junho 2009


Clarice Lispector tinha a literatura como sua salvação, como sempre afirmou. Porém, nunca deixou de lado sua alma de jornalista, função que exerceu durante anos. Então, nos anos 70, o livro De Corpo Inteiro foi lançado e reunia diversas entrevistas que a escritora realizou com diversas personalidades.

Sua sobrinha-neta, Nicole Algranti, roteirizou, produziu e dirigiu De Corpo Inteiro – Entrevistas, filme que reproduz ficcionalmente algumas dessas conversas (informais) realizadas pela escritora e jornalista, morta em 1977.

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O trabalho de pesquisa ficou por conta da professora inglesa Claire Williams, especialista em literatura brasileira e deu origem ao filme, que mostra a curta passagem de Clarice durante cada entrevista. Mais do que um jogo de perguntas e respostas, a ucraniana naturalizada brasileira interage e enxerga cada um de seus personagens reais nos momentos em que estão frente a frente.

Mulher de mil facetas, misteriosa e quase inatingível em sua natureza, Clarice Lispector é representada no filme por diversas atrizes e, até mesmo, pelo jornalista Arnaldo Bloch. Cada olhar, detalhe e diálogo foi desenvolvido para mostrar que havia diversas Clarices dentro de uma só pessoa, uma mulher inquieta, que interagia em suas entrevistas. Expondo-se quando entrevistava – e quase nunca quando entrevistada – cria um laço comunicativo com as personagens que compõem seu livro e filme.

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Mais do que um trabalho, o bate-papo descontraído de Clarice com amigos e pessoas que admirava criaram um filme leve e curto, com um ritmo contínuo, mas sem perder a sua função se enxergar-se no outro. O resultado, porém, é regular. Não pela qualidade das entrevistas ou pelo trabalho de Clarice, muito pelo contrário, mas por algumas atuações que deixam a desejar no filme de Nicole Algranti.

Nomes de peso – e outros menos conhecidos – dão vida a personagens como Nelson Rodrigues, Fernando Sabino, Jorge Amado e Rubem Braga. Além de literatos, a escritora entrevistou cantores, jornalistas, atores e outras personalidades ligadas à arte, como os artistas plásticos Carybé e Djanira, além do técnico de futebol João Saldanha, que levou o Brasil ao tricampeonato na Copa do Mundo em 1970. Nem todos os personagens contidos no livro foram transpostos para o filme, mas conseguimos ter uma ideia de sua aura de inquietude e mergulho na alma humana, seja em seus livros de ficção, seja na sua obra recheada de depoimentos.

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Desde o início de De Corpo Inteiro – Entrevistas, a música de abertura “Que o Deus venha” (letra criada na parceria de Cazuza com Frejat e baseada na obra de Clarice), alterna imagens da escritora com cenas das atrizes que a interpretam no longa. Na voz de Adriana Calcanhoto, a música nunca tinha sido musicada e ganhou um ar jazzístico. Frejat, grande parceiro de Cazuza (um fã confesso da escritora), é o responsável pela música incidental do filme.

Beth Goulart encena Clarice durante entrevista com o escritor Nelson Rodrigues (papel de Jofre Rodrigues). Detalhes não foram deixados de lado, como gestos, roupas, jóias e, em especial, a maquiagem. O olhar marcante da atriz cria uma Clarice séria e pensativa. Os cortes secos, como se fossem entrevistas reais, dá maior verossimilhança, criando uma personagem séria, quase intransponível. Louise Cardoso, no entanto, encarna uma Clarice mais despojada e risonha em sua entrevista com Fernando Sabino (Fernando Eiras). Suas interferências tratam de temas como morte, filosofia, amor e vida. Cardoso tenta um sotaque, mas cria uma linguagem interiorana, que não tira o encanto de sua participação. Ela entrevista e, ao mesmo tempo, se entrevista, saindo do lugar comum de apenas anotar as respostas.

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Como Rubem Braga, o ator Franco Almada recebe Claudiana Cotrim, que muitas vezes nega ser Clarice, criando uma cena curiosa, mas que fica comprometida pela rápida e fraca atuação da atriz.

