De um ponto de vista pessoal, acredito que ainda ouviremos falar muito de Rebecca Miller. Filha do dramaturgo Arthur Miller (que foi casado com a deusa Marilyn Monroe), Rebecca passou por um período como atriz mas decidiu, em 2003, seguir os passos do pai e tornar-se uma escritora. Das páginas de seu mais recente romance A vida íntima de Pippa Lee, a escritora alçou um passo extremamente ousado e decidiu produzir e dirigir o longa metragem homônimo. O roteiro, mais do que óbvio, foi adaptado para o cinema pela própria Miller, afinal os roteiros de seus outros três longas levam sua assinatura: Ângela (1995), O tempo de cada um (2002) e O mundo de Jack e Rose (2005), este cujo papel principal foi personificado por seu marido, Daniel Day-Lewis, com o qual está casada há trezes anos.

Em A vida íntima… acompanhamos a trajetória de Pippa Lee (encarnada brilhantemente por Robin Wright Penn), uma mulher de classe média alta, casada com Herb (Alan Arkin), homem trinta anos mais velho que ela. Considerada um enigma por todos os seus amigos, ela esconde na aparência sensata e polida uma figura de personalidade múltipla e instigante.

Situações do tempo atual levam Pippa Lee a relembrar sua vida, desde o seu inusitado nascimento até a adolescência, quando vamos conhecendo a sua relação com a emblemática e complexa Suky (Maria Bello, ótima), sua mãe. Desse relacionamento dúbio que mistura amor e ódio, chegamos à sua adolescência, que toma corpo na bela Blake Lively (mais conhecida pelo papel de Serena na série de TV Gossip Girl).

Diante dos flashbacks, conhecemos uma mulher de muitas vidas e personalidades, que precisa rever sua trajetória de vida para conseguir fugir dos profundos traumas que afetam sua vida atual. Desde a mãe de personalidade indecifrável, passando pela adolescência imprudente regada a drogas até culminar em seu casamento com Herb, A vida íntima de Pippa Lee parece, em certos momentos, beber da fonte de obras como Beleza Americana (que trazia um personagem frustrado e prestes a explodir) com Os Excêntricos Tenembaums (com seu humor negro ao mostrar de perto as peculiaridades de seus personagens).

Herb, o marido, é um octogenário que tem medo de morrer a qualquer momento, acarretando uma crise em seu casamento; a filha Grace (Zoe Kazan), nutre um ódio inexplicável pela mãe; sua amiga Sandra (Winona Ryder, renascida das trevas) se mostrará uma (quase) inimiga em potencial. Porém, as coisas mudam quando o incompreendido Chris (Keanu Reeves, sempre apático), o filho de sua vizinha, muda-se de volta para a vizinhança. É por meio dele que Pippa observará sua vida de outro modo, fazendo-a repensar seus amores, angústias e sonhos.

Com um humor inteligente, um timing para a comédia surpreendente e uma direção segura, Miller traz uma pequena pérola cinematográfica, com personagens hilários e dramáticos ao mesmo tempo, saltando do drama para a comédia mordaz em questão de segundos e sem ofender o espectador.

A trilha sonora é um espetáculo à parte, bem como a direção de arte que recria, de forma nostálgica, os anos 50 e 70, respectivamente a infância e juventude de Pippa. Porém, o grande trunfo do filme apóia-se, de fato, em seus personagens. Desde participações curtas e marcantes de astros como uma quase irreconhecível (e lésbica) Julianne Moore até a estonteante beleza de Monica Belucci, A vida íntima de Pippa Lee desvenda personagens bizarros carregados de características peculiares e neuróticas comuns a muitos de nós.

Transportando uma espécie de fardo que lhe custou ter deixado para trás Pipa Sarkissiam e se tornado Pippa Lee, ela busca sua redenção entre momentos de contemplação e pura poesia. Delicioso, tornou-se, para mim, uma das maiores surpresas cinematográficas de 2009.

