A variedade de fobias existentes chega a ser algo incalculável. Elas podem surgir desde medos físicos de animais, como ratos e cobras, ou de sensações fisiológicas, como medo de altura e de lugares fechados. Existem até aquelas que envolvem medos que outras pessoas custam a acreditar, como de botões e trabalho.

O diretor Kiko Goifman uniu-se ao especialista francês em Cinema Jean Claude Bernardet para fazer um filme, no mínimo, polêmico. Filmefobia transita entre a ficção e o documentário para mostrar esse medo patológico nos mais diversos personagens. Não se trata de um estudo documental, como tratamentos médicos ou superação nem, muito menos, de uma ficção que nos leva a conhecer a fundo a influência desses transtornos. Filmefobia coloca tais pessoas frente a frente com seus maiores pavores de uma forma, digamos, impressionante.

filmefobia_2008_nota

Misturando fóbicos reais, atores e atores que possuem fobias, o longa nos faz transitar durante 80 minutos no pânico – real e imaginário – desses personagens. A questão é levada tão a fundo que não conseguimos distinguir quando o medo é real ou não.

Ao trabalhar com a ideia de making of de um documentário fictício, Gofman e sua equipe técnica utilizam os mais diversos aparatos e engenhocas para aprisionar os personagens e fazer com que eles tenham um contato (quase) direto com suas fobias. De forma intencionalmente experimental, os técnicos aparecem frente às câmeras preparando as “vítimas”, enquanto a fotógrafa Cris Bierrenbach registra todas as experiências e Lívio Tragtenberg cria a trilha do filme ao vivo, ora criando sons perturbadores ora improvisando com os mais diversos materiais para aumentar a tensão do filme.

filmefobia3_interna

Pontuando as cenas – que envolvem gritos, gemidos, suor e muitas lágrimas -, o filme é abre espaço para discussões entre a equipe técnica e dois convidados especiais: o psicanalista Ariel Bogochvol e o cineasta José Mojica Marins, o Zé do Caixão. O especialista comenta o que leva algumas pessoas a terem tais distúrbios, enquanto o mestre do terror pontua comentários ao ver a reação das pessoas. O que é medo real? O que é atuação? Para o espectador, fica difícil distinguir.

Muitas cenas parecem beirar o sadismo, o que gerou polêmicas no Festival de Brasília, quando foi exibido. Apesar disso, não foi o suficiente para desagradar ao público e crítica. Levou cinco candangos (Melhor Filme do Júri Oficial, Melhor Filme da Crítica, Melhor Montagem, Melhor Ator e Melhor Direção de Arte), além de prêmios internacionais como o Cinemart Film Market, no Roterdam Film Festival, na Holanda.

Mas a discussão gerada vai além da tela de cinema. Levar o medo à sala escura, segundo Zé do Caixão, é como duplicar essa sensação de terror. E nos perguntamos: por que aqueles personagens aceitaram enfrentar seus medos diante das câmeras? Talvez seja um prazer inconsciente diante de seus medos, exibicionismo, superação ou, até mesmo, buscar uma ajuda para dividir esse caos psicológico. Cada espectador que tire suas conclusões.

15_MHG_cult_filmefobia

Em certo momento, o próprio diretor Kiko Gofman sai de trás das câmeras e torna-se personagem ao enfrentar o medo de sangue. De modo, no mínimo, chocante participa de um surpreendente jogo de pôquer que o leva a necessitar da equipe médica, sempre presente no set de filmagem.

Perturbador e chocante em muitos momentos, Filmefobia incomoda por nos confrontar com nossos medos, mesmo que não sejam consideradas fobias.  Impossível assistir ao filme e sair do cinema indiferente, pois lembramos de nossos medos e lembramos que é ele que nos mantém vivos. E na sala escura, seja ficção ou realidade, confrontamos nosso lado vulnerável de forma crua. Afinal, como diz o diretor: “A única imagem autêntica hoje em dia é a de um ser humano em contato com a sua própria fobia”.

Anúncios