Spike Lee sempre foi um diretor preocupado com a questão do preconceito racial em seus filmes. O diretor afro-americano, que dirigiu o ótimo Faça a coisa certa (1989), além do suspense O plano perfeito (2006), levou às telas o drama Milagre em Sta Anna, baseado no romance homônimo de James McBride, que também assina o roteiro.

O filme começa quando Hector Negron (Laz Alonso) comete um assassinato de forma fria em uma noite do ano de 1983, no Harlem. Um jornalista novato (Joseph Gordon-Levitt) se encarrega de entrevistar Hector para descobrir os motivos que o levaram a cometer o crime.

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Baseado em uma história real, o filme conta, em forma de flashbacks, a trajetória de quatro militares da 92ª Divisão de Infantaria que ficaram encurralados em uma vila da Toscana após salvarem um garoto italiano durante a 2ª Guerra Mundial.

O então jovem Hector Negron, junto com Bishop Cummings (Michael Ealy), Aubrey Stamps (Derek Luke) e Samuel Train (Omar Benson Miller) desenvolvem um convívio com os italianos, que incluem o menino Ângelo (Matteo Sciabordi) e a bela Renata (Valentina Cervi). Alternando entre dramáticos momentos da guerra e as diversas passagens místicas do longa, o “milagre” do título se sustenta no menino Ângelo e em uma relíquia encontrada por Train, que desenvolve um amor quase paternal pelo garoto.

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Bem dirigido e conduzido por Spike Lee em suas duas horas e quarenta minutos, o filme pode tornar-se cansativo àqueles que não são fãs de filmes de guerra, especialmente pelo tom onírico do filme em certas partes.

Porém, o diretor conduz muito bem as cenas brutais nos campos de guerrilha, assim como nos diálogos dos personagens, que entram na questão do uso de militares negros pelo governo norte-americano, quando o preconceito racial ainda era fortíssimo no país. Ou seja, compensa lutar por um país que não lhe dá valor?

A bonita fotografia que valoriza a paisagem italiana e a câmera sempre bem posicionada fazem do filme um bom espetáculo, apesar dos certos clichês do gênero, como o nazista bonzinho, o amor impossível por uma moradora local e o personagem traidor.

MIRACLE AT ST. ANNA

Certas situações “milagrosas” podem incomodar os mais céticos que podem esperar um filme mais realista, mas Spike Lee romantizou um massacre ocorrido em Sant’Anna de Stazzema. No dia 12 de agosto de 1944, mais de quinhentas pessoas foram fuziladas e depois queimadas em frente à igreja italiana de Sant’Anna. Mulheres e crianças estavam entre os que foram brutalmente mortos pelos nazistas, deixando uma ferida lembrada pelo povo italiano até hoje.

Falado em inglês, alemão e italiano, o filme tem um epílogo assumidamente lacrimoso que explica o “milagre” do título e dá toda a magia final ao filme, mas não deixa de ser interessante.

 

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