A primeira cena de Partir, mais novo longa de Catherine Corsini (Casadas mas nem tanto, Os Apaixonados) é emblemática: a mulher, deitada na cama ao lado de um homem, está nervosa, tremendo descontroladamente. Em silêncio ela se levanta e vemos o exterior da casa. Ouve-se um tiro. Fade out.

A partir dessa misteriosa cena, acompanhamos os seis meses que precedem a cena de assassinato/suicídio cometido pela personagem Suzanne (Kristin Scott Thomas). Ela é uma inglesa, casada com o bem sucedido francês Samuel (Yvan Attal), que leva uma vida pacata burguesa na França. Fisioterapeuta, ela está prestes a abrir seu consultório na própria casa e contrata o pedreiro espanhol Ivan (Sergi López, o capitão Vidal de O Labirinto do Fauno). Após um acidente com o novo funcionário, ela e Ivan tornam-se muito próximos, o que os levará a tornarem-se amantes.

Não tarda que o caso de infidelidade de Suzanne venha à tona, o que acarretará mudanças drásticas na vida dela, que tem de decidir entre viver no conforto frustrado do casamento ou escolher a vida apaixonada – porém instável – com o ex-presidiário Ivan.

Assim, acompanhamos a preocupação de Suzanne (muitíssimo bem interpretada por Scott Thomas), a sua insegurança e medo, mas que se perde no prazer do proibido quando está com Ivan.

Quase narrado como pequenas esquetes, o filme tem cortes que impedem uma maior dramatização de certas cenas, fazendo com que o espectador não se envolva muito na trama. Mas mesmo assim é possível se emocionar com o esforço de Suzanne em lutar pelo amor que sente por Ivan, especialmente quando, devido aos contatos do influente marido, os dois não conseguem trabalhar e precisam lutar por dinheiro.

Samuel quer o casamento de volta a todo custo e chantageia a esposa, culminando em um turbilhão de ciúmes, ódio e culpa que irá afetar profundamente a vida do trio de personagens, que perdem a cabeça numa situação como essa. O passado de presidiário de Ivan contribui para que Suzanne embarque em uma situação desesperadora, que a levará a cometer uma loucura.

Repleto de clichês, o filme se apóia na bela atuação de Kristin Scott Thomas, que tem se dedicado cada vez mais a papéis europeus, como nos franceses Há tanto tempo que te amo e Seuls Two (ambos de 2008). Além disso, a trilha densa e melancólica, as belas locações francesas e espanholas e as tórridas cenas de sexo entre Kristin e López garantem que o filme não se perca totalmente. Mas nada honra os padrões do cinema francês, que geralmente nos trazem belas pérolas em sua filmografia.

Um professor alcoólatra, politicamente incorreto e frustrado por sua tentativa em vão de se tornar um poeta. Uma jovem e temperamental cabeleireira sedenta por conhecimento e disposta a tudo para entregar-se à Literatura. Está criada a dupla que torna O despertar de Rita um filme emocionante, que foge da pieguice e mostra uma amizade incomum entre Frank Bryant (Michael Caine) e Rita White (Julie Walters).

Produzido em 1983, o filme tem direção de Lewis Gilbert (007 – o espião que me amava), foi indicado a 3 Oscar (melhor ator, atriz e roteiro) e deu o Globo de Ouro e o Bafta aos atores, que estão ótimos em seus papéis.

Muitos filmes já foram feitos – antes e depois de O despertar de Rita – sobre a relação entre professores e alunos, como Ao Mestre com Carinho (1966), Sociedade dos Poetas Mortos (1989), O sorriso de Monalisa (2003), entre tantos outros.

Quando Rita, uma cabeleireira espevitada decide ter aulas sobre literatura com o professor Bryant, ambos nem imaginam que suas vidas estão prestes a mudar, tanto em relação aos estudos como no campo pessoal.

De personalidades opostas, os conflitos logo se tornam uma lição de aprendizado, que fazem com que Rita descubra nos livros uma grande paixão e encontre seu lugar no mundo, sentindo-se “alguém”.

