John Patrick Shanley é um sujeito de sorte. Seu primeiro filme, Joe contra o vulcão conquistou o público com uma história simples da dupla Tom Hanks e Meg Ryan, que faria sucesso anos depois com a comédia romântica Sintonia de amor. Sua segunda inserção no cinema, vinte anos depois da estréia atrás das câmeras, foi extremamente autoral e confiante: adaptar e dirigir Dúvida, peça de sua própria autoria.

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Dúvida traz um elenco de pesos pesados e conta a história da irmã Aloysius (Meryl Streep, magnífica), rígida diretora de um colégio religioso nos anos 60 Ela desconfia que o liberal padre Flynn (Phillip Seymour Hoffman, ótimo) abusou sexualmente do primeiro negro a fazer parte do grupo de alunos.

Com poucos cenários, toda a trama se desenrola nas dependências do colégio e da Igreja, em uma época em que a sociedade norte-americana sofria com o recente assassinato do presidente Kennedy.

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Os espaços conservadores com ótimo uso da luz mostram essa fé sufocada em um ambiente puritano ao extremo. Shanley criou a atmosfera intimista propícia para o conflito entre o autoritarismo de Aloyisius e o liberalismo de Flynn. Entre os dois, a inocente irmã James (Amy Adams), que oscila entre a confiança no padre acusado e a mão firme da diretora; que se divide entre a amizade com os alunos e o medo como imposição de respeito perante os seus alunos.  Mesmo sem provas, irmã Aloysius agarra com unhas e dentes suas desconfianças, vistas como verdades absolutas.

O trio de atores oferece atuações geniais, sempre desafiando o espectador: quem é culpado e quem é inocente? A tênue linha entre bons e maus torna-se cada vez mais complexa com o aparecimento da mãe do menino negro (Viola Davis). A cena é apenas uma, mas a atriz passa todo o drama e choque necessário para a situação, tanto que foi indicada ao Globo de Ouro e está na disputa entre as outras coadjuvantes do Oscar. E é neles que Shanley tem seu maior trunfo: os atores.

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Os movimentos e planos de câmera se entregam a certos vícios teatrais, mas o diretor é capaz de conduzir magistralmente os personagens que ele mesmo criou. Todos os quatro (Streep, Hoffman, Adams e Davis) foram, merecidamente, indicados ao Oscar 2009, assim como seu roteiro adaptado.
Quando assistimos ao filme, nos questionamos: o que é melhor, criador ou criaturas? Não precisamos escolher, pois a dúvida permanece.

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