Entre uma entrevista e outra, Aracy Balabanian (que já havia atuado como Clarice Lispector na peça Clarice Coração Selvagem e narrado uma seleção de contos da escritora) intervém em cenas cotidianas, como em uma eterna espera. O lado quase mudo de Clarice, sua consciência, seus pensamentos. Silêncio cortado somente nas narrações e ligações telefônicas que realiza, buscando os seus entrevistados.

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Uma das grandes surpresas em De Corpo Inteiro – Entrevistas é, sem sombras de dúvidas, a atriz Letícia Spiller. Com cenas gravadas no Pelourinho (BA), sua Clarice encontra o multi-artista Carybé, interpretado por Paulo Vespúcio. Com charme e uma postura imponente e sensual, Spiller é insinuante, misturando com perfeição o timbre de voz e sotaque de Clarice. No encontro, ela e Carybé discutem sobre as pessoas, a arte, o candomblé e a Bahia, com um final emocionante.
A seguir, a emoção se perde, se esvai na entrevista que ela faz com Jorge Amado, com o ator Jorge Cunha em uma interpretação fria e sem vida, que fala do compromisso dele com seu público.

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A falha logo é desfeita quando o jornalista Arnaldo Bloch entrevista o poeta Ferreira Gullar. Misturando atores e personalidades reais, De Corpo Inteiro – Entrevistas transita com certa harmonia entre realidade e ficção, afinal os entrevistados já falecidos fazem parte de um universo real, que é o livro de Clarice, mesmo sendo interpretados por atores. Gullar responde à Clarice de Arnaldo Bloch sobre as injustiças no Brasil, o período do Regime Militar e sobre sua vida artística como poeta.

Um dos pontos mais irreverentes do filme é, com certeza, quando Clarice (Dora Pelegrino) entrevista o jornalista Carlinhos Oliveira (Paulo Tiefenthaler). Discutem sobre a situação no mundo (perdido) e a escrita como “dom” atribuído a eles, mas pensam muito diferente, o que dá um certo desconforto durante a entrevista. Clarice, insatisfeita, decide marcar uma segunda entrevista para que ele, então, “se mostre de corpo inteiro”.

Quando entrevista Helio Pellegrino (Chico Diaz) em um cinema, Clarice (Silvia Buarque) toca no ponto do jogo existencial de perder e ganhar. Esse jogo, que envolve o amor, ela esclarece ao dizer gostaria de ter outras vidas: uma só para escrever, outra só para amar e outra só para ser mãe, pois é muito amor para que seja dividido.

A escritora Clarice Lispector
A escritora Clarice Lispector

As presenças iluminadas da atriz Tônia Carrero (entrevistada pela fraca Deolinda Vilhena) e do arquiteto Oscar Niemeyer (por Arnaldo Bloch) são pontos altos do filme, tratando de questões como teatro e solidariedade, respectivamente.

Tânia Bernucci, em curta aparição, entrevista a pintora Maria Bonomi em seu ateliê, tratando das gravuras e influências importantes em sua vida, seguida por outra pintora, Djanira (Giovanna De Toni), entrevistada por Dora Pellegrino. Djanira responde sobre seu conceito de amor: “É tudo aquilo que a gente pode dar”.

Algumas inserções sonoras da voz da própria Clarice surgem, dando maior ar documental ao filme, reforçado pela participação surpresa da própria diretora Nicole Agranti, que entrevista a escritora Nélida Piñon, em uma conversa sobre o lirismo da leitura, da imaginação e da magia em uma criação literária constante.

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Os escritores Fernando Sabino e Clarice Lispector

Como a década era 1970, nada mais propício do que entrevistar o técnico de futebol João Saldanha (Karan Machado), que levou o Brasil ao tri-campeonato mundial. Clarice (Rita Elmor, que já viveu a escritora na peça Que mistérios tem Clarice), visitam o Maracanã em pleno jogo, com uma ficção filmada dentro de uma realidade e discorrendo de temas como talento, fracassos, sucessos e, claro, futebol.
No final, a modelo e atriz Elke Maravilha, entrevistada por Deolinda Vilhena, fecha o filme com sua excentricidade e polêmica, abordando temas como morte, amor, trabalho e Deus.