Casada com Denny (Malcolm Douglas), um homem machista e ignorante que luta pela relutância da esposa em dar-lhe um filho, ele é contra os estudos. Ela, porém, quer se descobrir e, com sua inteligência e esforço, fará de tudo para passar nos exames, que são avaliados por um núcleo exigente da universidade.

O filme demonstra a dificuldade de muitas mulheres de estudar, quando antes eram relegadas a serem mães e donas de casa para seus maridos. Então, separada de Denny, Rita fará o possível para dedicar-se à sua grande paixão quando faz uma viagem para a França. Retorna às aulas mais instruída, mas o conflito muda de lado e ela se vê pressionada pelo professor que, ao mesmo tempo que a ajuda, sente-se frustrado por ajudar a desabrochar tão talentosa criatura. É como se ela fosse seu Frankenstein.

Pontuado de cenas dramáticas e bem humoradas, O despertar de Rita traz a áurea de filmes britânicos que lembram os do grupo Monty Python, com seu humor rasgado, irônico e inteligente. Os diálogos, afiados e dinâmicos, ganham logo de cara a simpatia do espectador, com uma Julie Walters irretocável como a sonhadora Rita, enquanto a rabugice de Caine cai como uma luva nessa parceria que fará aflorar em ambos a amizade e despertar aquilo que eles nem sabiam como recuperar: a confiança em si mesmos e o prazer de aprender e ensinar.

entos de contemplação e poesia.

Nos primeiros momentos de 500 dias com ela, o espectador já é avisado: “Essa é a história de um rapaz que conhece uma garota. Mas, devo lhes dizer, isso não é uma história de amor”. O narrador com voz eloquente traça, então, um pequeno perfil dos personagens Tom Hansen (Joseph Gordon-Levitt) e Summer Finn (Zooey Deschanel). Ele, um garoto apaixonado e viciado em músicas românticas britânicas e suas letras melancólicas. Ela, uma garota que, depois da separação dos pais, deixou de acreditar no amor. Está aí a deliciosa – e melancólica – premissa de 500 dias com ela (ou 500 days of Summer, que ganha duplo sentido na versão original).

Dirigido pelo estreante em longas-metragens Marc Webb (que já comandou dezenas de videoclipes musicais, com um currículo em que constam artistas como Maroon Five, Weezer, Lenny Kravitz, Green Day e Regina Spektor), o filme é como se fosse composto de curtas histórias. Nada mais natural que Webb introduza tal experiência em sua estreia nas telonas, com um resultado extremamente satisfatório, contando, em um vai e vem temporal, a história dessa relação entre o romântico escritor de cartões comemorativos Tom e a colega de trabalho Summer, assistente de seu chefe.

Com inserções animadas e uma visualização dos sentimentos do personagem masculino, 500 dias com ela conta, com delicadeza e sinceridade, o relacionamento do casal. Tragicômico em certos momentos é interessante acompanhar Tom e Summer, que podem ter sido feitos um para o outro: a diferença é que ele acredita ser ela a mulher da sua vida mas, para ela, Tom pode não ser o homem de sua vida.

Empáticos e carismáticos, Joseph Gordon-Levitt (da série 3rd rock from the Sun e 10 coisas que eu odeio em você) e a apaixonante Zooey Deschanel (Quase famosos e vocalista da banda She and Him), convencem; e os espectadores torcem para que o final seja como, geralmente, se espera de uma comédia romântica: um viveram-felizes-para-sempre. A dupla, que já havia trabalhado junta no pouco conhecido Maníaco (2001), retorna às telas para contar uma história que conflita o amor romântico com o amor real.

Acompanhamos, em uma narrativa não linear, as idas e vindas de Tom e Summer, em situações que se sustentam no talento dos jovens atores, no ótimo roteiro e na primorosa trilha sonora pop, que vai de Smiths, passa pela primeira-dama francesa Carla Bruni, estende-se até Regina Spektor e vai até She and Him, a já citada banda de Zooey.

