Nos dias 16 e 17 de julho de 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, a França manchou, para sempre, o seu nome na história mundial. Durante a ocupação nazista no País, a polícia parisiense realizou uma prisão em massa de judeus, na qual 13 mil de pessoas – maioria mulheres e crianças – foram enviados para o Velódromo d’Hiver (também conhecido como Velódromo de Inverno).

Sem qualquer assistência com relação à comida, água e higiene, permaneceram ali por uma semana, até serem enviados ao lendário campo de concentração de Auschwitz. O episódio permaneceu como um tabu na França, na qual muitos cidadãos nem sabiam da existência do fato, tamanha era a vergonha que ele provocou (e ainda provoca). Porém, no dia 16 de julho de 1995, no aniversário de 53 anos do acontecimento, o então presidente Jacques Chirac, fez um memorável discurso, onde revelou: “Aqueles dias negros serão, para sempre, uma mancha em nossa história”.


Entre essas pessoas que nem faziam ideia do Velódromo d’Hiver estava Tatiana de Rosnay que, sensibilizada com a história, escreveu A Chave de Sara. A obra, lançada em 2008, se tornou um best seller na França e rendeu o filme homônimo. Dirigido por Gilles Paquet-Brenner, que adaptou a obra a quatro mãos junto a Serge Joncour, A Chave de Sarah (Elle s’appelait Sarah, França, 2010) conta a história da jornalista Júlia (Kristin Scott Thomas, indicada ao César pelo papel) que, incumbida de realizar uma matéria sobre o tema, descobre estar prestes a morar no apartamento que pertenceu à família Starzynski, uma das muitas famílias desfeitas pelo trágico episódio. Embora não seja inspirada em personagens reais, livro e filme se baseiam na história real do episódio.

Quando são surpreendidos pela polícia para serem levados, a pequena Sarah Starzynski (Mélusine Mayance) tranca seu irmão mais novo, Michel (Paul Mercier) em um esconderijo da casa e, acreditando que a prisão não seria longa, promete ao garoto que voltaria para buscá-lo. Pronto, está lançado um filme que, apesar do tema batido da Segunda Guerra, não cai no lugar comum e nos entrega um filme comovente e muito bem feito. Sou obrigado a confessar que não tive contato com o livro, portanto, não tenho repertório para comparar a transposição para o cinema de sua obra original.


Alternando os tempos passado e presente, A Chave de Sarah acompanha o martírio de Sarah em tentar fugir do campo e resgatar o irmão, por mais que isto lhe custe a própria vida. No presente, Julia se envolve com essa história de forma que irá mudar, para sempre, sua própria família, especialmente quando descobre que há uma conexão do sogro com o passado.

Falado em francês e inglês, acompanhamos a vida das pessoas que conviveram com Sarah e seu destino quando é separada da mãe em um campo de transição antes de ser levada a Auschwitz (em uma das mais cruéis e inesquecíveis cenas do filme). Nesse entrelaçamento do passar dos anos, Julia vai seguindo o rastro do destino tomado pela menina após a fuga do campo para, com a chave em mãos, retirar o irmão do esconderijo.

Com um ritmo que não se perde em nenhum momento, a história é emocionante por si só, sem apelar para o melodrama rasteiro. Bem amarrado, com roteiro competente e uma direção segura, reforçada pela interpretação dos personagens, temos nos olhos expressivos da menina Mélusine Mayance a carga dramática necessária em uma situação como aquela.


Mesmo com alguns clichês previsíveis do gênero, como a presença do militar nazista que se sensibiliza, A Chave de Sarah traz um frescor novo à expressão “esperança convivendo junto ao caos”, sempre presente nos filmes de guerra, onde a bondade pode estar logo à frente, capaz de direcionar e acalentar após o terror. Além disso, quando tomamos o individual ao invés do todo, percebemos como a crueldade do nazismo não afetou milhões de pessoas, mas, sim, milhões de famílias, sonhos, amores, enfim, seres humanos, cada qual com sua particularidade e histórico de vida.