De Corpo Inteiro – Entrevistas é uma homenagem a essa que foi uma das maiores – se não a maior – das escritoras brasileiras no século 20. Um enigma de si mesma, que buscou revelar os maiores medos e segredos do ser humano e, acredito, com muito sucesso. Levou à superfície o que nem mesmo seus leitores acreditavam existir dentro de si mesmos, levantando perguntas que tentam ser respondidas com afinco por aqueles que tiveram a glória (ou maldição, depende o ponto de vista) de ter Clarice Lispector como a mentora literária repousando inquieta em suas estantes. Dura e solidária, Clarice conseguia exprimir uma pureza bruta, quase maternal quando, em sua entrevista à pintora Djanira, deixa claro: “Me engane, pois não quero que nenhuma pergunta te faça sofrer”.

Quando somos adolescentes, todo problema parece o fim do mundo. Ser popular, bonito, extrovertido e inteligente é o sonho de muitos – para não dizer de todos. Pensando nisso, a diretora Nanette Burstein escreveu e dirigiu American Teen, um documentário sobre essa fase, tão complexa (e deliciosa) na vida de todos nós.

Acompanhando, durante um ano, o último ano do colegial de alguns alunos em um colégio em Indiana, nos Estados Unidos, a diretora focou nos cinco estereótipos mais comuns no ensino de “castas” norte-americano: o garanhão, a popular, a rebelde, o nerd e o esportista. A cidade, com maioria branca, cristã e rica, apresenta uma divisão rígida e estabelecida entre os próprios alunos.

Hannah, considerada a rebelde, sente que está no meio de todas as outras castas. Uma das personagens mais interessantes do longa, fã de cinema, música e fotografia, ela odeia aquele mundo em que vive e pretende sair da pequena cidade para ir direto para a faculdade de Cinema. Megan, a riquinha bonita e chefe de torcida, está sempre rodeada de amigos descerebrados e participa de todos os eventos do colégio. Enquanto isso, Colin, o atleta, joga no time de basquete e busca se destacar para adquirir uma bolsa de estudos na universidade. Se não conseguir, terá de ir para o Exército. Divide a pressão com seu melhor amigo Mitch, o garanhão da escola que, forte e bonito, está sempre rodeado de mulheres. Já o sonhador Jake é o nerd da escola. Sozinho e tímido, com o rosto cheio de espinhas e aparelho nos dentes, vive no mundo dos vídeo-games e tem poucos amigos. Seu grande sonho é encontrar o amor de sua vida.

Pronto! Neste caldeirão de personalidades está declarada uma guerra onde as armas são as palavras e atitudes.

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Com diferenças gritantes entre cada um deles, a pressão que sofrem – tanto dos pais como dos outros alunos – é um ponto em comum entre os cinco personagens destacados. Seja em relação à carreira, à universidade, à saída da cidade, enfim. Unindo isso às desilusões amorosas e demais conflitos que surgem, American Teen é um bom exemplo de como as aparências (des)constroem uma pessoa.

O medo do que os outros vão pensar e todo aquele universo sufocante levam os alunos à depressão e isolamento com (algumas) consequências nada simpáticas.

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A ótima edição com um ritmo empolgante faz com que o espectador crie empatia e se empolgue em saber o destino que os personagens tomarão. Afinal, não é nada fácil editar um material bruto de um ano de gravações em menos de duas horas de projeção.

Com boas sacadas, o filme tem uma leveza agradável apesar dos conflitos, com os personagens agindo naturalmente frente às câmeras e expondo todos seus problemas de forma sincera e, muitas vezes, divertida.

