Se o diretor norte-americano Ed Wood estivesse vivo, se sentiria honrado ao ver que seu esforço não foi em vão. Considerado “o pior cineasta de todos os tempos”, seu legado cinematográfico dos anos 50 atraiu – décadas depois – fãs do mundo todo e ganhou status cult. Roteiros que misturavam terror e ficção científica, seus filmes de baixa qualidade e pequenos orçamentos traziam (d)efeitos visuais que mais divertiam do que assustavam.

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Eis que, mais de meio século depois, a Dreamworks Animation lança Monstros vs Alienígenas (Monsters vs Aliens), primeira animação do estúdio em stereoscopic 3-D e que tem todos os ingredientes para agradar até aos fãs mais exigentes. Seu contexto trash ganha forma nas mãos dos diretores Rob Letterman e Conrad Vernon, que já haviam trabalhado juntos como colaboradores em Shrek e O Espanta Tubarões. Ali, muitos elementos de Wood e dos filmes B de monstros japoneses, como Godzilla, incluindo um confronto de monstros em na cidade grande.

A história começa quando a jovem Susan (dublada por Reese Witherspoon) é atingida, acidentalmente, por um meteoro no dia de seu casamento. O fenômeno faz com que ela seja infectada por uma substância química alienígena e atinja cerca de 15 metros de altura. O governo norte-americano a leva, então, para um abrigo secreto onde estão confinados alguns monstros, como o brilhante inseto Dr. Cockroach (Hugh Laurie), o ser meio-macaco meio-peixe Missing Link (Will Arnett), o gelatinoso B.O.B. (Seth Rogen) e o estranho inseto gigante conhecido como Insectosaurus (Rainn Wilson).

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Como em muitos filmes de animação, os personagens secundários roubam a cena. Com Monstros vs Alienígenas, não é diferente. Cada um com uma personalidade bem definida, o que abre espaço para o humor inteligente e, ao mesmo tempo, pastelão de cada uma das adoráveis aberrações.
A história ganha ação quando, ameaçados por um iminente ataque alienígena ao planeta, o governo norte-americano recruta os cinco confinados para a missão de salvar a Terra da destruição.

A partir daí, o filme torna-se uma deliciosa sátira aos filmes B dos anos 50, como a tradicional cena de monstros destruindo cidades inteiras.

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Uma grande sacada do filme é fazer uma crítica ao governo norte-americano, criando um presidente caricato, autoritário e nada inteligente, que utiliza o Exército como escudo para suas burrices. É hilária sua primeira aparição, que faz uma paródia com Contatos Imediatos do Terceiro Grau, clássico de ficção científica de Steven Spielberg, não coincidentemente um dos donos da Dreamworks. Mas referências não no longa não param por aí: repare que entre tantas insígnias do estereotipado general W. R. Monger, coordenador do abrigo secreto, há um broche do ogro Shrek, uma brincadeira que a concorrente Pixar sempre fez questão de inserir em suas animações.

Os detalhes do filme são, sem sombra de dúvida, um atrativo constante, desde as expressões faciais até os fios de cabelo dos personagens, que dão a impressão de terem sido inseridos um a um. Isso sem deixar de lado o roteiro, que mantém um timing perfeito e torna cada personagem único. Até mesmo os vilões dão o tom de comédia, alternando entre pequenas inserções dramáticas da humana Susan e cenas de ação que empolgam, como o confronto na ponte Golden Gate, um dos maiores cartões postais dos EUA.

Com um olhar mais adulto, observamos que o filme trata da paranóia do medo criada no mundo, ou seja, a relutância a tudo aquilo que não vai de encontro com o que é considerado dentro do padrão.
Mas ao assistir Monstros vs Alienígenas, percebemos que nem tudo está perdido. Afinal, ser diferente pode ser muito divertido.

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