O filme, que não se perde em nenhum momento tem, ainda, a participação de Aidan Quinn (com um personagem crucial à trama) e da quase centenária Gisele Casadesus (de Minhas Tardes com Margueritte). O curioso, também, é que A Chave de Sarah mostra, mesmo que de forma leve, como o Velódromo d’Hiver afeta os personagens do presente. Tal enfoque poderia ser mais político, como Entre os Muros da Escola (2008) tratou com relação à xenofobia que assola a França nos últimos anos. No entanto,  A Chave de Sarah preferiu dar atenção à dramática história de uma personagem sofrida e consumida impiedosamente pela culpa. E o resultado, de fato, emociona e agrada.

Os filmes de Lars von Trier deveriam conter uma placa de “Cuidado” ao lado da sinopse ou na exibição de cada trailer. Cada vez mais angustiante em seus longas, o diretor dinamarquês só se supera a cada filme, não exatamente no quesito qualidade, mas na questão de incomodar a fundo seu público fiel, espécie de masoquistas que, a cada novo lançamento, se embrenham em seu universo tão particular e sobrecarregado.


Depois de Dançando no Escuro (2000), o diretor incomodou o mundo com Dogville (2003) e Anticristo (2009), mostrando alguns dos pontos mais cruéis da natureza humana. Mas com Melancolia (Melancholia, Dinamarca/França/Suécia/Alemanha, 2011), consegue tocar na ferida e nos mais profundos medos que nos sustentam.

Acompanhando a história de duas irmãs temos, de um lado, Justine (Kirsten Dunst), prestes a se casar com Michael (Alexander Skarsgård). Na esperada e luxuosa cerimônia, está Claire (Charlotte Gainsbourg) e seu pedante marido John (Kiefer Sutherland). A festa revela o lado profundamente depressivo de Justine, que não consegue conter sua melancolia nem mesmo no dia do próprio casamento.

Inicialmente mais racional, temos Claire apoiando a irmã mais nova, que desaba diante da iminência de um planeta chamado Melancolia, que pode vir a se chocar com a Terra. Neste ambiente claustrofóbico e extremamente melancólico, von Trier dilacera os nossos maiores medos com movimentos de câmera lenta, silêncios ensurdecedores, uma fotografia impecável e o (des)prazer de viver se esvaindo e/ou tomando forma.

De imagens que, de tão oníricas, inspirariam poemas épicos, Melancolia lida com a metafísica, o cosmos e o psicológico de seus personagens em conflitos que começam a ser exteriorizados diante da proximidade do planeta, com a melancolia inerente e permanente em locais, atitudes, gestos, expressões faciais. E em momentos de plena contemplação alternando câmera na mão seguindo as ações dos personagens, o filme se divide entre Justine e Claire com uma parte dedicada a cada uma delas, embora interajam em ambas.

Angustiante do começo ao fim, o longa, grandiloqüente por si só, traz Gainsbourg, sempre extremamente eficiente em suas interpretações mas a grande surpresa de Melancolia é, de fato, Dunst. Vencedora do prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes, ela cria uma Justine densa, profundamente imersa em suas amarguras.

E em um epílogo excepcional, favorecido pela trilha sonora carregada, observamos as atitudes de Justine e Claire diante do fim do mundo (tema tão explorado superficialmente pelos blockbusters hollywoodianos). E a pergunta se concretiza: se você estivesse diante dos seus últimos momentos, faria tudo ou não faria nada? E von Trier, que consegue embaralhar o psicológico de muitos, nos faz sair da sala escura com o peito apertado e a mente em ebulição. Gênio.

Confesso que minhas expectativas diante de A Árvore da Vida (The Tree of Life, EUA, 2011) eram grandes. O trailer intrigante e de imagens belíssimas, a mistura filosofia/religião/família e Terrence Malick na direção, diretor recluso que, antes do retorno com o ótimo Além da Linha Vermelha (1998), havia mantido um hiato de vinte anos sem dirigir. Depois, dirigiu a versão repaginada de Pocahontas com O Novo Mundo (2005), que trazia Colin Farrel e Christian Bale.

 Rumores de prováveis indicações ao Oscar 2012 e a Palma de Ouro em Cannes aumentaram ainda mais a curiosidade diante de A Árvore da Vida. Centrado em uma conservadora família americana nos anos 50, o filme acompanha o rígido pai Sr. O’Brien (Brad Pitt), a doce sra. O’Brien (Jessica Chastain) e seus três filhos, interpretados por Laramie Eppler, Hunter McCracken e Tye Sheridan.