Com inserções animadas para explicar a personalidade de alguns dos adolescentes, a diretora mostra as intrigas, as decepções, os dramas e sonhos desses jovens, que não diferem tanto dos outros de sua idade. As maldades (e infantilidades) adolescentes chegam com consequências nada amenizadas, fazendo com que eles se responsabilizem pelos seus atos. Afinal de contas, é um dos primeiros passos para a vida adulta que tanto os anseia e assusta.

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Mas quando um curto romance une dois lados opostos das “castas” e todos os personagens chegam ao ápice de seus dramas, o filme atinge um lado mais maduro, como se anunciasse que está chegando a hora de deixar a adolescência para trás e é necessário fazer suas próprias escolhas, lidando com o medo e a incerteza do que virá.

E a esperança de que vai dar certo supera essa insegurança. A frase que os consola é lançada em certa cena do filme, quando uma menina mais velha diz pra um dos personagens: “Você consegue tudo, afinal você sobreviveu ao colegial”. Uma boa pedida para todas as idades.

Para mim, falar de cinema francês é leve, simples e suave. Sou um grande apreciador e – não é raro – me emociono com a delicadeza e seriedade de temas tratados na maior parte dos seus filmes.

Stella, de Sylvie Verheyde, é um grande exemplo. Fortemente autobiográfico, a roteirista e diretora construiu uma terna e melancólica epopéia sobre o fim da infância e a entrada na adolescência. Essa linha tênue e invisível que divide as fases já foi tratada por outro francês com uma delicadeza impressionante: François Truffaut e seu belíssimo Os incompreendidos (1959). Nele, o jovem Antoine Doinel (alter ego do diretor) enfrenta os percalços da (sempre) difícil passagem da infância para a fase adulta.

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Em Stella, a personagem que dá título ao filme (e é interpretada por Leóra Barbara) é uma garota de 11 anos que vive com os pais (Benjamin Biolay e Karole Rocher) em um bar na periferia de Paris, nos anos 70. Lá circulam delinquentes, boêmios e desajustados que farão com que a menina lide de perto com assunto como traição, sexo e violência.

Ela acaba de chegar a um colégio novo, considerado um dos melhores e mais caros de Paris. Tímida e desconfortável naquele ambiente, ainda sofre com a humilhação de professores e alunos, mas seu péssimo aproveitamento escolar e conflitos familiares são amenizados quando ela conhece Gladys (a doce Melissa Rodriguès).

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Vencedor dos prêmios de Melhor Roteiro no Festival de Flandres e do Lina Mangiacapre no Festival de Veneza (ambos em 2008), Stella é um filme esperançoso que, apesar dos pesares, mantém seu resquício de prosperidade.
A puberdade, o amor às artes e às pessoas, as transgressões, estão todos ali. Uma ode às descobertas dessa fase e como sua protagonista as enfrenta. Seja no bar onde mora, no colégio, na casa da amiga rica ou nas férias no campo, Stella é uma personagem introspectiva e misteriosa, quase um enigma de si mesma.

A atriz iniciante Leóra Barbara está ótima em sua primeira aparição no cinema. Sua segurança em cena no papel principal demonstra uma maturidade fascinante e incômoda ao mesmo tempo. Um rosto infantil que pouco sorri mas que, quando o faz, ilumina toda a ação, completada pelo carisma de Melissa Rodriguès, que interpreta sua melhor amiga Gladys.

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Com uma câmera inquieta, o filme ganha maior força com a espetacular trilha sonora original da banda NousDeux The Band. Singelo e empolgante, torcemos pela pequena protagonista que está, aos poucos, sendo absorvida por aquele universo adulto enquanto sua infância vai embora cada vez mais rápido.

O conflito com (e entre) os pais, além do conflito interno com que lida, criam uma Stella melancólica, mas que não perde o lirismo que permeia todo o longa. Nesse ambiente, ela convive com Alain-Bernard (Guillaume Depardieu, filho de Gerárd Depardieu, que morreu logo após as filmagens). Nele, a garota encontra o amor, a amizade e a segurança que todo o mundo adulto que lhe rodeia nunca foi capaz de lhe oferecer. Encontra nele o porto seguro para continuar a jornada de pureza e poesia em um mundo caótico e selvagem.