Em certos momentos, a perspectiva de Tom é colocada na tela, com originalidade e sutileza, como no momento em que a tela se divide em duas ao mostrar, simultaneamente, a mesma situação sob dois prismas: a realidade e a expectativa. E é nessa sacada de conhecer-o-que-deu-errado versus o-que-poderia-ter-dado-certo que o diretor tem seu ponto alto, sustentando-se em uma perfeição chamada Zooey Deschanel, que esbanja beleza, delicadeza e sensualidade, com uma personagem de gosto musical e artístico deliciosos. Enfim, o tipo de garota que qualquer garoto se apaixonaria.

Impossível não se identificar, especialmente, com Tom, que não entende alguém que não consegue se apaixonar nem render-se a um relacionamento. Seus amigos, personificados em secundários curiosos, lhe ajudarão a entender e agir com esse enigma chamado Summer Finn.

O final abrupto, porém esperançoso, pode quebrar um pouco o ritmo e magia do filme, mas dará um sorriso amarelo de consolo aos espectadores mais românticos. Mesmo assim, 500 dias com ela é uma surpresa ao falar de amor na juventude com seriedade, bem longe dos moldes superficiais nas quais muitos têm retratado.

Baseado em duas histórias reais, o longa Julie e Julia tem como premissa os livros My life in France (escrito por Julia Child) e Julie e Julia (da autora Julie Powell). Dirigido e com reitor adaptado para as telas pela sempre esperançosa diretora Norah Ephron (Sintonia de amor e Harry e Sally – feitos um para o outro), o filme traz a história real dessas duas mulheres, em um entrelaçado de personagens separadas pelo tempo.

Contada de forma simultânea, porém com personagens separados cronologicamente – recurso utilizado no esplendoroso As horas – o filme traz a personagem Julie Powell (Amy Adams, melhor a cada dia), uma jovem casada com Eric (Chris Messina), que vive na conturbada Nova York de 2002, ainda em frangalhos pós 11/09. Ex-editora de uma conceituada revista, Julie trabalha como atendente telefônica da empresa responsável pela construção do memorial em homenagem aos mortos nos ataques ao World Trade Center. Melancólica e sem expectativas de vida, ela decide cria um blog em que relembra as famosas receitas francesas da cozinheira norte-americana Julia Child (Meryl Streep, adorável como nunca).

Assim, acompanhamos o desenvolvimento e reconstrução da vida de Julie enquanto observamos a vida de Julia e seu marido, o embaixador Paul Child (Stanley Tucci). Com um amor incondicional à França, Julia começa, na década de 50, a estudar a culinária francesa com o objetivo de escrever um livro sobre o tema direcionado para americanos. E assim vamos acompanhando a vida de Julie, que vai voltando a sentir o prazer de viver graças às receitas de Julia enquanto decide criar um blog com o objetivo de recriar (e escrever sobre) 524 receitas num período de 365 dias.

Streep e Tucci, que já haviam trabalhado juntos em O diabo veste Prada, trazem personagens adoráveis, bem como a jovem Amy Adams, que mistura doçura e humor na medida certa em sua personagem, que vai da depressão iminente até um estado de esperança emocionante.

Um ótimo feel-good-movie, Julie e Julia preza pela bela direção de arte e pelo bem cuidado figurino que recria os anos 50 de Julia Child, encarnada em uma Meryl Streep adorável, sorridente, única. Na verdade, todo o elenco está muito à vontade, com uma simpatia natural e extremamente convincente, dando o clima perfeito de amor e felicidade que as personagens compartilham com seus maridos.

Lembrando outros filmes que utilizam a temática culinária, como A festa de Babette e Como água para chocolate, Julie e Julia ganhou forma em um filme delicioso, no sentido literal da palavra. Surpreendente e para assistir com um sorriso no rosto e muita água na boca.