O mais velho, Jack (Hunter McCracken) vai chegando à adolescência e enfrentando de frente a inevitável perda da inocência daquele mundo, aparentemente, tão perfeito. Da delicada e submissa mãe às frustrações do severo pai, Jack passa seus dias em meio a esse universo que, deixam marcas profundas em sua vida adulta (Sean Penn), incluindo quando lida de perto com a morte.  


Com pouquíssimos diálogos, o filme se entrega a imagens estonteantes em uma impecável fotografia, dando ao público de bandeja a chance de analisar por si só os eventos que permeiam o filme. Contemplativo e com um ritmo lento, A Árvore da Vida é, por si só, um filme sobre a própria natureza humana. Com elementos que remetem desde 2001 – Uma Odisséia no Espaço (1968) de Stanley Kubrick ao Fonte da Vida (2006) de Darren Aronofsky, Malick esmiúça a vida humana em imagens impressionantes – porém extensas e cansativas – que vão de fenômenos naturais ao cosmos.

As frases de efeito aliadas aos detalhes e planos de câmera inteligentes fazem de A Árvore da Vida um filme difícil de digerir de um garoto perdido entre a poesia materna e a realidade paterna. Sem a empatia necessária, podemos nos sentir jogados em um universo de lembranças que não são concretizadas na vida atual de Jack (resta a Sean Penn fazer caras e bocas tristes em sua monótona vida de executivo brevemente mostrada). É o silêncio de Malick querendo dizer algo, mas que não deixa claro a que veio.


E nesse ambiente, ora onírico ora claustrofóbico dos O’Brien, temos toda a fragilidade e força da natureza latente e prestes a explodir, seja ela em si ou de sentimentos velados. Entre silêncios e a trilha de ópera e cantos gregorianos, planos de câmera mostrando o ser humano entre a grandeza e pequenez diante de sua existência, temos um epílogo de rendição apático, que não emociona.

Diante de tanto a dizer, Malick se perde em sua própria contemplação, se rendendo às imagens e filosofia de traumas familiares que tentam tocar o público e, na minha concepção, falham em sua concretude etérea. Não comove, não incomoda e não evolui.

Existe um conceito popular que diz que boa parte das mulheres não são burras, mas se fazem de tal para enganar e manipular as pessoas. Dissimuladas, inteligentes, maquiavélicas são alguns dos adjetivos que muitos designam a este comportamento feminino. Em Potiche – Esposa Troféu (Potiche, 2010, França), do diretor François Ozon (O Refúgio,O Tempo que RestaO Amor em 5 TemposSwimming Pool – À Beira da Piscina8 Mulheres), uma personagem consegue ser a mistura na medida certa de todos esses adjetivos.

Ela é Suzanne (Catherine Deneuve, impecável), a potiche(vaso, em francês) do título, uma mulher rica que, na década de 70, vive com o marido Robert (Fabrice Luchini), um homem machista e que a trata como se ela fosse um mero vaso de decoração. Nesse ambiente de aparências e conservadorismo, a Suzanne resta apenas o amor dos filhos: a doce Joelle (Judith Godrèche), prestes a se separar do marido e o compreensivo Laurent (Jérémie Renier).


Presa em sua rotina de um casamento infeliz, Suzanne mantém a classe e o sorriso no rosto como se vivesse em perfeita felicidade. O marido, que preside a empresa do sogro, é sequestrado após uma greve dos funcionários, que o consideram um déspota explorador. Após solicitar a ajuda do político Maurice (Gérard Depardieu, ótimo), Suzanne terá de assumir as rédeas da empresa. E essa é a sacada de Potiche – Esposa Troféu: mostra como a dona de casa é capaz de se tornar uma líder sensata e de punho firme.


Ozon e Deneuve, que já haviam trabalhado no esplendoroso musical 8 Mulheres, trazem às telas a peça escrita pela dupla Pierre Barillet e Jean-Pierre Grédy, mantendo – embora com menos força – o teor teatral da história, com um elenco primoroso, ritmo, diálogos inteligentes e humor carregado de ironia e sarcasmo. Porém, as farpas trocadas entre os personagens que se confrontam em uma mistura ácida de sentimentos, política e negócios nunca beiram o deboche. Remetem, na verdade, às comédias dramáticas de Almodóvar e Wes Anderson, com inspiração, inclusive, nas cores carregadas e no visual kitsch.