Uma pequena pérola que emociona e dá a certeza que nem tudo está perdido quando, finalmente, nos encontramos.
Nota: destaque para a cena final dos créditos. Uma sequência simples, combinada com a ótima trilha, dão o toque poético derradeiro que Stella merecia.
E bem ao estilo francês, que o torna ainda mais delicioso.

Filmes sobre a 2ª Guerra já são batidos, mas sempre ganham a atenção do público pelo fascínio deste que foi o último grande confronto de escala mundial. Pensando nisso, o diretor japonês Isao Takahata desenvolveu o belíssimo O Túmulo dos vagalumes, uma animação que conta de forma séria e emocionante a saga de dois irmãos durante o confronto.

Com roteiro do próprio diretor a partir do romance de Akiyuki Nosaka, o filme conta a história da menininha Setsuko e seu irmão Seita, que enfrentam os horrores do conflito quando se encontram sozinhos após a morte dos pais.

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Narrado em forma de flashbacks, O Túmulo dos Vagalumes possui um visual e roteiro impressionantes pela delicadeza e poesia ali apresentadas. A riqueza de detalhes, que vai desde a arquitetura e vegetação japonesas até as fortes cenas dramáticas da destruição, impressiona com seu jogo de luzes e analogias do universo dos dois irmãos vagantes na busca pela sobrevivência. A falta de comida, os ataques, a solidão e o medo: tudo está ali, mostrado de forma adulta, mas sem deixar os momentos de humor de lado.

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A figura da inocente Setsuko é o ponto mais forte desse emocionante drama, que prima pela trilha e apuro técnico da animação convencional. Com uma riqueza de gestos, expressões faciais e manias infantis, Setsuko foi construída de forma lúdica e real, com diálogos formulados para emocionar o espectador sem apelar para a pieguice.

O amor incondicional de Seita pela irmã é tocante, fazendo com que ela sofra o mínimo possível naquela situação limite em que se encontram. A rotina dessa sobrevivência ganha contornos poéticos, como a que dá título ao filme: Seita leva diversos vagalumes para dentro do escuro abrigo em que está morando com Setsuko, a fim de iluminá-lo. Os vagalumes morrem, pois têm uma vida curta (assim como as crianças em períodos de guerras) e a menina, então, faz um túmulo, enterrando-os. Fica claro que ela já compreende o contato com a morte, embora não saiba exatamente como lidar com essa experiência.

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Com idas e vindas no tempo, O Túmulo dos vagalumes foca nos diversos lados dúbios da guerra: a morte e a sobrevivência, a perda e o reencontro, a tristeza e a felicidade. E faz isso com um lirismo e ingenuidade inenarráveis. Indispensável.

Com a polêmica da chegada de Do começo ao fim, de Aluizio Abranches, que conta a história do amor homossexual entre dois irmãos, um curta-metragem realizado em 2005 tem ganhado destaque nos últimos tempos.

Trata-se de Starcrossed, muito bem dirigido por James Burkhammer II. Na história, dois irmãos  Connor (Marshall Allman) e Darren (J.B. Ghuman Jr.) são apegados e lidam com a rigidez do pai (John Wesley Shipp) em relação a Connor, o mais novo.

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Certo dia, Connor dá um beijo no irmão e, a partir daí, eles vão desenvolver uma relação incestuosa de forma sincera e delicada. A linguagem, em se tratando de um curta-metragem, é rápida e dinâmica, porém não perde a ternura de se contar uma história com dois temas tão controversos (homossexualidade e incesto).

As dúvidas e medos permeiam ambos os personagens, mas é na figura do caçula, mais sonhador e otimista, que Darren ganha forças para suportar a situação que ele mesmo sabe que não terminará bem.

Com um final trágico e lírico, o curta tem na cena do cinema uma tensão e poesia necessárias para selar o início do amor de Connor e Darren.

Simples, direto e tocante.

Dirigido por Eytan Fox, Delicada Relação (Yossi and Jagger, em inglês) é baseado em uma história real sobre o amor de dois militares israelenses em uma base militar localizada na fronteira do Líbano.

