Para mim, falar de cinema francês é leve, simples e suave. Sou um grande apreciador e – não é raro – me emociono com a delicadeza e seriedade de temas tratados na maior parte dos seus filmes.

Stella, de Sylvie Verheyde, é um grande exemplo. Fortemente autobiográfico, a roteirista e diretora construiu uma terna e melancólica epopéia sobre o fim da infância e a entrada na adolescência. Essa linha tênue e invisível que divide as fases já foi tratada por outro francês com uma delicadeza impressionante: François Truffaut e seu belíssimo Os incompreendidos (1959). Nele, o jovem Antoine Doinel (alter ego do diretor) enfrenta os percalços da (sempre) difícil passagem da infância para a fase adulta.

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Em Stella, a personagem que dá título ao filme (e é interpretada por Leóra Barbara) é uma garota de 11 anos que vive com os pais (Benjamin Biolay e Karole Rocher) em um bar na periferia de Paris, nos anos 70. Lá circulam delinquentes, boêmios e desajustados que farão com que a menina lide de perto com assunto como traição, sexo e violência.

Ela acaba de chegar a um colégio novo, considerado um dos melhores e mais caros de Paris. Tímida e desconfortável naquele ambiente, ainda sofre com a humilhação de professores e alunos, mas seu péssimo aproveitamento escolar e conflitos familiares são amenizados quando ela conhece Gladys (a doce Melissa Rodriguès).

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Vencedor dos prêmios de Melhor Roteiro no Festival de Flandres e do Lina Mangiacapre no Festival de Veneza (ambos em 2008), Stella é um filme esperançoso que, apesar dos pesares, mantém seu resquício de prosperidade.
A puberdade, o amor às artes e às pessoas, as transgressões, estão todos ali. Uma ode às descobertas dessa fase e como sua protagonista as enfrenta. Seja no bar onde mora, no colégio, na casa da amiga rica ou nas férias no campo, Stella é uma personagem introspectiva e misteriosa, quase um enigma de si mesma.

A atriz iniciante Leóra Barbara está ótima em sua primeira aparição no cinema. Sua segurança em cena no papel principal demonstra uma maturidade fascinante e incômoda ao mesmo tempo. Um rosto infantil que pouco sorri mas que, quando o faz, ilumina toda a ação, completada pelo carisma de Melissa Rodriguès, que interpreta sua melhor amiga Gladys.

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Com uma câmera inquieta, o filme ganha maior força com a espetacular trilha sonora original da banda NousDeux The Band. Singelo e empolgante, torcemos pela pequena protagonista que está, aos poucos, sendo absorvida por aquele universo adulto enquanto sua infância vai embora cada vez mais rápido.

O conflito com (e entre) os pais, além do conflito interno com que lida, criam uma Stella melancólica, mas que não perde o lirismo que permeia todo o longa. Nesse ambiente, ela convive com Alain-Bernard (Guillaume Depardieu, filho de Gerárd Depardieu, que morreu logo após as filmagens). Nele, a garota encontra o amor, a amizade e a segurança que todo o mundo adulto que lhe rodeia nunca foi capaz de lhe oferecer. Encontra nele o porto seguro para continuar a jornada de pureza e poesia em um mundo caótico e selvagem.

Uma pequena pérola que emociona e dá a certeza que nem tudo está perdido quando, finalmente, nos encontramos.
Nota: destaque para a cena final dos créditos. Uma sequência simples, combinada com a ótima trilha, dão o toque poético derradeiro que Stella merecia.
E bem ao estilo francês, que o torna ainda mais delicioso.

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