O sexteto se completa com a iludida secretária Nadège (Karin Viard), que mantém um caso frustrante com Robert, mas, posteriormente, percebe que ambas são vítimas do empresário. E nesta aura dos anos 70, essa mulher-bibelô enfrenta seu universo de mentira e hipocrisia, evoluindo como ser humano e se abrindo ao mundo sem culpa ou medo diante de sua reputação.


Ozon, indicado ao Leão de Ouro no Festival de Veneza 2010 como melhor diretor e um dos diretores mais talentosos do cinema francês contemporâneo, traz uma câmera fascinada por Deneuve (que esteve no Brasil para lançar o longa), ainda exalando charme e beleza em seus 67 anos. E Potiche – Esposa Troféu, lançado no Brasil pela Imovision, já está em sua terceira semana consecutiva entre os dez mais assistidos no Brasil. Pelo visto, muita gente gostaria de ter um vaso raro como Catherine Deneuve para decorar sua casa. Ainda mais quando ela decide tomar as rédeas de sua vida e nos mostra que vaso bom também não quebra. Imperdível.

Diretor veterano, aos 73 anos o francês Claude Lelouch traz seu modo costumeiro de filmar histórias em seu mais novo longa, Esses Amores (Ces Amours-là,  França, 2010). Com roteiros que abrangem diversos países e continentes, personagens passionais e o contexto histórico de cada época agindo como fator de extrema influência, ele retoma de forma eficiente o sucesso de outros exemplos do gênero presentes em sua filmografia.


Da questão de personagens que passam pelas mazelas da guerra e as cicatrizes deixadas em Retratos da Vida, de 1981, Lelouch bebeu da própria fonte também de Toda Uma Vida, filme de 1974 que retrata diversos universos ao redor do mundo durante um século de histórias de vida. E, como não poderia ficar de fora de seu filme mais conhecido – e premiado - Um Homem, Uma Mulher (1966), que recebeu o Oscar de Roteiro Original e Palma de Ouro em Cannes, o cineasta explora o amor.

Nessa miscelânea, Esses Amores explora, durante duas horas, os amores vividos pela personagem Ilva (Audrey Dana). Do envolvimento com um universitário (o cantor e ator Raphaël), passando pelo conturbado romance com um oficial nazista (Samuel Labarthe) até ousar ainda mais e se envolver com dois soldados americanos (Jacky Ido e Gilles Lemaire) em um trágico triângulo amoroso.


O projeto, que era um sonho antigo de Lelouch e foi escrito a quatro mãos pelo diretor e por Pierre Uytterhoeven, deixa o público espantado e curioso quando afirma que quaisquer semelhanças do filme com a realidade não serão mera coincidência. A personagem de Ilva, “a mulher que se apaixona rápido porque coloca o amor acima de tudo”, permeia todo o longa, em uma oportunidade que Lelouch tem de declarar seu amor à música, ao cinema e, claro, ao amor.

Com um prólogo que vai agradar aos fãs do cinema mudo, a sétima arte vai estar presente em todo o envolvimento dos personagens, interligados pelos três elementos principais. Da trilha imponente feita para emocionar (com sucesso), Esses Amores vai costurando a história de cada um de seus inúmeros personagens que desembocam em Ilva durante quase setenta anos.

Falado em francês, alemão, italiano e inglês, Lelouch reafirma a linguagem universal do amor, que agrada aos mais românticos, embora resvale em certos clichês não prejudiciais no resultado final. O resultado, curioso e tocante, explora todas as vertentes desse sentimento, desmembrando-o em separação pela guerra, solidão, loucura, felicidade, perdas e ganhos, traições, lembranças e destino, só para citar alguns.


E das consequências desses amores, Ilva e os demais personagens vão amadurecendo, sofrendo como quem já sofreu por amor. E, como todo ato traz uma consequência, Ilva passa pelas mais diversas amarguras, resultado de uma vida longa e de uma mulher cuja personalidade não se encaixa com o conservadorismo das épocas em que viveu.