O filme conta o relacionamento de Yossi (Ohad Knoller), um militar de alta patente que tem um caso de amor secreto com seu subordinado Lior ‘Jagger’ Amichai (Yehuda Levi, ótimo). A história, que antecede uma grande emboscada que será realizada, mostra o dia a dia desse grupo, que tenta sobreviver em meio ao iminente confronto.

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O norte-americano Eytan Fox mudou-se para Israel aos dois anos de idade e conhece bem esse conflito étnico religioso que perpetua na região há décadas. Dirigido de forma sincera e sem rodeios, Delicada Relação estreou em 2002 e apresenta este ambiente opressor e homofóbico, que faz com que os dois militares tenham de manter seu amor em absoluto sigilo.

O contraste dos personagens também cria uma tensão adicional: enquanto Yossi é mais recluso, sério, possui uma rudez pelo medo de ser descoberto, Jagger é mais sensível, romântico, está disposto a enfrentar o preconceito e assumir o amor que sentem. Isso só muda de figura quando estão sozinhos naquele espaço, cercado de neve e isolado do resto do mundo.

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Com um estilo documental, recheado de câmeras tremidas e movimentos bruscos, Delicada Relação ganha forças, ainda, com sua fotografia interessante, permeada pelo uso de cores opacas como branco, cinza, verde e preto. Além disso, a trilha intimista e os closes nos detalhes (olhares, sorrisos, gestos) dão o ar poético de uma história de amor em meio a uma guerra que é real em sua atualidade.

Alternando entre o humor leve e o drama, o diretor optou em contar a história de outros personagens, seus sonhos e o dia-a-dia enfrentado naquela espécie de confinamento. Na base militar eles dançam, riem, conversam, cantam e que é intensificado com a chegada de duas mulheres: Goldie (Hani Furstenberg) e Yaeli (Aya Steinovitz). A primeira, que quer aproveitar seu tempo ali da melhor forma possível contrasta com o lado mais contido da bela Yaeli, que está apaixonada por Jagger e vai despertar o interesse de outro militar, Ophir (Assi Cohen).

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Com um roteiro bem amarrado, Delicada Relação é uma história de amor bem contada, com certos momentos de pura poesia. A dupla protagonista exprime verdade e empatia com seu espectador, especialmente pela sensibilidade e doçura de Yehuda Levi, que cria em Jagger um personagem emocionante.

O final, trágico, deixa no espectador um vazio que um certo filme de Ang Lee deixou em nós sobre o amor interrompido de dois caubóis. Lembram?

No dia 22 de julho de 2005, um dia após os atentados terroristas contra metrôs e ônibus de Londres, um jovem de 27 anos foi morto por engano com sete tiros na cabeça, dentro da estação Stockwell, no metrô londrino.

Confundido com um homem-bomba árabe, a então renomada Scotland Yard, responsável pela ação, disse que o jovem recusou-se a obedecer às ordens de parar dadas por policiais à paisana.

Descobertas posteriores revelaram que houve impedimento das investigações por parte da instituição, considerada uma das melhores do mundo. Estava instaurada uma sequência de boatos, falsas verdades e conflitos de informações referentes à morte do brasileiro Jean Charles de Menezes, que morava no país há três anos.

Depois de quase quatro anos do ocorrido, chega às telas Jean Charles, que conta parte da história do jovem que saiu de uma pequena cidade de Minas Gerais em busca do sonho de tentar a vida na Inglaterra.

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Dirigido pelo brasileiro radicado em Londres Henrique Goldman (que dirigiu o documentário Princesa, sobre um travesti brasileiro na Itália), Jean Charles conta com um forte nome em seus créditos: o diretor inglês Stephen Frears (A Rainha, Ligações Perigosas), que assina a produção do filme. Com fotografia de Guillermo Escalon (que já havia trabalhado em Princesa, com Goldman), o filme teve um orçamento de cerca de R$ 8 milhões e será lançado por aqui próximo do aniversário de quatro anos da morte do emigrante brasileiro, no dia 26 de junho.

