Tocar em temas delicados pode se tornar um território de risco para muitos cineastas. Dependendo do assunto, uma seriedade exacerbada pode transformar o filme em um melodrama chato; se for tratado de forma menos despretensiosa e com humor, pode diminuir o impacto de sua relevância.

Em A partida, o diretor Yojiro Takita (A última espada) conseguiu unir poesia, seriedade e certa dose de humor com um brilhantismo impressionante ao tratar da morte, um assunto complexo que faz parte da vida de todos nós.

Vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro deste ano, A partida conta a história de Daigo (Masahiro Motoki), um violoncelista que decide voltar para sua cidade natal quando a orquestra na qual fazia parte se dissolve. Com a esposa Mika (a simpática Ryoko Hirosue), ele parte na busca por um emprego, que o leva sem saber até uma agência funerária, onde ele passará a acondicionar cadáveres.

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A tarefa, vista com maus olhos pela sociedade japonesa e praticada, muitas vezes, por imigrantes, torna-se o novo emprego de Daigo, que se sente atraído pela alta quantia paga pelo chefe Sasaki (muito bem interpretado por Tsutomu Yamazaki).
O filme abocanhou, ainda, dez prêmios no Japan Academy Prize Awards, incluindo Filme, Direção, Ator e Roteiro.

Muito bem conduzido, A partida trata com graça e leveza o tema da morte e do ritual de acondicionamento, comum no país, em que os mortos passam por limpeza, troca de vestimentas e maquiagem diante dos familiares, para fazerem sua passagem do mundo dos vivos para o dos mortos com a dignidade que merecem.

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Sem tocar no tema religião, o diretor Yojiro Takita optou por focar na universalidade da morte e nos comportamentos humanos diante dela, com suas mais diversas sensações: estranheza, medo, nojo, tristeza, saudade, revolta, redenção e dor.

Com bom ritmo e contemplativo ao mesmo tempo, o diretor conseguiu extrair ótimas atuações de todos os seus personagens, favorecido pela bela fotografia e o ótimo roteiro.

Na trilha sonora intimista, composições clássicas à base de piano, violino e violoncelo dão o tom correto, que vai do humor leve às emocionantes cenas dramáticas sem incomodar o espectador.

As dificuldades de adaptação de Daigo ao novo emprego e seu amor à música clássica dão margem, ainda, para um trauma de infância não resolvido. Com poesia, o diretor desenvolve, ainda, a emocionante dupla de idosos, representados por Kazuko Yoshiyuki como a dona da casa de banhos da cidade e Takashi Sasano, que interpreta o mais antigo frequentador do local.

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Um filme terno, dirigido com sensibilidade e sinceridade, cujo título engloba não só a partida por meio da morte mas, também, da fuga e da distância que permeiam a vida de todos nós.

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