No dia 22 de julho de 2005, um dia após os atentados terroristas contra metrôs e ônibus de Londres, um jovem de 27 anos foi morto por engano com sete tiros na cabeça, dentro da estação Stockwell, no metrô londrino.

Confundido com um homem-bomba árabe, a então renomada Scotland Yard, responsável pela ação, disse que o jovem recusou-se a obedecer às ordens de parar dadas por policiais à paisana.

Descobertas posteriores revelaram que houve impedimento das investigações por parte da instituição, considerada uma das melhores do mundo. Estava instaurada uma sequência de boatos, falsas verdades e conflitos de informações referentes à morte do brasileiro Jean Charles de Menezes, que morava no país há três anos.

Depois de quase quatro anos do ocorrido, chega às telas Jean Charles, que conta parte da história do jovem que saiu de uma pequena cidade de Minas Gerais em busca do sonho de tentar a vida na Inglaterra.

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Dirigido pelo brasileiro radicado em Londres Henrique Goldman (que dirigiu o documentário Princesa, sobre um travesti brasileiro na Itália), Jean Charles conta com um forte nome em seus créditos: o diretor inglês Stephen Frears (A Rainha, Ligações Perigosas), que assina a produção do filme. Com fotografia de Guillermo Escalon (que já havia trabalhado em Princesa, com Goldman), o filme teve um orçamento de cerca de R$ 8 milhões e será lançado por aqui próximo do aniversário de quatro anos da morte do emigrante brasileiro, no dia 26 de junho.

Selton Mello (Lavoura Arcaica, O Cheiro do Ralo) ficou com o papel principal e contracena, ainda, com Daniel Oliveira (Cazuza – o tempo não pára), Vanessa Giácomo (O menino da porteira) e Luis Miranda (Carandiru). Dando mais realidade ao filme, o longa conta com a participação de Patrícia Armani e Mauricio Varlotta, respectivamente prima e chefe de Jean, que interpretam a si mesmos no longa. Diversos brasileiros não-atores que moram em Londres participam da história e, até mesmo, o cantor Sidney Magal faz uma ponta, em shows que Jean assiste no longa.

Com filmagens no Reino Unido e no Brasil, Jean Charles é falado em português e inglês e conta o relacionamento de Jean com seus familiares e amigos (em Minas Gerais e na Inglaterra), seus sonhos e dificuldades em Londres, culminando no dia de seu brutal assassinato.

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Para desenvolver seu personagem, Selton Mello contou com a ajuda de familiares e amigos do brasileiro, que o auxiliaram na caracterização de Jean, seus gostos, maneirismos e lugares frequentados, por exemplo. Sem nenhuma imagem em vídeo, Selton declarou que criou um Jean Charles ao seu modo, que tem muito de nós brasileiros na caracterização.

E o público, provavelmente, vai se identificar: um estrangeiro, vivendo em uma terra desconhecida, com gente diferente, cujos sonhos de “ser alguém lá fora” desabrocha na “terra das oportunidades” chamada Europa. E é assim que Selton cria uma figura empática a todos, uma mistura de um jovem sonhador ambicioso, boa gente e batalhador, mas também um trambiqueiro que usava seu “jeitinho brasileiro” para resolver as coisas.

Jean Charles foi desenvolvido, inicialmente, como um projeto para a TV britânica BBC, mas foi cancelado devido ao andamento das investigações do assassinato e, também, pelo conflito de enfoque a ser dado: o diretor Henrique Goldman queria mostrar o lado brasileiro do fato, enquanto a BBC queria uma perspectiva mais inglesa. Com o fim do projeto, o diretor retomou o processo do zero e começou a reescrever o roteiro a quatro mãos, com a ajuda de Marcelo Starobinas.

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O tom humorístico toma forma na primeira parte de filme, que começa nos três meses que antecedem o assassinato, quando Vivian (Vanessa Giácomo), prima de Jean, desembarca em terras londrinas e passa a conviver com outro primo, Alex (Luis Miranda), ao mesmo tempo em que Jean ajuda os primos a se darem bem no país. A história se estende até três meses após a tragédia e denuncia a polícia por outro prisma: mostrando quem foi Jean Charles, como ele vivia e que foi morto de forma tão absurda. É esse tipo de revolta que deve ser gerada com o público, do maniqueísmo da Scotland Yard de acobertar a verdade.

Goldman, um diretor de documentários, tem seu primeiro longa de ficção partindo da observação da realidade, como um ótimo exemplo da paranóia instaurada no planeta após os ataques em 11 de setembro de 2001 e os abusos de autoridade oriundos disso.

Selton Mello já estava cotado para o papel original da BBC e voltou para a segunda versão, escrita por Goldman e Starobinas. “Quando você escreve, já escreve para um ator em específico em mente. Acho que o Selton já estava rondando nossas cabeças. Falamos com ele e ele topou meio de cara. Além disso, é um grande ator, charmoso e inteligente”, declarou o diretor.

Encerradas as filmagens em Londres após quarenta dias na capital londrina, a equipe viajou para Paulínia, no interior de São Paulo para rodar as cenas que se passam no Brasil. O filme, que visa não só mostrar a tragédia, mas celebrar a vida do brasileiro, demorou seis semanas para se rodado. Para Goldman, o processo foi árduo, mas valeu a pena: “Foram dois anos de luta, de encontros incríveis e agora espero que o público goste do filme. Três dos primos de Jean já viram e espero que os outros se identifiquem com os personagem, se divirtam e se emocionem”, finalizou.

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