O primeiro longa metragem do diretor François Truffaut (1932-1984) apresenta seu alter ego Antoine Doinel, que tomou alma (e corpo) do jovem Jean-Pierre Léaud. Os dois levariam Doinel às telas de cinema em mais três longas: Beijos Proibidos (68), Domicílio Conjugal (70) e O Amor em Fuga (79), além do curta Antoine e Collete (62). Léaud e Truffaut trabalharam, ainda, em A Noite Americana (73), grande declaração de amor do diretor ao cinema.

Porém, Os incompreendidos, de 1959, é considerado uma de suas maiores obras primas, tratando com delicadeza e melancolia a vida do jovem Antoine Doinel.

Les 400 coups

Do despotismo escolar do professor (Guy Decomble) à complicada relação com a mãe (Claire Maurier), Doinel é o grande incompreendido, em uma bela ode à adolescência de infância perdida.

Azarado, Doinel é um jovem que se envolve em diversas confusões que o fazem levar a fama de mentiroso e delinquente. Na escola, encontra no amigo René (Patrick Auffay) o refúgio daqueles ambientes hostis. Em casa, a mãe vê no filho um fardo, sem paciência para diálogos e suas críticas frequentes. Doinel descobre no padastro um sujeito carismático e brincalhão que lhe dá um alívio nunca suprido em sua totalidade.

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Dedicado a André Bazin, o grande crítico de cinema  (e que foi uma espécie de pai para Truffaut), Os Incompreendidos segue, passo a passo, a rotina desse jovem sufocado por tudo que o rodeia. Léaud, de olhar expressivo e uma beleza enigmática, adulta e inocente ao mesmo tempo, dá a alma ao filme. Sofremos e torcemos por Doinel.

Autobiográfico em sua grande parte, Truffaut recria sua paixão pela Sétima Arte em seu alter ego, com diversas idas ao cinema e até mesmo o furto de um dos cartazes (assim como fez em uma cena de A Noite Americana). O próprio diretor sempre declarou que o cinema salvou sua vida.

Os olhos atentos de Doinel na tela de cinema tornam-se, depois, os olhos atentos da câmera, sempre observadora, em cenas que vão do delicioso humor, passam pelo lirismo e caminha a duras penas para o drama não gratuito.

Os Incompreendidos, que trata da passagem (sempre tensa) da infância à vida adulta. Porém, Doinel lida com problemas que se desenrolam de forma chocante mas, nem por isso, inverossímeis. Torna-se adulto antes do tempo, sem entender como agir naquela sociedade que o condena. Isso fica explícito quando, perguntado por uma psicóloga por que mente, Doinel replica: “Quando digo a verdade também acham que estou mentindo. Então, às vezes, prefiro não dizer a verdade”.

Não seria possível escolher uma só passagem antológica de Os Incompreendidos: a imagem de Doinel refletido nos espelhos da penteadeira da mãe, o teatro de fantoches de uma beleza ímpar com olhares inocentes da platéia infantil, o “altar” que ele cria para o escrito Honoré de Balzac (que ensinou a França a olhar para si mesma por meio de suas crônicas) e a cena final, em uma sequência de encher os olhos, tanto de lágrimas como de um brilho inquietante. Inesquecível.

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