Eytan Fox, diretor israelense naturalizado norte-americano, é um sujeito ousado. Depois de dirigir Delicada Relação (2002), que contava a história de amor entre dois soldados na fronteira do Líbano com Israel, Fox retornou ao tema homossexualidade com The Bubble (2006).

Contando a história de três jovens israelenses que moram em Tel Aviv, segunda maior cidade de Israel, acompanhamos a história do vendedor de discos Noam (Ohad Knoller, ator que faz um dos soldados em Delicada Relação) , o gerente de um café Yali (Alon Friedman) e Lulu (Daniela Virtzer), uma vendedora de cosméticos. Dividindo um apartamento, o trio discute sexo e mostram nessa bolha chamada Tel Aviv, mais liberal e jovem.

Desconectada, de certa forma, dos conflitos políticos e religiosos que assolam o país, Tel Aviv é “a bolha” que dá titulo ao filme. Noam, que já prestou serviços ao Exército, conhece ao acaso o palestino Ashraf (Yousef ‘Joe’ Sweid) e a paixão torna-se inevitável. Parte daí o enredo de um filme que tinha tudo para resvalar no sentimentalismo barato ao contar a história de amor entre um palestino e um israelense, mas que surpreende com seu enredo sério, sem tornar-se necessariamente um documento puramente político.

Com estilo documental semelhante a Delicada Relação, o filme trata, ainda, da influência norte-americana no país e mostra um discurso aberto e descontraído sobre a homossexualidade, o amor e os conflitos que se passam na região, todos eles entrelaçados em suas vidas, com prazeres, consequências e sonhos.

Praticamente dividido em duas partes, The Bubble conta, num primeiro momento, essa alegria de se viver em Tel Aviv, “fechando os olhos” para os problemas. Porém, a segunda parte, mais carregada dramaticamente, se passa a partir dos momentos em que os conflitos invadem Tel Aviv e torna a relação entre palestinos e israelenses tensa dentro da tal “bolha”. Além disso, a homossexualidade de Schraf é descoberta por sua família, o que abala o relacionamento do palestino com o israelense Noam.

Com cenas eróticas ousadas e nudez, o filme se sustenta pelo ótimo roteiro, uma trilha deliciosa e carisma dos personagens. A beleza da temperamental Lulu, interpretada pela bela Daniela Virtzer, também é outro ponto forte do filme. É a presença feminina por excelência no longa, com seus ideais fincados no que ela acredita, fugindo do estigma de subestimação da mulher no país.

Com inserções de momentos da infância de Noam e Schraf na capital Jerusalém, o filme emociona sem ser apelativo, mostrando um conflito de tradições familiares e tragédia que cercam a vida dessas pessoas. É interessante, mesmo que chocante, observar como a vida de cidadãos comuns pode ser afetada neste conflito que não tem previsão de terminar.

O final, chocante e surpreendente, não dá ao espectador a chance de assimilar o que acabou de ver. Fica a impressionante sensação de vazio e tristeza que pode ressoar momentos depois que o filme termina. E merece ser conferido.

Vencedor do Oscar de Roteiro Original e de Melhor Curta Metragem em Cannes em 1957, O Balão Vermelho (Le Ballon Rouge, 1956) consegue, em pouco mais de 30 minutos, envolver o espectador de uma forma inexplicável.

Dirigido e roteirizado pelo francês Albert Lamorisse, o filme conta a história do menino Bastian (Pascal Lamorisse, filho do diretor), que encontra por acaso um balão vermelho a caminho da escola.

Mostrando uma França suja, cinzenta e em ruías, o filme acompanha a dedicação do menino com seu reluzente balão vermelho pela cidade. A caminho da escola, podemos observar os olhos dos que passam e observam a única coisa colorida da cidade, em um destaque tão contrastante que emociona e choca. Afinal, vermelho pode significar muitas coisas: pecado, sangue, vida. E são coisas que a sociedade da época (e de hoje) procura esconder debaixo de suas vidas sem cor.