Bem dirigido, com uma bela fotografia e atores corretos em seus papéis, Esses Amores não é um dos melhores filmes de Lelouch, mas encanta por trazer, ainda, participações especiais da diva Anouk Aimée (de Um Homem, Uma Mulher) e da quase centenária Gisèle Casadesus (de Minhas Tardes com Margueritte, em cartaz nos cinemas), que emociona no espetacular epílogo, onde música, cinema e amor atingem seu ápice.

A história de dois personagens completamente diferentes que se conhecem e atingem uma maturidade por conta de uma amizade já foi tema de diversos filmes. Do oscarizado Conduzindo Miss Daisy (1989) ao clássico E.T – O Extraterrestre (1982), passando pelo melancólico Tomates Verdes Fritos (1991) até o brazuca Cinema, Aspirinas e Urubus (2005) e, sem esquecer de Mary e Max – Uma Amizade Diferente (2009) e o italiano Cinema Paradiso (1988).

Todos exploraram o tema de forma sincera e emocionante, cada um com sua peculiaridade. E é pegando carona nessa premissa que o francês Minhas Tardes com Margueritte (La Tête en Friche, França, 2010) garante seu lugar na estante de uma-amizade-que-tinha-tudo-para-dar-errado mas que, inesperadamente – ou justamente por conta disso – dá certo. E como dá certo.


Dirigido e com roteiro adaptado pelo veterano Jean Becker (O Olhar da InocênciaEstranhos JardinsConversas com Meu Jardineiro), o longa baseia-se na obra homônima da escritora conterrânea Marie-Sabine Roger, publicada em 2009 e conta a história da amizade entre Germain (Gérard Depardieu) e Margueritte (Gisèle Casadesus).

Ele, em seus cinquenta anos e cem quilos, é um grandalhão semi-analfabeto de bom coração. Ela, em seus cinquenta quilos e quase cem anos, é uma senhora letrada, doce e solitária. Quando ambos se conhecem ao observar os pombos em um parque, nasce uma relação tão profunda e generosa que, pra quem está do lado de cá da tela, é impossível não sentir inveja boa.


Germain, que vive em um presente atormentado pela figura da mãe eternamente hostil e já senil Jacqueline (interpretada por Claire Maurier), divide suas tardes entre os papos de bar com os amigos nada sensíveis e sua relação amorosa com a doce e jovem Annette (Sophie Guillemin). Porém, quando ele e Margueritte se aproximam, ela vai fazer com que ele descubra o prazer da leitura, apresentando-lhe um mundo que fará com que sua imaginação alce voos sem limites.

O diretor e roteirista Jean Becker mostra que seus 73 anos só lhe trazem carga e força dramáticade extrair de seus atores o máximo de suas performances. E os méritos não param por aí. Depardieu, despido do que lhe restava de vaidade, traz no doce grandalhão Germain a dose certa de sensibilidade que, aliado a Casadesus que, em seus impressionantes 97 anos, nos entrega de bandeja uma personagem fascinante em seu mistério e doçura. Finalmente, a mãe que Germain procurou durante toda a vida e não teve.

E com diálogos inteligentes e sensíveis, permeados pela literatura, olhamos encantados a afinidade que ambos encontram em um amor que tardou, mas não falhou. E o filme, que não tarda (são apenas 1h17min), ficamos aqui, compassivos de uma sutileza tão latente, passeando pelo vai e vem de seu passado e por visitas rápidas à sua imaginação, mostrando que a “la tête en friche” do título original (algo como “cabeça ociosa”) de Germain tem maior potencial do que nós – e ele – imaginamos.

E em Minhas Tardes com Margueritte, observamos, assim, essa senhora tão terna e indefesa, abrindo um novo mundo a Germain, o grandalhão de coração doce em que nem as mazelas da vida lhe tiraram a capacidade de se emocionar, sonhar e amar. Entre poucas palavras que dizem muito e uma naturalidade impressionante, somos capazes de rir de Dépardieu, que criou naquele doce grandalhão um dos personagens mais singelos e adoráveis do cinema francês, enquanto Casadesus, em seus 97 anos – sendo 77 de carreira – vigora em um filme poético por si só.

