma só para escrever, outra só para amar e outra só para ser mãe, pois é muito amor para que seja dividido.

A escritora Clarice Lispector
A escritora Clarice Lispector

As presenças iluminadas da atriz Tônia Carrero (entrevistada pela fraca Deolinda Vilhena) e do arquiteto Oscar Niemeyer (por Arnaldo Bloch) são pontos altos do filme, tratando de questões como teatro e solidariedade, respectivamente.

Tânia Bernucci, em curta aparição, entrevista a pintora Maria Bonomi em seu ateliê, tratando das gravuras e influências importantes em sua vida, seguida por outra pintora, Djanira (Giovanna De Toni), entrevistada por Dora Pellegrino. Djanira responde sobre seu conceito de amor: “É tudo aquilo que a gente pode dar”.

Algumas inserções sonoras da voz da própria Clarice surgem, dando maior ar documental ao filme, reforçado pela participação surpresa da própria diretora Nicole Agranti, que entrevista a escritora Nélida Piñon, em uma conversa sobre o lirismo da leitura, da imaginação e da magia em uma criação literária constante.

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Os escritores Fernando Sabino e Clarice Lispector

Como a década era 1970, nada mais propício do que entrevistar o técnico de futebol João Saldanha (Karan Machado), que levou o Brasil ao tri-campeonato mundial. Clarice (Rita Elmor, que já viveu a escritora na peça Que mistérios tem Clarice), visitam o Maracanã em pleno jogo, com uma ficção filmada dentro de uma realidade e discorrendo de temas como talento, fracassos, sucessos e, claro, futebol.
No final, a modelo e atriz Elke Maravilha, entrevistada por Deolinda Vilhena, fecha o filme com sua excentricidade e polêmica, abordando temas como morte, amor, trabalho e Deus.

De Corpo Inteiro – Entrevistas é uma homenagem a essa que foi uma das maiores – se não a maior – das escritoras brasileiras no século 20. Um enigma de si mesma, que buscou revelar os maiores medos e segredos do ser humano e, acredito, com muito sucesso. Levou à superfície o que nem mesmo seus leitores acreditavam existir dentro de si mesmos, levantando perguntas que tentam ser respondidas com afinco por aqueles que tiveram a glória (ou maldição, depende o ponto de vista) de ter Clarice Lispector como a mentora literária repousando inquieta em suas estantes. Dura e solidária, Clarice conseguia exprimir uma pureza bruta, quase maternal quando, em sua entrevista à pintora Djanira, deixa claro: “Me engane, pois não quero que nenhuma pergunta te faça sofrer”.

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