Com uma câmera observadora recheada de planos longos temos, muitas vezes, a impressão de estarmos diante de um belo quadro ou uma esplêndida fotografia, favorecida pela emocionante trilha sonora. E o balão ganha vida – e dá vida ao menino Bastian. Com vida própria, o balão foge, volta, voa para onde quer, tudo com efeitos especiais muito bem realizados para a época.

Quando a inveja, a maldade e a incompreensão tomam conta do filme, Bastian precisa defender seu balão a todo custo das garras das outras crianças, que querem roubar e/ou destruir seu objeto de desejo.

Com ternura no olhar e muita esperteza, o garoto defende o símbolo de sua transgressão ao máximo. É impossível não abrir um largo sorriso quando o menino passa ao lado de uma menina com um balão azul e os balões fogem de suas mãos e se seguem. Simples e poético.

O balão vermelho, após incessante fuga é, finalmente, destruído pelos outros garotos. Eis que o maravilhoso final toma forma: todos os balões da cidade seguem, como em procissão, ao encontro de Bastian. Das mais diversas cores, o céu da cidade se colore de vermelho, amarelo, verde e azul, dando ao menino a oportunidade de voar. Extremamente poético, O Balão Vermelho era um projeto extremamente pessoal de Albert Lamorisse, um diretor obcecado pelas alturas. Paixão que inclusive lhe tirou a vida quando, aos 48 anos, o helicóptero em que filmava um documentário caiu no Irã, em 1970.

Nos anos 40, a gravadora Chess Records deu o que falar. Localizada em Chicago, foi palco de alguns dos mais influentes artistas de blues da época e ficou conhecida como Cadillac Records por dar, como forma de pagamento a seus artistas, o tão sonhado carro que era sonho de consumo de dez entre dez norte-americanos.

Seu dono, Leonard/Len Chess, era um ambicioso empresário que via surgirem artistas cada vez mais talentosos que dominavam as rádios do país, com nomes como Muddy Waters, Little Walter, Etta James, Howlin´ Wolf, Johnny “Guitar” Watson e Chuck Berry.

Dirigido e roteirizado por Darnell Martin (que já havia feito Assim te quero meu amor e alguns episódios das séries Lei e Ordem e Grey´s Anatomy), Cadillac Records mostra, cronologicamente, a criação, auge e queda de uma das maiores gravadoras dos EUA. Com produção da Sony Music, o filme é baseado em uma história real que durou dos anos 40 até meados dos anos 60, em uma história de sucesso, conflitos, poder e drogas.

Len Chess (Adrien Brody) decide abrir um bar em Chicago, reduto de grande parte da população negra. No bar Macomba tocam diversos artistas negros, em que o blues é o principal ritmo. Lá ele conhece o excepcional Muddy Waters (Jeffrey Wright, sempre sublime) e consegue que Muddy e nomes de peso como o gaitista temperamental Little Walter (Columbus Short) e o cantor e compositor Willie Dixon (Cedric the Entertainer) dêem os primeiros passos rumo ao sucesso.

Porém, após um incêndio no clube, Len decide usar o dinheiro da indenização para abrir uma gravadora: nascia, então, a Chess Records.
O filme é narrado pelo ponto de vista de Willie Dixon, que conta os primeiros artistas a serem gravados e tocados na rádio, além do surgimento do rock´n roll. É emocionante ver a primeira vez que Muddy Waters ouve a própria música em uma vitrola: “É como se eu estivesse encontrando comigo pela primeira vez”, declara.

Com contextos da época, como racismo e o preconceito contra os músicos (sempre considerados bêbados, promíscuos e restritamente negros), Cadillac Records preza pela trilha sonora estupenda recheada de versões originais e outras cantadas pelos próprios atores, e pela bem cuidada direção de arte, que recria Chicago nos meados do século passado.

Uma grande surpresa, também, é a participação de Beyoncé Knowles – também produtora executiva do filme – no papel de Etta James, a diva mestiça que fez crescer a taxa de natalidade do mundo nos anos 60 com seu maior hit: “At last”.