De confrontos inevitáveis a situações que emocionam sem apelar para o melodramático, Minhas Tardes com Margueritte é mais uma prova do cinema francês acertando de novo em sua delicadeza. Redondo e simples, prova que o menos, conforme dita o clichê, pode ser mais. Muito mais.

Confesso que considero Carros (2006) o filho “pobre” realizado pela Pixar e distribuído pela Disney. Apesar de ter arrecadado quase quatro vezes o que foi gasto em sua produção, não tem a pompa e emoção de outros tantos longas do estúdio, responsável por pérolas como Monstros S.A.,Procurando NemoWall-E, Up – Altas Aventuras e a impecável trilogia Toy Story.

Porém, John Lasseter e sua trupe decidiram virar a mesa e apresentar uma continuação superior ao original, uma tradição da Pixar, que comemora 25 anos em 2011. Em Carros 2 (Cars 2, EUA, 2011), dirigido por Lasseter (diretor de criação do estúdio) e Brad Lewis, tomando as rédeas de seu primeiro longa-metragem, as melhorias são inegáveis em visual e roteiro. Nota: aos fãs órfãos de Toy Story que forem ao cinema, ainda podem matar a saudade com a exibição de Férias no Havaí, que traz Woody, Buzz e companhia em um curta-metragem hilário exibido antes do longa.

Bom, chega de babar o ovo da Pixar e vamos ao filme. Relâmpago McQueen (novamente dublado por Owen Wilson), carro novato do primeiro filme é, agora, um campeão das pistas de corrida. Após um período de vitórias, ele retorna à pacata cidade Radiator Springs para rever a namorada Sally(Bonnie Hunt) e os amigos, em especial o caminhão-reboque Mate (Larry the Cable Guy). Prestes a disputar o grande Campeonato Mundial, ele terá de lidar com o egocêntrico e arrogante italiano Francesco (John Turturro), um carro de Fórmula 1 (qualquer analogia à Ferrari não é mera coincidência). Disposto a arrancar a taça de McQueen, Francesco e os outros carros precisam estar atentos a um plano meticuloso de alguém disposto a acabar com o campeonato a qualquer preço.

Com um prólogo de tirar o fôlego, Carros 2 bebeu da fonte dos melhores clichês dos filmes de espionagem para criar uma história com ritmo frenético, ação primorosa e um roteiro inteligente que, infelizmente, pode confundir o seu público infantil. Com uma trama repleta de reviravoltas e mistério, somos colocados dentro de um esquema que envolve disputa por petróleo e fontes de energia, temas tão em voga na atualidade. Bom para os adultos, mas nem tanto para os pimpolhos.

Porém, nem isso faz Carros 2 perder seus méritos. Apostando na manjada fórmula de destacar um personagem coadjuvante carismático e com responsabilidade de dar humor e carga dramática à história, temos no humilde e doce caipira Mate o grande destaque da animação (com McQueen no status de coadjuvante), colocado no centro do perigo, com direito até a um 007 de quatro rodas (Finn McMíssel, que ganhou a voz do britânico Michael Caine) e sua bela assistente Holley Caixa de Brita (Emily Mortimer).


Reciclando estereótipos de forma leve, passamos pela máfia – e a sensualidade – italiana, encontramos com o alemão sinistro e nos divertimos com as referências à cultura nerd – e tecnológica – japonesa. E em se tratando de tecnologia, é justamente ela que dá a Carros 2 o que ele melhor tem para oferecer: um universo onde automóveis, navios e aviões ganham vida e chegam repletos de engenhocas que deixariam o Batmóvel mordido de inveja, em um visual de encher os olhos (embora não se beneficie em sua versão 3D).

Com um epílogo tão emocionante como seu prólogo, nos deparamos com uma perseguição que, de acordo com 10 entre 10 cartilhas sobre filme de ação norte-americano, é obrigatória. E com toda essa ação, Carros 2 ainda reserva espaço nas tradicionais lições de moral, que aqui tratam de amizade e de ser quem realmente se é sem ter vergonha disso. Quem sabe, futuramente, seja realizado um longa especialmente para o caipira Mate? Podemos esperar de tudo com relação à Pixar. E devemos agradecer muito a isso.

