Biografias, quando caem nas mãos de diretores competentes, tornam-se clássicos ou são capazes de revirar de vergonha os seus biografados no túmulo. Gus Van Sant faz parte da primeira categoria. Ele, que já havia trabalhado com um perfil biográfico diferenciado os dias que antecederam o suicídio de Kurt Cobain, líder da banda Nirvana em Últimos dias, volta com um personagem ousado, político e relevante até os dias atuais.

A história de Harvey Milk, primeiro homossexual a assumir um cargo público do governo norte-americano, era um projeto que o diretor pretendia levar às telas há quase vinte anos.

harvey-milk-pic

O filme chega às telas, finalmente, este ano, com um Sean Penn extraordinário no papel principal, bem coadjuvado por Josh Brolin, que faz o papel de Dan White, grande rival político de Milk que o assassinou em 1978, em São Francisco.

O filme traça a trajetória de Harvey Milk em forma de flashback, desde 1970, quando assumiu publicamente sua homossexualidade em uma sociedade repressora, que prendia e violentava os gays que freqüentavam os bares e guetos. Eram comuns os ataques de policiais, isenção de direitos sociopolíticos e a repressão de religiosos à comunidade homossexual. Van Sant, homossexual assumido, criou um filme que alterna imagens de arquivo da época e imagens filmadas em Super-8, dando aspecto fortemente documental com, inclusive, entrevistas que permeiam o filme.

183x600featgay

A história política de Milk começa quando, ao abrir uma loja com o namorado Scott (James Franco, ótimo no papel), começa a receber boicotes e hostilidade da rua Castro e arredores. Decide, então, concorrer ao cargo de Supervisor do Condado de São Francisco e, eleito, torna o espaço um grande point gay na região.

Milk começa a se tornar conhecido por abrigar homossexuais rejeitados e criar uma “família”, juntamente com apoios políticos e de outras classes, como idosos, mulheres e sindicalistas e o mais importante deles: do prefeito da cidade de São Francisco (papel de Victor Garber, de Titanic).

O filme traça um perfil mais político de Milk, sem deixar de tocar em sua vida pessoal, como o relacionamento com Scott e, depois, com Jack, papel de Diego Luna, um personagem irritante e desnecessário.

milk04

O filme tem em Sean Penn um personagem irônico, debochado, porém tímido e cativante ao mesmo tempo, que organizou marchas recrutando pessoas a acompanhar e lutar pelas injustiças que chega – e ainda chegam – a levar jovens gays ao suicídio pelo preconceito da sociedade e, pior, de sua própria família. O auge do filme é a votação da Proposição 6, que invalidava os direitos gays e que, na figura de Milk, teve grande papel contra tal medida. O fato envolveu a sociedade conservadora norte-americana, formada especialmente pela cantora Anita Bryant, crítica ferrenha aos homossexuais nos anos 70 que, a cada derrota – e a cada vitória – se uniram cada vez mais. E muito disso se deve a Harvey Milk.

Anúncios