Mas o foco do filme é, de fato, Muddy Waters, considerado o pai do Chicago Blues, que mistura blues com instrumentos elétricos, bateria, piano e instrumentos de sopro, como gaita e saxofone. O estilo foi seguido por B.B. King, que considera Muddy “o chefe de Chicago”.

Claro que, como toda história de sucesso, o lado obscuro vem à tona, com brigas, conflitos artísticos e problemas pessoais, como Etta James e Little Walter, que estiveram envolvidos com drogas.

Nos anos 60 surge o furacão Chuck Berry (muito bem interpretado pelo rapper e ator Mos Def), que com seu rock´n roll empolgante subiu nas paradas de sucesso e desbancou financeiramente os grandes nomes do blues. Isso ainda rendia muito à Chess Records, adiando o fim da gravadora, que já passava por maus bocados com a ascenção do rock´n roll, com nomes como Rolling Stones e o próprio Elvis Presley.

Porém, com a prisão de Berry por causa de uma adolescente de 16 anos, a gravadora começa a afundar de vez e nos relembra a pergunta que nunca quis quer calar: se Chuck Berry não estivesse preso durante a ascensão de Elvis Presley, o charmoso e talentoso topetudo se tornaria o Rei do Rock?

A Chess Records, infelizmente, fecha suas portas e os músicos conseguem evitar o anonimato graças aos novos nomes do rock, como Rolling Stones (cujo nome da banda foi tirado da letra de uma das músicas do próprio Muddy Waters). E fica a esperança de que os grandes nomes da música sejam lembrados pelos seus pupilos, que foram influenciados por uma música que deixou o status de “música de raça negra” para ganhar seu espaço na História.

Após o sucesso de Hedwig – Ódio, Amor e Traição (2001), destaque no cinema alternativo, o diretor, produtor, ator e roteirista John Cameron Mitchell lançou seu segundo longa metragem, Shortbus (2006).
Nesse mais recente trabalho (seu próximo filme, Rabbit Hole, tem estreia prevista para 2010), Mitchell foca, mais uma vez, na solidão dos personagens.

Acompanhamos a história do casal gay: o ex-ator Jamie (PJ DeBoy) e o ex-michê James   (Paul Dawson); a terapeuta de casais Sofia ( Sook-Yin Lee); e a fotógrafa Severin (Lindsay Beamish), que trabalha entretendo clientes com sessões de sadomasoquismo.

Quando James, um salva-vidas em depressão, decide com seu companheiro procurar ajuda com a terapeuta Sofia durante uma crise conjugal, a vida deles – e de tantos outros personagens – passarão por mudanças que darão cabo para um (auto) conhecimento do prazer (sexual ou não), da solidão e do amor.

Sofia é uma frígida, que vive uma mentira com seu marido Rob (Raphael Barker) e, após uma indicação dos Jamies, conhece Shortbus, um local destinado à busca pelo prazer, onde orgias acontecem o tempo todo. Lá ela conhecerá a problemática Severin, que tem uma dificuldade descomunal de interagir com outras pessoas.

Dentro de Shortbus, ainda é possível encontrar o romântico Ceth (o cantor-ator Jay Branann), que se envolve com o casal Jamie, que é vigiado 24 hs por dia por Caleb, o perseguidor voyeur do casal, que utiliza seu tempo livre para esmiuçar a vida dos dois.

E é nesse caldeirão de sentimentos, medos e inseguranças que Shortbus ganha seu mérito de retrato de uma sociedade pós-moderna, em que o sexo se tornou o conservadorismo e o amor ganhou status de transgressão.

Fincando suas raízes no Cinema Extremo que teve seu auge na década de 70, com liberação sexual e individual, o filme tem uma direção de arte que preza pela marginalidade, arte, urbanismo e cultura, expondo ao máximo os males de uma sociedade perdida de si mesma.

As cenas de sexo explícito com direito a auto-felação, voyeurismo e sadomasoquismo podem chocar os mais puritanos, mas os diálogos afiados (de autoria do próprio diretor) podem incomodar ainda mais, graças à ótima estória e ao elenco jovem e talentoso.

