Alamaba, 1950. Com a iminência da Guerra da Coreia e o preconceito racial fincado na sociedade norte-americana, um pequeno bar sobrevive de shows onde meia dúzia de bêbados entornam seus copos e nem reparam que um blues delicioso é cantado ao vivo.

Essa é a cena de abertura de Honeydripper – do blues ao rock, escrito e dirigido pelo diretor John Sayles (A Casa dos Bebês), que mostra a difícil saga do blues até a inserção da guitarra elétrica na música. Nascia, naquela época, o rock´n roll.

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Com uma atmosfera fiel, o filme se passa na primeira metade do século passado, mostrando uma área rural, onde os negros se revezam entre a exploração pelos brancos nas colheitas de algodão e a busca da vitória por meio da música.

Tyrone “Pinetop” Purvis (Danny Glover) é o dono de um bar, o Honeydripper do título, que sobrevive às custas dos poucos frequentadores que vão observar a cantora Bertha Mae (a cantora profissional Dr. Mable John). Porém, afundado em dívidas, precisa levantar dinheiro para que não perca o espaço, que já é cobiçado pelos ricos da região.

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As jukeboxes atraem os jovens e tomam o espaço dos shows da música negra, com canções de ritmo vertiginoso e percussão eletrificada, com a música country precedendo o futuro rock.

Nesse meio tempo, Pinetop anuncia que o famoso guitarrista Guitar Sam fará uma apresentação no local, que lotaria o bar e o salvaria das inúmeras dívidas. O músico não comparece, deixando o dono do Honeydripper desesperado.

A fé dos personagens é representada pela música gospel, que permeia grande parte do filme, especialmente na emocionante Delilah (Lisa Gay Hamilton), esposa de Pinetop.

Essa metamorfose musical ganha força com a chegada de Sonny Blake (o ótimo músico Gary Clark Jr., em sua estreia nos cinemas), um músico andarilho que chega à cidade para divulgar sua música. O que ninguém sabe é que Sonny conhece muito bem aquele “violão elétrico” chamado guitarra e poderá ser a salvação do Honeydripper.

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Ganhador do prêmio de Melhor Roteiro no Festival de San Sebastián 2007 (Espanha), Honeydripper – do blues ao rock defende com sinceridade a cultura negra e os desafios enfrentados quando a sociedade proibia entrada de negros em certos lugares e essas pessoas encontravam na música e na religião as formas de suportar o preconceito. Nem alguns estereótipos prejudicam o filme, que mostra bem a malandragem necessária do negro para sobreviver, com sua linguagem e trejeitos próprios, que os caracterizam até os dias de hoje.

A  ótima fotografia e a cuidadosa direção de arte dão o clima necessário da época, contribuídas pela excelente trilha sonora, com músicas originais e outras criadas especialmente para o filme. Romantizado para não pecar pelo didatismo, Honeydripper – do blues ao rock agrada aos fãs de uma boa música, seja ela blues ou rock. Uma linguagem universal que já disse – e ainda tem – muito a dizer. Merece ser descoberto.

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