Selton Mello (Lavoura Arcaica, O Cheiro do Ralo) ficou com o papel principal e contracena, ainda, com Daniel Oliveira (Cazuza – o tempo não pára), Vanessa Giácomo (O menino da porteira) e Luis Miranda (Carandiru). Dando mais realidade ao filme, o longa conta com a participação de Patrícia Armani e Mauricio Varlotta, respectivamente prima e chefe de Jean, que interpretam a si mesmos no longa. Diversos brasileiros não-atores que moram em Londres participam da história e, até mesmo, o cantor Sidney Magal faz uma ponta, em shows que Jean assiste no longa.

Com filmagens no Reino Unido e no Brasil, Jean Charles é falado em português e inglês e conta o relacionamento de Jean com seus familiares e amigos (em Minas Gerais e na Inglaterra), seus sonhos e dificuldades em Londres, culminando no dia de seu brutal assassinato.

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Para desenvolver seu personagem, Selton Mello contou com a ajuda de familiares e amigos do brasileiro, que o auxiliaram na caracterização de Jean, seus gostos, maneirismos e lugares frequentados, por exemplo. Sem nenhuma imagem em vídeo, Selton declarou que criou um Jean Charles ao seu modo, que tem muito de nós brasileiros na caracterização.

E o público, provavelmente, vai se identificar: um estrangeiro, vivendo em uma terra desconhecida, com gente diferente, cujos sonhos de “ser alguém lá fora” desabrocha na “terra das oportunidades” chamada Europa. E é assim que Selton cria uma figura empática a todos, uma mistura de um jovem sonhador ambicioso, boa gente e batalhador, mas também um trambiqueiro que usava seu “jeitinho brasileiro” para resolver as coisas.

Jean Charles foi desenvolvido, inicialmente, como um projeto para a TV britânica BBC, mas foi cancelado devido ao andamento das investigações do assassinato e, também, pelo conflito de enfoque a ser dado: o diretor Henrique Goldman queria mostrar o lado brasileiro do fato, enquanto a BBC queria uma perspectiva mais inglesa. Com o fim do projeto, o diretor retomou o processo do zero e começou a reescrever o roteiro a quatro mãos, com a ajuda de Marcelo Starobinas.

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O tom humorístico toma forma na primeira parte de filme, que começa nos três meses que antecedem o assassinato, quando Vivian (Vanessa Giácomo), prima de Jean, desembarca em terras londrinas e passa a conviver com outro primo, Alex (Luis Miranda), ao mesmo tempo em que Jean ajuda os primos a se darem bem no país. A história se estende até três meses após a tragédia e denuncia a polícia por outro prisma: mostrando quem foi Jean Charles, como ele vivia e que foi morto de forma tão absurda. É esse tipo de revolta que deve ser gerada com o público, do maniqueísmo da Scotland Yard de acobertar a verdade.

Goldman, um diretor de documentários, tem seu primeiro longa de ficção partindo da observação da realidade, como um ótimo exemplo da paranóia instaurada no planeta após os ataques em 11 de setembro de 2001 e os abusos de autoridade oriundos disso.

Selton Mello já estava cotado para o papel original da BBC e voltou para a segunda versão, escrita por Goldman e Starobinas. “Quando você escreve, já escreve para um ator em específico em mente. Acho que o Selton já estava rondando nossas cabeças. Falamos com ele e ele topou meio de cara. Além disso, é um grande ator, charmoso e inteligente”, declarou o diretor.

Encerradas as filmagens em Londres após quarenta dias na capital londrina, a equipe viajou para Paulínia, no interior de São Paulo para rodar as cenas que se passam no Brasil. O filme, que visa não só mostrar a tragédia, mas celebrar a vida do brasileiro, demorou seis semanas para se rodado. Para Goldman, o processo foi árduo, mas valeu a pena: “Foram dois anos de luta, de encontros incríveis e agora espero que o público goste do filme. Três dos primos de Jean já viram e espero que os outros se identifiquem com os personagem, se divirtam e se emocionem”, finalizou.

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