Com personagens que buscam o prazer, a satisfação, Shortbus tem um tom melancólico e ao mesmo tempo passeia pelo humor negro, com um paradoxo que não prejudica o seu resultado. Pelo contrário, ajuda a criar ainda mais essa relação de uso do sexo como tentativa de preenchimento de um vazio que recai sobre diversos fatores: o amor, a amizade, o diálogo, o medo, o encontrar-se no outro desconhecido como alguém que serve de consolo para dividir as angústias de uma sociedade cada vez mais individualista e egoísta.

Com uma trilha que cai como uma luva em todos os momentos, a solidão é tema recorrente no filme, alternando momentos de intenso teor erótico, mas abrindo espaço para a poesia e a contemplação filosófica de compreender a si mesmo em uma megalópole.

Um intrigante simbolismo ronda o filme todo: em momentos de catarse de seus personagens – especialmente a pré-orgásmica Sofia – a energia elétrica no espaço em que se passa o filme. E sustentado nesse simbolismo, Shortbus nos entrega um final esperançoso, dando-nos a sensação de que é possível enfrentar os medos e encontrar o prazer, seja ele em qual forma for.

O foco dos filmes de Pedro Almodóvar sempre foi as mulheres, com uma rara exceção em Fale com Ela, quando contou o amor de dois homens por uma toureira e uma bailarina, ambas em coma. Seu mais recente trabalho, Abraços partidos, traz pela quarta vez sua musa dos últimos anos, Penélope Cruz, em um excelente retrato do universo masculino em uma trama que envolve traição, ciúmes, vingança, cinema e, claro, muito humor negro.

2008: Harry Caine (Lluís Homar) é um roteirista cego que relembra que teve, no passado, um amor proibido com a atriz Madalena (Penélope Cruz), casada com o poderoso Ernesto Martel (José Luis Gómez). No passado, Harry foi Mateo Blanco, que precisa enfrentar o passado e, assim, poder seguir adiante.

Com uma premissa simples, Almodóvar – como sempre – nos surpreende com uma história repleta de reviravoltas, humor e sequências de encher os olhos. Com um vai e vem cronológico, Abraços partidos vai da época atual até 1992 (quando Ernesto conhece Lena) e 1994 (quando Lena e Mateo/Harry se apaixonam), com espaço para planos curtos e sequenciais, sempre com o estilo característico de Almodóvar, mas que nunca deixa de ser inovador e surpreendente.

Seria redundância frisar que o clima novelesco de folhetim está presente, bem como a fotografia de cores intensas e quentes. Estamos o tempo todo esperando pelo desfecho dessa história, que mistura elementos noir com muito suspense, humor e sensualidade.

Penélope Cruz está linda como nunca e Almodóvar sabe disso, fazendo com que a câmera use e abuse de sua beleza e talento para contar uma história de amor, traição e suspense que jamais perde o ritmo. Assim como fez François Truffaut em A Noite Americana, o diretor espanhol declara seu amor ao cinema, mostrando a história de amor entre um roteirista e uma atriz, remetendo Cruz, em algumas cenas, à eterna Audrey Hepburn.

E as referências não param por aí: é citado o filme Ascensor para o cadafalso, com Jeanne Moureau, em que a personagem, com a ajuda do amante, pretende se livrar do marido.

Com humor sutil, Almodóvar jamais deixa o escrachado de lado, especialmente quando aparece Chon (a hilária atriz Carmen Machi), como uma conselheira antropófaga do filme em que Lena participa.

Atentem para a cena em que Ernesto descobre a traição de Lena graças à ajuda de uma leitora de lábios e do filho, que a filma em diversos lugares. Então, ao declarar seu amor por Mateo/Harry, Lena diz as exatas palavras que pronuncia na tela, como se dublasse a Ernesto o que diz no vídeo. Inesquecível, como toda a obra de Pedro Almodóvar.

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