Mais um representante da programação oficial do Festival Varilux de Cinema Francês, Uma Doce Mentira (De Vrais Mensonges, França, 2010) trouxe a atriz Audrey Tautou, eternizada como a personagem Amélie Poulain, para promover o filme no Brasil. Sorte de nós, brasileiros, que recebemos a bela Tautou (considerada musa da nova geração do cinema francês) e seu filme mais recente, uma deliciosa comédia francesa, no sentido mais literal que se possa ter.

Como crítico, confesso que me incomodou assistir Uma Doce Mentira. A razão? Não encontrar motivos para falar mal do longa do diretor e roteirista Pierre Salvadori (Après vous…, Les Marchands de Sable e Amar não Tem Preço, este também com a presença de Tautou). Confesso que há tempos uma comédia não me agradava tanto.

Em Uma Doce Mentira, a atriz interpreta Émilie, uma jovem que é dona de um salão de cabeleireiro junto com a amiga Sylvia (Stéphanie Lagarde). Lá, ela trabalha com o tímido Jean (Sami Bouajila), uma espécie de faz-tudo do local. Entre pinturas e manutenção elétrica do local, ele esconde seus sentimentos por Émilie e lhe envia uma carta de amor anônima, que é tratada com descaso pela cabeleireira. Ela, ao ver a mãe, Maddy (Nathalie Baye), depressiva após ser abandonada por uma moça bem mais jovem e descrente de que atraia a atenção de qualquer homem, vê na romântica carta de Jean a oportunidade de trazer de volta a alegria de Maddy. Está criada a teia de confusões e mal entendidos que permearão todo o filme.

Quando se sente amada à distância Maddy vai, a todo custo, em busca da identidade do autor e, quando por uma ironia do destino, se depara com o próprio Jean, a vida dos três se transforma em um turbilhão de confusões e equívocos que farão a plateia se deliciar com o trio central, interpretados com extrema competência e afinidade, especialmente no timing para comédia.


A tempo, outra qualidade que pesa a favor de Uma Doce Mentira é a qualidade do roteiro que, nunca perdendo o ritmo em sua direção segura e apoiando-se no carisma intocável de seus personagens, traz cenas memoráveis e inteligentes. Fica difícil escolher uma favorita: Émilie se entupindo de vodka para escrever uma carta de amor (para a própria mãe); o momento em que Émilie diz, depreciando, ao próprio Jean o que pensa do autor da carta ou a maior das consequências, quando Maddy tenta conquistar Jean a todo o custo.

Nathalie Baye e Audrey Tautou estão ótimas como mãe e filha, mas se Uma Doce Mentira tem seus méritos, boa parte deles são de Sami Bouajila, que cria em Jean um personagem cativante em sua introspecção e timidez, misturando expressões faciais que dizem mais em seus silêncios do que muitas linhas. E nesse jogo de mentiras e segredos, ele é quem se destaca, quando se vê como objeto de desejo da mãe da mulher pela qual está apaixonado.

E nesse desconforto hilário, com sua bem cuidada fotografia, humor ácido e ritmo que nunca perde o fôlego, Uma Doce Mentira é uma despretensiosa comédia que se destaca pela qualidade e se sobressai em seu ritmo cativante do começo ao fim. Até mesmo em seu epílogo, que fecha com chave de ouro, no melhor estilo vaudeville.


Queria pedir permissão ao leitor para começar esta crítica com uma história pessoal. Trata-se de uma grande amiga que, tempos atrás, vivendo às turras com a mãe, comemorou quando tiveram de se separar (a mãe ia para o Rio de Janeiro e ela permaneceria em São Paulo). A distância, acreditavam as duas, faria bem para a relação, que já estava desgastada pela convivência diária. Porém, logo começaram a sentir uma saudade descomunal uma da outra e, quando voltaram a morar juntas (a minha amiga também se mudou para o Rio posteriormente), as brigas voltaram a acontecer.

Já li uma vez que o ser humano é como um porco-espinho: quando vivem muito próximos, se machucam e, quando se separam, morrem de frio. E é esse o ponto de partida de Copacabana (idem, França/Bélgica, 2010), comédia do diretor e roteirista Marc Fitoussi, que entra na programação oficial do Festival Varilux, que teve início no dia 8 e está espalhado pelo Brasil em 22 cidades.


