No final dos anos 70, a religiosa e intolerante Mary Griffith (Sigourney Weaver, ótima) sofre ao descobrir que seu filho mais novo, Bobby (Ryan Kelley) é homossexual. Pregando trechos da Bíblia e buscando uma forma de “cura”, ela acaba criando um ambiente mais que desfavorável para o filho, que sofre com o preconceito e a hostilidade dentro da própria casa. Sozinho e sentindo-se culpado de que sua homossexualidade fosse um pecado mortal aos olhos da Igreja, Bobby Griffith se mata, fazendo com que sua família comece a questionar a homossexualidade em uma época na qual o assunto era muito mais delicado, especialmente quando surgia a AIDS (considerada, na época, a “doença gay”).

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Baseado em uma história real, Prayers for Bobby é baseado no livro homônimo de Leroy Aarons, que contou com a ajuda da própria Mary Griffith e dos escritos do diário do jovem, morto aos 20 anos de idade e que colaborou para que sua mãe se tornasse uma das maiores ativistas pelos direitos dos homossexuais nos EUA.

Dirigido com delicadeza e de forma dinâmica por Russell Mulcahy (de Highlander e Resident Evil 3), o filme traça um perfil do jovem Bobby desde o início, quando surgia naturalmente o seu interesse por garotos. A homossexualidade vai sendo descoberta com dúvidas, medo e apreensão dentro de um ambiente extremamente religioso e repressor, que faz com que ele não possa desabafar suas angústias.

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Em um diário, Bobby descreve seus pensamentos, ao mesmo tempo em que entra em conflito com a família, especialmente com a mãe. Bilhetes com mensagens religiosas espalhadas pela casa, terapias de “cura” e negação da orientação sexual fazem parte do dia a dia do jovem.

Em uma época que a sociedade era muito mais intolerante e até os próprios livros consideravam a homossexuais como portadores de transtornos psiquiátricos (esquizofrenia, por exemplo) e um perigo à sociedade, Mary Griffith acredita que pode trazer o filho de volta à vida “sem pecado” por meio de orações e ocultação do problema.

Cansado do despotismo, Bobby muda-se para Portland e encontra na prima Jeanette (Rebecca Louise Miller) e em David (Scott Bailey) o apoio que faltava dentro de casa. Porém, carente do apoio da família e depressivo, Bobby se joga de uma ponte no ano de 1982, deixando a família em frangalhos.

Diante da tragédia, Mary vai em busca de informações sobre um grupo que ela sempre acusou como doente e pecador e, nesta jornada de culpa e arrependimento, observa como seu fanatismo religioso foi capaz de cegá-la e contribuiu para a perda do filho. Engaja-se, então, na P-FLAG (Associação de Pais, Familiares e Amigos de Lésbicas e Gays), tentando superar a perda de Bobby e contribuindo para que outros jovens não tenham o mesmo destino.

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Depois de Milk (vencedor dos Oscar de melhor ator para Sean Penn e melhor roteiro original), Prayers for Bobby é outro bom exemplo da intolerância religiosa (sempre ela, né?) imposta aos homossexuais nos anos 70 e 80. Diferente de Milk, o filme foca na relação em família que é, em primeira instância, onde qualquer jovem procura o primeiro apoio quando descobre sua atração pelo mesmo sexo. No caso de Bobby, as tendências suicidas já se manifestam desde o início de sua descoberta e que são intensificadas com a intolerância familiar.

Bem interpretado, Sigourney Weaver emociona com seu discurso final e sua marcha pelas ruas de São Francisco em 1984, que reunia um (ainda) pequeno grupo de ativistas. E a marcha continua até hoje. Menos penosa como a de Bobby e de Mary Griffith, talvez. Mas ainda é uma marcha que vai perdurar, acredito, por alguns longos anos. Infelizmente.

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