Babou (Isabelle Huppert) é o tipo de mulher de meia idade que não se preocupa com os convencionalismos: se veste de modo espalhafatoso, diz o que quer, aproveita-se das oportunidades para se dar bem e não se preocupa com carreira ou com o que vão pensar sobre ela. Para alguns, seria uma ótima amiga e uma mulher de espírito livre. Porém, quando se trata de sua filha Esméralda (Lolita Chammah), é julgada como uma inconsequente, gerando uma relação complicada e praticamente insustentável.

Porém, quando Esmé diz que vai se casar e assume, com todas as letras, que não quer a presença de Babou na cerimônia, ela decide dar um novo rumo à sua vida, mudando-se para uma monótona cidade na Bélgica, onde arruma um emprego em uma imobiliária. Disposta a provar que pode ser uma pessoa “de respeito” para a filha, ela vai descobrir – e se descobrir – capaz de mudar não somente para agradar Esmé, mas também para si mesma.


O título do filme, que remete ao amor que Babou sente pelo Rio de Janeiro, é uma grande homenagem do cinema francês ao Brasil, com uma trilha repleta de canções tupiniquins e uma personagem de espírito livre, capaz de encantar e fazer rir boa parte do público na sala de cinema. Isso deve-se, principalmente, a Isabelle Huppert. Vencedora de dois prêmios em Cannes (Violette Nozière e Professora de Piano), é uma das grandes divas do cinema francês contemporâneo que, mais do que interpretar, dá vida a Babou com classe e competência intocáveis.

Com um roteiro bem escrito e leve – apesar de tocar na ferida da relação mãe em filha quando necessário – acompanhamos a rotina de Babou na tediosa cidade belga e sua relação com os outros funcionários, desde a hostil e invejosa Irene (Chantal Banlier) até a exigente chefe Lydie (Aure Atika), além do compreensivo Bart (Jurgen Delnaet), que surge como um caso amoroso e do casal sem-teto Sophie (Magali Woch) e Kurt (Guillaume Gouix), peças-chave para que Babou (re)descubra sua natureza caridosa.


Tratando com delicadeza do tema, sem tomar lados, Copacabana foca nesse  acerto de contas entre mãe e filha, sempre atual, com delicadeza e sinceridade, mas sem perder o foco na comédia. E faz isso com gostinho brasileiro, com Huppert em uma cena no páreo de se tornar antológica em que, no epílogo, ela se esforça em passos de samba e até arrisca uma frase em português, deixando os fãs da atriz com um sorriso largo no rosto. Merece ser conferido.

É curioso observar a ousadia de Nous Étions Un Seul Homme (Nós Éramos Um Só Homem, em tradução literal), filme francês de 1979 dirigido por Philippe Vallois. Numa pequena vila rural durante o final da Segunda Guerra, o camponês Guy Rouveron (Serge Avedikian) resgata Rolf (Piotr Stanislas), um soldado alemão ferido nas proximidades de sua casa.

Aos hospedar o militar, a relação dos dois vai se transformando em uma mistura de amizade, ódio e tensão sexual. Infantilizado e, ao mesmo tempo, sexual, Guy vai se tornando um objeto de desejo de Rolf, que camufla seus sentimentos pelo jovem, cada vez mais perturbado mentalmente.

Com produção limitada, que lembra as obras neo-realistas do cinema italiano, Nous Étions Un Seul Homme traz semelhanças, ainda, com as obras carregadas de teor sexual de Pasolini, com um humor carregado de qüiproquós, com ritmo rápido e aspecto teatral.


O interessante é observar a relação da dupla, que inclui a bela Jenine (Catherine Albin), que mantém um caso às escondidas com Guy, provocando ainda mais o ciúmes em Rolf.

Sem muitas ações acontecendo no dia a dia dos dois em meio à paisagem rural, o filme foca na tensão homoerótica que transborda na tela, com direito a nu frontal masculino (uma ousadia para a época) e cenas convincentes de sexo.


Misturando surrealismo , viagem pelo inconsciente, distúrbios mentais e obsessão, o filme incomoda ao mostrar dois personagens impossibilitados  de viver juntos e incapazes de se separar. E o resultado final, como haveria de ser, não é nenhum mar de rosas.

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